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Libertas adota modelo híbrido
Modelo permite que colaboradores escolham os dias em que querem fazer trabalho presencial, com comitês que mesclam presença física com online

Edição 345

Na última reunião do Comitê de Investimentos da Fundação Libertas, ocorrida na primeira quinta-feira de maio, dos oito membros que formam o colegiado, três participaram em transmissões online realizadas a partir de suas próprias casas, localizadas em cidades situadas a centenas de quilômetros da sede da fundação, em Belo Horizonte. Cesar Danieli e Fernando Viguê, respectivamente diretor de seguridade e especialista de risco de investimento, estavam em Brasília (DF), enquanto o portfólio manager, Marco Aurélio Litz, estava em Curitiba (PR).
Do quadro atual de 120 funcionários da Libertas, fundo de pensão patrocinado por empresas estatais de Minas Gerais, 23 moram fora da região metropolitana de Belo Horizonte, sendo doze no próprio estado de Minas Gerais, em cidades do interior afastadas da Grande BH, e onze em outros estados. O próprio presidente da entidade, Lucas Nóbrega, mora em São Paulo e divide seu tempo entre a capital paulista e a mineira. Dos funcionários que moram em outros estados, cinco residem em São Paulo, incluindo Nóbrega, três em Brasília, dois no Rio de Janeiro e um em Curitiba. Havia ainda um funcionário morando em Fortaleza, mas se desligou da fundação recentemente.
Dos que fazem parte do comitê de investimento, Nóbrega e Danieli foram contratados em janeiro de 2020, um mês antes de surgirem os primeiros casos de Covid-19 no Brasil e dois meses antes do início das medidas de restrição social adotadas pela maioria das empresas. Já Viguê e Litz, foram contratados em plena pandemia, em março de 2021 e julho de 2021, respectivamente. Eles fazem parte do contingente de 30% de funcionários contratados durante a pandemia. “Não houve aumento do quadro de pessoal, as contratações foram para repor o turn-over e os desligamentos”, explica Nóbrega.
Durante a fase mais aguda da pandemia, a maior parte dos funcionários foi liberada do trabalho presencial e passou para um esquema de home office. A fundação forneceu notebooks, cadeiras ergonômicas e apoios anatômicos para que os funcionários pudessem trabalhar de casa. Mandou entregar os equipamentos na residência de cada um.
Apenas um grupo de 17 funcionários teve que continuar indo presencialmente à Libertas. Eles atuam em três áreas da fundação que, pela natureza da atividade, não pode ser feita de casa. São das áreas de atendimento ao participante, assistência do plano de saúde e documentação. Os funcionários das duas primeiras áreas, que atendiam apenas por telemarketing, passaram por cursos de recapacitação para poder atender também presencialmente, por email, chats e whatsapp, tornando-se multicanais, sendo requalificados nos cargos e recebendo um incremento nos salários. Os funcionários da área de documentação também mantiveram o trabalho presencial durante a pandemia.
De acordo com Nóbrega, o temor de alguns de que poderia haver uma queda da produtividade por conta da adoção do home office não se confirmou. Não apenas a produtividade da fundação não caiu, como até aumentou em algumas áreas. “Em muitos casos, tivemos que vigiar as pessoas para que não trabalhassem em excesso e não para ver se estavam, de fato, trabalhando”, diz Nóbrega. “No trabalho home office, alguns trabalhavam sem fazer breaks para descanso, tivemos que ensinar que essa parada é importante no trabalho home office”.
O processo de trabalho online, desde o início do home office na Libertas, passou a ser parametrizado pela regularidade das entregas por parte dos funcionários, pela inserção de cada um no ritmo do trabalho da equipe, sem que fosse necessário impor horários rígidos de trabalho às pessoas. “O que importa é que eles entreguem as tarefas atribuídas a eles nos prazos estabelecidos”, diz Nóbrega. “E isso foi muito regular”.

