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Ajustes estratégicos nas carteiras
EFPCs promovem reduções preventivas de risco e aliviam as preocupações com fatores internos e externos que geram insegurança

Edição 347

A Vivest fez sua mais recente aquisição de títulos públicos há cerca de um ano, em junho de 2021, depois de ter levantado, em abril, o valor de R$ 10,13 bilhões, ou quase 28% de seu patrimônio, por conta do vencimento de NTN-Bs. Metade desse valor foi reinvestido entre os meses de abril e junho em nova operação de compra de NTN-Bs e a outra metade em renda variável (50% local e 50% no exterior). “Na ocasião, fizemos isso porque já havia desconforto com a questão fiscal de longo prazo e muita incerteza, então compramos os papéis mais curtos, para vencimentos em 2026, 2028 e 2030, mas de lá para cá não fizemos mais nada em títulos públicos”, diz Jorge Simino, diretor de Investimentos.
Em janeiro deste ano, a fundação fez outro ajuste estratégico ao vender R$ 3,2 bilhões, ou 90% do que estava alocado no exterior, dinheiro utilizado para fazer caixa e também para investir uma pequena parte em renda variável local, em fundo de dividendos. “Estamos amargando uma perda no caso desse fundo, mas foi uma decisão proposital utilizar a carteira de dividendos porque era a mais defensiva que havia”, comenta.
Com 25% da carteira alocados em NTN-B, não valeria a pensa aumentar esse percentual diante das incertezas que se avolumam. Ele lembra que as taxas atuais dos títulos mais longos, de 5,53% a 5,55%, não são consideradas atrativas diante do imbroglio fiscal gigantesco que o país terá pela frente em 2023 e da falta de visibilidade em relação à questão econômica, tanto no cenário interno quanto no internacional. “Além disso, teremos a eleição este ano, estamos a cerca de 100 dias do primeiro turno e, apesar das taxas terem engordado tanto, as incertezas são grandes demais para nos permitir fazer movimentos dessa natureza”, diz Simino.
A Selic está a 13,25% e deve ir a 13,50% na próxima reunião, projeta Simino, o que significa que, se a inflação recuar para 5% este ano, a taxa real de juro pode ficar em torno de 8%, o que é aceitável. Do ponto de vista técnico, ele avalia que é preferível deixar para comprar papéis a taxas mais baixas no futuro, porém com visibilidade maior sobre o tratamento fiscal. “Lá fora a situação continua feia e o valor de mercado das empresas que compõem o S&P 500 caiu de US$ 42 trilhões para US$ 32 trilhões entre o final de dezembro passado e junho deste ano, ou seja, houve uma destruição de riqueza da ordem de US$ 10 trilhões, o que equivale a cerca de 40% do PIB dos EUA”, observa o diretor da Vivest. Somados outros efeitos de destruição de riqueza, esse valor pode chegar a US$ 16 trilhões e ainda não foram vistos todos os efeitos desse movimento.
A recessão é uma probabilidade que cresce a cada instante e atinge 50% de chance nos próximos dois anos. “Há uma agenda de ajustes a serem feitos na economia doméstica e o cenário externo adverso não ajuda. Então chegamos à conclusão de que ter um bom caixa é tudo”, argumenta.

Os títulos públicos voltaram a ser a “cereja do bolo”, mas, a exemplo do que ocorreu em 2020, quando eclodiu a pandemia de Covid-19, percebe-se que não há necessidade de “rasgar políticas de investimento” e sim aproveitar oportunidades excepcionais para imunizar cada vez mais os passivos e melhorar rentabilidades, avalia Rogério Tatulli, diretor superintendente da E-Invest by PreviEricsson. “A nossa política olha um horizonte de cinco anos e, assim como aconteceu em 2020, não temos necessidade de fazer ajustes porque ela tem flexibilidade para ampliar ou reduzir os riscos dentro de determinadas bandas”, acrescenta.
A fundação já vinha fazendo desde 2010 a imunização de seu passivo atuarial colateral, na modalidade BD, com títulos públicos marcados na curva e tem aproveitado todas as janelas de oportunidade para reforçar e revisitar os estudos de ALM com a intenção de aprofundar essa imunização. No plano BD, que tem patrimônio de R$ 1,3 bilhão, 78% dos recursos estão alocados em renda fixa, dos quais 66% estavam, até abril, em títulos públicos na carteira proprietária, percentual que continua a crescer e deve ultrapassar 70% nos números de junho. “Em dezembro de 2021 a fatia de títulos públicos nessa carteira era de 64%, então já subiu e continuará a aumentar. Essa estratégia na carteira própria tem nos dado maior eficiência para operar vértices e curvas de juros, além de reduzir riscos e volatilidade”, afirma Tatulli. O plano está com apenas 4,5% de seus ativos em bolsa, 5,8% em estruturados, 5% em exterior e 6% em multimercados “puro sangue”.
A alta dos juros, que veio a reboque da crise da Covid, tem elevado a inflação no mundo todo, com o processo de retorno à normalidade interrompido pela guerra na Ucrânia. E o que já estava ruim ficou pior. “No cenário doméstico, os títulos públicos abriram os spreads diante da incerteza quanto à capacidade de controle das contas públicas, com os corona-vouchers, auxílio-Brasil e outros gastos que tentam manter a economia rodando às custas do erário. “Este é o momento em que os planos BD encontram possibilidades de ampliar a imunização de passivos e, para quem ainda não fazia isso, é a chance de começar a fazer”, sugere Tatulli.
A luta é para não renunciar ao processo de diversificação dos investimentos iniciado há alguns anos, o que seria um equívoco até porque o juro alto vai se prolongar um pouco, embora com data para acabar. No BD, o mantra é imunizar e, nos planos CD e CV, a diversificação fora dos títulos públicos é essencial para capturar oportunidades, sem abandonar a bolsa, o exterior ou os fundos de private equity, acredita. Tanto é que o plano CD da fundação, ainda pequeno e com patrimônio de R$ 27 milhões, segue com exposição de 10,2% em bolsa, tem 11,7% de seus ativos em multimercados e uma fatia de 4,25% no exterior. A renda fixa soma 73% dos recursos, dos quais 3% em títulos públicos e os restantes 70% pulverizados em fundos abertos que misturam vértices de vencimento de títulos para operar melhor as curvas. No plano CV, com patrimônio de R$ 375 milhões, a alocação é mais parecida à do plano BD.

