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Self service sofisticado
Os fundos de fundos caíram no gosto dos grandes investidores, por trazerem diversificação e mais facilidade na gestão dos portfólios

Edição 341

Tem crescido entre os investidores institucionais brasileiros a utilização dos fundos de fundos, também conhecido pelo acrônimo FoFs adotado a partir do termo em inglês funds of funds, como meio de simplificar a gestão das carteiras de investimentos. Levantamento feito pela empresa de análises de investimentos ComDinheiro, à pedido de Investidor Institucional, encontrou 344 FoFs direcionados à clientes institucionais (ver critérios no quadro à página 14), distribuídos nas classes de renda fixa, multimercados, ações e investimentos no exterior.
Na apresentação desses fundos ao leitor, optamos por um rankeamento simples a partir apenas da rentabilidade de cada um em relação à sua classe. Isso porque muitos desses FoFs têm como gestor, ou melhor dizendo alocador ou até mesmo curador como alguns já se autodenominam, várias entidades de previdência que não buscam necessariamente a melhor performance mas sim aquela que mais se adequa à sua necessidade atuarial. Dessa maneira, não faria sentido a seleção dos melhores seguindo critério de índice de sharpe. Além da posição de rentabilidade dos fundos, o ranking também traz o retorno de 12, 24 e 36 meses na data de 30 de setembro (apenas a de investimentos no exterior é 20 de setembro), além do número de cotistas EFPCs, RPPSs e o patrimônio líquido. O levantamento feito por ComDinheiro resultou em 62 alocadores.
Com 52 FoFs neste ranking, a Bram (Bradesco Asset Management) mantém há quinze anos uma área específica para cuidar dessa estratégia. A área, chamada de soluções de investimentos, combina a utilização de produtos próprios e de terceiros, explica o seu superintendente, Adilson Ferrarezi. “O processo de escolha é robusto e o nosso “empório” de fundos segue processos qualitativos e quantitativos antes de aprovar o que irá para a prateleira, catalogando gestores por especialização e skills”, diz. Ele comanda um time de 23 profissionais, que fazem a gestão de R$ 80 bilhões investidos em 800 fundos, de 180 gestores, além dos produtos do Bradesco. De acordo com Ferrarezi, o universo de investidores institucionais responde por 10% desses R$ 80 bilhões, com 35 mandatos de EFPCs.
A Bram dobrou sua área de FoFs nos últimos 12 meses, crescendo 25% em número de mandatos e incluindo 45 novos gestores, principalmente internacionais, às opções de investimento. “Estamos avançando agora para os fundos alternativos, porque a indústria tem demandado esse lado”, pontua Ferrarezi. Em meados de dezembro, uma oferta restrita, já registrada na CVM, marcará o lançamento do primeiro FoF de private equity da casa, um fundo que investirá nos melhores alternativos de private equity com diversificação por empresas, por estratégias e por safras.
Do total da área, 30% estão em fundos multimercados, 20% em ações, 20% a 25% em renda fixa, 10% em crédito e 10% em fundos internacionais. “Estamos construindo uma franquia muito forte em exterior, que começou há dois anos e meio com uma cesta tradicional de ações globais e avançou em 2020 para uma plataforma ESG global, renda fixa e ações”, lembra. A casa lançou o primeiro FoF de China, um fundo de REITs com liquidez e hoje tem dez FoFs globais, informa o superintendente.
O modelo adotado pela casa reforça o pilar da customização e cria um “lego” para a construção do portfólio, de acordo com o modelo de investimento de Yale, observa Ferrarezi. Ele ressalta a importância da área de analytics para essa construção, utilizando uma base gigantesca de fundos avaliados e ranqueados de acordo com métricas de performance, risco e estatísticas.
A partir desse ponto, um time de 12 pessoas monta um ranking qualitativo baseado em quatro critérios: pessoas, processos, posicionamento da gestora e tipo de produto com capacidade de gerar valor em conjunto. “Há cerca de 800 gestores independentes na indústria de fundos no Brasil, então é preciso saber escolher com cuidado e 60% das nossas decisões vêm da parte qualitativa da análise, ficando 40% para os aspectos quantitativos”, detalha.
Na due diligence quantitativa entra também a avaliação ESG e todos os gestores passam por um filtro de governança e sustentabilidade social, “Construímos um screen ESG que avalia e atribui notas às gestoras para evitar riscos nesses quesitos”, diz Ferrarezi.
Mensalmente, um comitê de alocação analisa o cenário atual e decide por desvios táticos. “É necessário ter essa disciplina porque, apesar de horizonte de longo prazo dos fundos de pensão, os desvios táticos são importantes se houver quebra de mandato do ponto de vista de risco ou saída de pessoas-chave nos fundos investidos”, aponta Ferrarezi. Nesses casos, o desinvestimento é automático. Independente dos desvios táticos, o cenário para 2022 é desafiador do ponto de vista político e a construção dos portfólios terá que ser capaz de olhar para prêmios de risco num horizonte de dez anos, lembra Ferrarezi.