O home office na Libertas durou até o início deste ano e desde então a fundação vem migrando para um modelo híbrido, no qual alguns aspectos do modelo online se mesclam com o presencial. Embora os funcionários não precisem necessariamente ir ao prédio da fundação, localizado no centro de Belo Horizonte, para trabalhar, em algumas situações isso se impõe. Por exemplo, a área de Recursos Humanos (RH) decidiu que os funcionários do setor devem ter dois dias por semana de trabalho presencial, e isso está acontecendo às terças e quintas-feiras. Já a área de contabilidade estipulou um dia por mês para o trabalho presencial, o resto dos dias é online. Mas essa combinação admite flexibilidade, tanto que uma funcionária que está morando em Viçosa, cidade mineira distante de Belo Horizonte cerca de 225 quilômetros, foi dispensada de participar desse dia de trabalho presencial.
Além disso, algumas pessoas preferem trabalhar um dia ou outro na própria fundação, pode ser por estarem com visitas em casa ou quando algum vizinho resolve fazer uma obra de reforma ao lado, com marteletes, serras elétricas e furadeiras batendo e zunindo o tempo todo. Nesses casos, ele simplesmente liga para a fundação e pede para reservar uma mesa de trabalho ou uma sala, se for o caso, para reunião. A maior parte das mesas não tem monitor instalado, pois o funcionário leva o seu próprio notebook, mas para quem tem necessidade de operar com dois monitores, há mesas com um monitor já instalado ao qual ele conecta o seu notebook. O próprio Nóbrega resolveu trabalhar do escritório nos primeiros dias de maio, e como é acostumado a trabalhar com dois monitores, ao solicitar uma mesa especificou que deveria ter um monitor. “Estamos funcionando como uma espécie de coworking”, diz.

Com todas essas mudanças, o espaço físico ocupado pela Libertas foi reduzido. No prédio próprio onde está instalada, antes da pandemia a fundação utilizava o 8º andar, uma sobre-loja e um subsolo. As áreas mais tradicionais funcionavam no 8º andar, o call-center de atendimento na sobre-loja e algumas atividades de manutenção no subsolo. A fundação entregou a sobre-loja e o subsolo e hoje tudo funciona no 8º andar, que foi remodelado para abrigar além das estações de trabalho também um espaço de convivência para “despressurização”. Os custos com a reforma do espaço, incluindo a retirada das divisórias e a criação do espaço de convivência, foram pagos com a economia gerada em 12 meses pela devolução da sobre-loja e do subsolo.
Das 120 estações de trabalho que existiam, hoje existem apenas 51, das quais cinco são exclusivas para uso da área de atendimento ao participante, outras cinco para a área de assistência à saúde e quatro para a equipe de documentação. Embora as estações dessas três áreas fiquem ocupadas regularmente, pois os seus funcionários não entraram no modelo híbrido (eles continuam no modelo presencial, com um revezamento estabelecido pelas gerências), as outras 37 estações de trabalho são ocupadas de forma intermitente por áreas ou pessoas que reservam os espaços.
A fundação possuía também duas salas de reuniões, que deram lugar a quatro salas menores para uso individual, usadas quando alguém precisa ter alguma conversa reservada ou uma pequena reunião. São chamadas de “salas de foco”. Qualquer funcionário pode reservar essas salas, quando tem necessidade.

Segundo Nóbrega, embora as regras do modelo híbrido sejam bastante abertas, há um evento a cada dois meses que é obrigatório para todos, inclusive para aqueles que moram em outras cidades, seja do estado de Minas Gerais ou de outros estados. O evento dura um dia e tem o objetivo de integrar os colaboradores, reforçar a cultura de trabalho da fundação e promover mini cursos e treinamentos específicos desenvolvidos pela equipe do RH. Além disso, discute as metas e objetivos da entidade, assim como as metas e objetivos de áreas específicas, e permite um melhor planejamento das atividades. Para os funcionários que precisam viajar de suas cidades para Belo Horizonte para participar do evento, o custo das passagens é pago por eles mesmos. “A sede da fundação é Belo Horizonte, quem escolheu morar em outro lugar tudo bem, mas ele é que paga a viagem nesses eventos”, diz Nóbrega.
Pesquisa realizada pela fundação indica que 98% do quadro de funcionários está satisfeito com o modelo híbrido. Os casos de insatisfação devem-se, principalmente, ao evento obrigatório, bimestral, de integração. “Alguns criticaram esse dia de integração, mas precisa ter, até para que os novos funcionários possam conhecer a equipe”, diz Nóbrega.
Segundo ele, o modelo híbrido de trabalho tem se mostrado eficiente, mantendo a produtividade e preservando a qualidade de vida que as pessoas encontraram durante o home office. Alguns funcionários temiam, ao fim do home office, a volta de um modelo 100% presencial. “Alguns chegaram a deixar claro que, caso o fim do home office representasse a volta 100% presencial, eles se demitiriam”, diz. “Eram pessoas chave em suas áreas, mas ficaram satisfeitas com o modelo adotado”.