Na Valia, os quatro planos com obrigações na modalidade de Benefício Definido vêm atualizando taxas e reaplicando o que vence em títulos públicos desde 2021. Isso permitiu aumentar expressivamente o nível de cobertura de suas reservas matemáticas e ainda há espaço para novos movimentos a serem feitos nesse sentido, conta Maurício Wanderley, diretor de Investimentos. “Ao todo, essa cobertura saiu de 50% para 70% este ano, mas um dos planos BD, o maior deles, com patrimônio de R$ 12,47 bilhões, já está com R$ 9,410 bilhões em títulos indexados à inflação e marcados na curva, o que significa que cobriu 100% de suas reservas de aproximadamente R$ 8 bilhões”.
O plano Vale Mais, um CV com ativos de R$ 3,1 bilhões, já tem R$ 2,11 bilhões compostos por papéis indexados à inflação, tendo reduzido a renda variável para comprar esses títulos. O momento dá oportunidade de montar posições casadas para o longo prazo e, além disso, os próprios recursos de curto prazo têm obtido taxas reais positivas, de 3% a 4%.
Os planos CD carregam mais posições em renda variável no exterior, alocações que são mais expostas a diversos ciclos e, na média, terão seus objetivos atingidos, até porque os participantes estão mais longe da aposentadoria. Nos perfis de investimento estão participantes que escolhem, porém não houve migrações expressivas da renda variável. “Seguimos surfando na renda fixa e aguardando sinais de reversão da inflação local antes de repensar essa estratégia”, afirma Wanderley.
Wanderley estima que o cenário de juros elevados tende a se manter por mais tempo. Segundo ele, “diante da ação enérgica do Fed nos EUA em relação ao aperto monetário mais duro, os mercados têm reagido porque há uma destruição da demanda e perda de renda dos trabalhadores, somando vários fatores de depressão, seja pelos preços dos alimentos, da energia e das questões geopolíticas, então teremos que conviver com inflação por mais tempo”.

Um “ponto fora da curva” entre as fundações, por já ter ido às compras de títulos públicos dez anos atrás, a Prevcom está com 50% de sua carteira total composta por NTN-Bs indexadas à inflação mais juro real. “Passamos por outras crises tão ruins ou piores do que a atual e fizemos essa lição de casa, que nos garante retorno atraente em épocas difíceis, embora limite nosso lucro em tempos de abundância”, expõe Carlos Henrique Flory, diretor presidente. As aquisições vieram de modo continuado até que o mercado estabilizou taxas, ainda no governo Temer.
Hoje, a fundação sequer procura mais títulos para comprar porque sua posição está bem carregada e porque a regra exige que novas aquisições sejam marcadas a mercado, o que acrescentaria volatilidade ao portfolio. “O participante não está preocupado com o valor da cota hoje, mas com o que ela representará em 20 ou 30 anos, então estamos tratando de procurar outras opções”, diz Flory.
A entidade está em fase de revisão de seu asset alocation para adequar a carteira à nova realidade do mercado, que em outubro do ano passado refletia um “outro mundo”, muito diferente do atual. Entre as alternativas em estudo estão os Fundos de Investimento em Participações, os FIPs, com atenção ao potencial de retorno dos projetos de infraestrutura e de fundos que ofereçam rentabilidade de IPCA mais 10%, 20% ou até 30%, graças a investimentos num conjunto de companhias da economia real. “Temos cerca de 5% da carteira aplicados em FIPs, mas queremos aumentar esse espaço e diminuir em outras classes de ativos, até porque não é qualquer renda fixa que bate as metas atuariais já que a maior parte tem CDI/Selic como benchmark e isso não permite superar a inflação”. O crédito privado tem dado retorno de Selic mais 2% ou 3%, o que é um ganho apertado em relação à meta atuarial, então a intenção é trocar por ativos com outros benchmarks.

Com as NTN-Bs pagando acima das metas desde o final de 2021, a Real Grandeza aproveitou para comprar títulos marcados na curva para o seu plano BD, para evitar volatilidade, explica Patrícia Queiroz, diretora de investimentos. “O plano tem capacidade de compra de papéis com vencimento até 2055, mas optamos por comprar diversos vencimentos tanto em títulos longos como, em alguns momentos, para ganhar com o diferencial de taxas nos prazos mais curtos”, acrescenta. As aquisições desses papéis foram de R$ 1,5 bilhão no BD e de R$ 300 milhões no CD. Do patrimônio total do BD, de R$ 16,2 bilhões, 71% estavam em renda fixa, segundo os números preliminares de maio. Já no plano CD, cujo patrimônio é de R$ 2 bilhões, a parcela de renda fixa atingiu 76% dos ativos. “No plano CD, os títulos garantiram um colchão interessante de compra, até porque o plano está em processo de troca de indexador, atualmente em IGP-DI, e essa posição vai gerar ganho adicional considerável quando o índice for substituído”, conclui Queiroz.