A área de fundos de fundos do Itaú dobrou de tamanho desde 2018, saindo de R$ 140 bilhões naquele ano para R$ 274 bilhões em outubro passado. A área tem estrutura própria e autonomia operacional, fazendo a gestão de 1.500 fundos com 158 gestores no Brasil e 85 no exterior. Com uma arquitetura aberta, diretoria independente e um time de 43 profissionais, sua atuação acontece em três frentes: operações, tecnologia e pesquisa (local e internacional) para selecionar gestores externos que compõem a grade de produtos junto aos da Itaú Asset. “O objetivo é trazer o melhor de cada um deles e a nossa independência é a grande vantagem porque conseguimos buscar o mais interessante para cada cliente”, diz o diretor da área, Pedro Barbosa.
A seleção de gestores é qualitativa e quantitativa e atende a vários canais ligados ao banco, desde family offices até os institucionais. O total sob gestão tem evoluído em aumentos de 30% ao ano desde 2017 e há atualmente cerca de 586 mil cotistas, observa Barbosa. “A rentabilidade líquida obtida pelos fundos tem sido um ponto essencial para esse crescimento. Também temos investido em novos gestores de recursos e este ano lançamos o projeto rising stars, em parceria com a asset, por meio do qual investimos e participamos da receita de novos gestores no Brasil”, conta.
Entre as estrelas, por sinal,está o nicho dos FoFs internacionais, com quase R$ 11 bilhões sob gestão e que passaram a oferecer estratégias de private equity/venture capital, além de hedge funds. O interesse por alternativos está crescendo aqui e lá fora também, com destaque para o apetite pelo private equity/venture capital no caso do mercado global”, diz Barbosa. Ele lembra que a casa é vista como especialista no Brasil em termos de acesso aos gestores, como se fosse um alocador independente.
O carro-chefe, um fundo multiglobal de equities, chegou a R$ 1 bilhão este ano, é um dos principais produtos para institucionais. “O processo todo de seleção segue uma governança robusta e sem participação das áreas de distribuição ou do investment bank. Há dois comitês formais e oito estágios no processo de avaliação, sendo que o mesmo modelo é utilizado para os fundos lá fora”, explica Barbosa. Depois de selecionar os fundos, há um sub universo que passa a ser monitorado de perto. São 170 hedge funds e 52 deles em active watch.
O exterior tem crescido tanto em produtos para brasileiros investirem lá fora quanto em mandatos para os clientes internacionais do Itaú. “O brasileiro poder investir no mercado global foi a grande inovação e já tínhamos essa bagagem para atender à demanda, só viemos ampliando a grade”, afirma Barbosa. O Itaú tem 13 FoFs no ranking de Investidor Institucional.

Com R$ 13 bilhões sob gestão em fundos de fundos (entre veículos abertos e exclusivos), o BNP Paribas reflete a demanda aquecida por esse tipo de veículo, tanto que duplicou o tamanho do time exclusivamente dedicado a eles, que em dois anos passou de dois para quatro profissionais, explica Tiago Cesar, gestor da área de FoFs. A estrutura é segregada dentro da gestora, conforme exigência regulatória, e não fica sob o comando do CEO da asset.
A duplicação de tamanho, diz Cesar, era necessária para atender à seleção rigorosa de gestores, feita a partir de critérios qualitativos e quantitativos, assim como para acompanhar de perto um universo de mais de 100 fundos de aproximadamente 40 gestores locais e dez fundos globais, incluindo o próprio BNP Paribas lá fora. A casa prepara quatro novos FoFs, que estão em fase final de lançamento, para investir em crédito, ETFs globais de renda variável e dois mandatos exclusivos ainda em 2021. A BNP Paribas tem 16 FoFs no ranking Investidor Institucional.
A casa divide a seleção de gestores em duas etapas. Na primeira, o time de FoFs dedica bastante tempo à análise de estratégias e combina fundos com as melhores estatísticas aos resultados de uma due diligence que é focada, entre outros pontos, nos princípíos ESG. As áreas de risco , compliance e pesquisa são utilizadas como suporte da equipe de FoFs. A segunda etapa envolve a combinação de mandatos, com um grau maior de customização por trabalhar com um número grande de fundos exclusivos. A fórmula para atingir o mix correto é fundamental em FoFs, lembra o gestor. “Combinar os fundos certos na proporção errada não dá certo, é preciso tratar com atenção a macroalocação nas diversas classes e saber o quanto ajustar por meio de uma gestão ativa e dinâmica dessa carteira”, destaca.
A casa passou a cobrir mais ativos de renda variável e renda fixa de dois anos para cá, aprofundando também a presença em FoFs de investimento no exterior e preparando-se agora para crescer em FoFs de FIPs e de FIDCs mais estruturados, incluindo fundos florestais. Atualmente, os FIDCs entram nas carteiras apenas de modo indireto, quando os gestores de crédito decidem investir em alguns deles. “Temos feito também alguns FIPs e FIDCs de modo “cirúrgico”, especificamente para casos de acordos com os clientes”, conta.
Na prática, a customização via FoFs exige sempre um contato muito próximo com os clientes, “As EFPCs têm buscado mais soluções e enviamos um número maior de propostas este ano porque a demanda delas nos faz reagir mais nessa área”, explica Cesar. São mais de 100 fundos acompanhados de perto, boa parte deles em renda fixa e renda variável. Exterior e multimercados têm crescido e exigem tempo, dedicação e interesse do time para avaliar se os gestores escolhidos conversam de fato com os portfólios. Os cerca de dez fundos de exterior englobam dez gestores internacionais, via feeders e quanto menor a rotação de gestores, melhor. Essa aliás é uma regra que se aplica aos FoFs de modo geral. “Quanto menos girar, melhor porque significará que os gestores estão cumprindo o seu papel; fazemos diligence rigorosa na seleção para poder ficar o maior tempo possível com eles”, detalha.
Entre os cuidados para rotação de gestores, um princípio inviolável é acompanhar de perto o giro das equipes para detectar a saída de profissionais-chave para a gestão e eventuais desvios de mandatos. No BNP Paribas esse acompanhamento é mensal. “Rodamos os mapas da concorrência para desafiar as convicões e saber se estamos perdendo alguma coisa nova, além de garantir a manutenção dos estoques”, afirma.

