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Nova diretoria entra atirando
Novos membros da diretoria da Funcef dizem que gestão anterior perdia dinheiro mantendo recursos de pipelines em aplicações rendendo DI

Edição 337

Após um mês de empossado na presidência do fundo de pensão dos funcionários da Caixa, a Funcef, Gilson Costa de Santana já tem um diagnóstico da situação com duas prioridades na agenda: recuperar a governança da entidade que segundo ele estava baixa na entidade e encarar de frente o tema da gestão dos passivos previdenciários dos planos, especialmente do plano de benefício definido não saldado.
Ele assumiu a direção da fundação no dia 18 de maio último, juntamente com o diretor de participações e investimentos imobiliários, Almir Alves Junior, sendo seguido na semana seguinte pelo diretor de investimentos, Samuel Crespi, cujo nome teve que ser avalizado pela Previc para ser o Administrador Estatutário Tecnicamente Qualificado (AETQ). Os três foram indicados pelo Conselho Administrativo da patrocinadora para substituir a antiga diretoria, composta por Renato Villela, Wagner Duduch e Andrea Morata Videira, desligados respectivamente dos cargos de presidente, diretor de Participações e diretor de Investimentos da entidade em 12 de maio.
Segundo Santana, na agenda de recuperação da governança um dos pontos de maior destaque será a definição de regras de investimentos para aplicar os recursos que encontram-se no pipeline da entidade, que foram incluídos na Política de Investimentos mas ainda não tiveram aprovadas as normas internas para alocação nos destinos. Apenas em dois pipelines, de investimentos no exterior e fundos imobiliários, existem cerca de R$ 2 bilhões sendo remunerados desde o início do ano por taxas de CDI (Certificados de Depósitos Interbancários).
“Enquanto as normas internas de investimento não saem, precisamos de mecanismos para a alocação transitória e sem tomada de riscos desses recursos, em ativos que remunerem melhor a carteiras dos planos”, analisa Santana. “Seja com a Selic a 4,25%, como é hoje, ou a 2% como era no começo do ano, essas aplicações estão muito aquém do que seria necessário para pagar a nossa meta atuarial”.
Dos R$ 2 bilhões remunerados à taxas DI, cerca de R$ 1,2 bilhão são para investimentos no exterior e R$ 800 milhões para fundos imobiliários. No caso do pipeline para investimentos no exterior, as normas internas foram aprovadas recentemente, após a chegada da nova diretoria. “Mas não foi por influência nossa não, elas já estavam em andamento e pouco depois da nossa chegada elas foram aprovadas”, diz. “Porém já perdemos meio ano com esses recursos sendo remunerados a DI”.
Ele cita algumas avaliações do mercado que consideram a atuação da diretoria antiga como excessivamente conservadora, principalmente em um cenário de taxas de juros baixas. Segundo ele, a avaliação não é originalmente sua ou do Conselho Administrativo da patrocinadora, mas passou a adotá-la depois que assumiu e tomou contato com a gestão dos ativos. “Havia muita lentidão na alocação desses recursos do pipeline”, afirma. “A gente observa que a alocação só era feita no final do ano, por volta de novembro. Até lá os recursos ficavam rendendo DI”, reclama Santana.
O ex-presidente da Funcef, Renato Villela, discorda dessa avaliação. Para ele, “os resultados extremamente favoráveis do primeiro trimestre de 2021 falam por si mesmos”. Já a ex-diretora de investimentos da fundação, Andrea Morata Videira, diz que a sua diretoria “seguia o ALM aprovado e também os normativos vigentes aprovados. E a classe de liquidez não rodava apenas em ativos atrelados ao CDI”.
Apesar das críticas à gestão dos investimentos, que segundo Santana era excessivamente conservadora na diretoria anterior, a nova diretoria não está trabalhando no sentido de revisar a política de investimentos. Até porque, segundo Santana, isso seria muito complicado. “A governança da aprovação da política de investimentos é mais delicada, tem que ir ao Conselho Deliberativo, precisa de estudos atualizados que justifiquem essas mudanças”, afirma.