A Icatu Vanguarda tem 30 a 40 fundos de fundos, com cerca de R$ 6 bilhões sob gestão, representando crescimento de 30% neste ano. Os FoFs de institucionais, presentes no ranking, somam 22. Com um time de oito pessoas, a casa usa o seu expertise em análise e investigação. “Fazemos apenas FoFs multiestratégias, que permitem forte diversificação entre classes e gestores, explica o portfólio manager da gestora, Fernando Palermo.
Na primeira etapa de construção do portfólio é aplicado o topdown (de cima para baixo), casando estudos de risco com a análise de cenários para a montagem da macroalocação, com objetivos de médio prazo segundo o horizonte de investimento dos clientes. Depois disso, na fase bottom up (de baixo para cima), entra em cena a análise micro, com especialistas de cada segmento escolhendo gestores das diversas classes que sejam capazes de gerar resultados adicionais.
Além disso, há um processo de due diligence com o acompanhamento do histórico dos fundos e das equipes, que passa pela aprovação de um comitê. “O analista que apresenta o fundo ao comitê é o head da área de referência (renda variável, renda fixa ou outra classe) e a aprovação tem que ser unânime”, detalha Palermo. Em seguida o comitê estabelece o rating com notas de um a cinco e o percentual de alocação no fundo será definido de acordo com essa nota. Isso permite escalonar melhor a escolha, se o fundo com a melhor nota estiver fechado a opção recairá sobre o fundo que teve a nota seguinte.
“O processo de substituição de um fundo é matricial e qualitativo”, afirma o gestor. A cada mês a equipe explode as carteiras para ver o consolidado das posições diretas em cada ativo e conferir se faz sentido, ou seja, se o fundo diversifica de fato. Palermo enfatiza que a decisão de sair de uma determinada estratégia só ocorre se houver descumprimento do processo de investimento ou alguma mudança muito relevante nesse sentido.
A crise do ano passado trouxe um aprendizado importante. “Alguns gestores que performaram mal em 2020 tiveram aqui uma nota maior, porque a longo prazo eles melhoraram seus processos e ajustes ao risco. Também levamos em conta a disciplina dos gestores, a composição da equipe e o seu impacto no investimento. O que nos leva a desinvestir é sempre uma mudança relevante no processo e nunca a performance de curto prazo”, afirma Palermo.
Para o CEO da Icatu Vanguarda, Bernardo Schneider, o processo de inclusão e de exclusão de gestores precisa ser especialmente criterioso porque o FoF é um veículo inteligente e interessante para portfólios com grande descolamento. “É preciso levar em conta que os gestores passam por vários ciclos e não funciona para o FoF fazer desinvestimento num determinado gestor a partir exclusivamente da observação de janelas de curto prazo”, diz Schneider.

Para entender o ranking
Este ranking analisa apenas fundos de fundos (FoF, na sigla em ingês), com aplicações de investidores institucionais, sejam fundos de pensão ou RPPS, a partir de pesquisa realizado pela empresa ComDinheiro. A análise e classificação é feita de acordo com os seguintes critérios:
1 - Foram analisados apenas fundos de Renda Fixa, Ações e Multimercados com 12 meses na base Anbima na data de 30/09/2021 e Investimentos no Exterior com 12 meses na base Anbima na data de 20/09/2021.
2 - Foram analisados apenas fundos com um máximo de cinco cotistas, dos quais pelo menos um deve ser institucional, seja fundos de pensão ou RPPS
3 - Foram analisados apenas fundos com um máximo 25% do seu Patrimônio Líquido (PL) aplicados em produtos da própria gestora
4 - Não foram analisados fundos com Patrimônio Líquido inferior a R$ 10 milhões.
5 – O ranking hierarquiza os fundos pela sua rentabilidade, mostrando na coluna “Posição” o lugar que ele ocupa dentro da sua classe e o número de fundos dessa classe.

Alocador e Nº de Fundos (em pdf)

Ranking Fundos de fundos (em pdf)