Ainda naquele capítulo que Santana chama de recuperação da governança corporativa, a nova diretoria deliberou duas semanas após assumir o cargo a retomada de todos os processos que estavam suspensos desde o início da pandemia. “Alguns estavam suspensos há dois anos”, afirma o presidente da fundação. Segundo Santana, a maioria desses processos referem-se à irregularidades ocorridas no âmbito da operação Greenfield, deflagrada pela Polícia Federal no ano de 2016 para apurar gestão fraudulenta de investimentos de fundos de pensão estatais, entre eles a Funcef, junto aos FIPs Sondas, Florestal e Multiner.
Segundo o presidente da Funcef, a suspensão das investigações internas pela diretoria anterior teria ocorrido devido ao início da pandemia da Covid-19. “Mas, na nossa visão, já passou bastante tempo e todos nós aprendemos a trabalhar nessa situação de Covid, seja em home office ou em esquema híbrido, e achamos que é possível retomar as investigações para apurar os fatos e levar as conclusões à quem de direito, seja Previc, Ministério Público ou Polícia Federal”, afirma. “Inclusive a Previc já vinha cobrando medidas nesse sentido da fundação, em dois casos ela já tinha pedido para que a Funcef estabelecesse um prazo para a conclusão das investigações”.
O presidente da Funcef aponta também, ainda no capítulo da recuperação da governança corporativa, a necessidade de uma revisão no plano estratégico da fundação, que deve ser periódica e não estava sendo feita, além da implementação de um estudo de headcount (mede a eficiência do pessoal empregado). “Vamos trabalhar nessas direções”, diz.

Já no capítulo que ele classifica como gestão dos passivos, a prioridade é olhar de forma mais atenta “os contenciosos previdenciais da fundação”, em especial do plano de benefícios não saldado, à luz da Instrução CGPar 25. Segundo Santana, a implementação das regras dessa instrução teria o potencial de “provavelmente zerar o déficit acumulado do plano não saldado”. Isso seria possível, explica, a partir da desvinculação com a política salarial da patrocinadora e também do regime geral da previdência. “A CGPar 25 determina uma revisão nesse sentido, que não foi feita devido a obstáculos jurídicos criados pela regra estatutária da fundação que exige quórum qualificado (de quatro votos) para alterar benefícios. Mas como essa exigência afronta a Lei Complementar 108, que prevê o voto de Minerva, ela não será respeitada”, diz o presidente da Funcef. “O Conselho da entidade tomou a decisão de adequar o plano saldado à CGPar 25 sem aplicar o quórum qualificado”, explica.
Além disso, considerando o impacto da regra CNPC 30 sobre o plano, a fundação tem adiantado conversas com a patrocinadora no sentido de “usar outra métrica para fazer o equacionamento do déficit”. Segundo Santana, “estivemos hoje pela manhã (18/06) com a vice-presidência da Caixa e pedimos que eles fizessem os estudos deles para começarmos a interagir”, explica. “A busca de novas métrica não tem o potencial de reduzir o déficit, mas pode reduzir o comprometimento de renda do participante e da patrocinadora “.

FIPs e FIIs encabeçam as prioridades
Os dois temas de maior preocupação para o novo diretor de participações e investimentos imobiliários da Funcef, Almir Alves Junior, são os Fundos de Investimentos em Participações (FIPs) e os investimentos imobiliários (FIIs). É principalmente sobre esses dois segmentos, que ocupam lugar de relevo na sua agenda de trabalho, que ele tem se debruçado desde que assumiu o cargo, há um mês. “A nossa idéia com relação aos FIPs é tornar líquido o que for possível, inclusive levando a mercado para IPOs algumas fintechs, e enfrentar na outra ponta aqueles investimentos que são completamente ilíquidos”, diz.
Para o presidente da Funcef, Gilson Costa de Santana, entre as participações que são completamente ilíquidas estão as relacionadas à operação Greenfield. Segundo ele, a saída por estar na alienação dessas participações. “Nós perguntamos: É possível resgatar? Se não for, não precisamos manter em carteira, podemos alienar. Não podemos ficar perpetuando um problema que só gera despesas”, diz.
Em relação aos investimentos imobiliários, Alves Junior diz que a fundação possui 90 imóveis listados para desinvestimentos, dos quais 40 são agência bancárias alugadas ao patrocinador. Em relação a essas, ele adiante que existem negociações em andamento com a Caixa para renovar os contratos de aluguel por um prazo mais longo, de 10 anos, e a partir daí criar um fundo de investimentos imobiliários exclusivo. “O martelo ainda não está batido, mas estamos negociando nessa direção”, afirma.
Segundo Alves Junior, a pandemia castigou muito a carteira imobiliária da Funcef. “Hoje, 20% dos imóveis são responsáveis por 80% do retorno da carteira”, diz. Ele acredita que, com o avanço da vacinação, a performance da carteira tende a melhorar, principalmente devido à melhoria que deve ocorrer nos segmentos de hotelaria, shoppings e lajes corporativas.
O diretor de investimentos, Samuel Crespi, diz que a fundação está aproveitando algumas oportunidades na área de renda fixa, para investir em títulos privados, aproveitando o fechamento das NTN-Bs que ocorreu nas últimas semanas. “Temos que ter agilidade para aproveitar essas oportunidades”, diz.
Segundo ele, a fundação também está analisando a carteira de renda variável para ver que empresas são mais impactadas, para o bem e para o mal, com a queda do câmbio nas últimas semanas. A fundação tem aparecido frequentemente no ranking Top 5 do Banco Central nas projeções de câmbio para o médio prazo.