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Itajubá quer campo maior
Tradicional distribuidora de produtos de terceiros junto ao mercado institucional, a marca está trocando a pele de agente autônomo pela de DTVM

Edição 334

A Itabubá investimentos, especializada na distribuição de fundos alternativos para fundações e family offices, está aguardando a autorização do Banco Central para virar uma DTVM. A empresa já encaminhou a documentação inicial ao regulador e espera receber a autorização antes do final do ano. “Já estamos nos preparando, quando a autorização vier estaremos com tudo pronto para virar a chave e passar de agente autônomo para DTVM”, diz o sócio e um dos fundadores da empresa, Carlos Garcia.
Junto com Agnaldo Andrade, Garcia criou a empresa em 2007, lançando a marca durante o Congresso da Abrapp que naquele ano se realizou na cidade de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. “O lançamento na capital mineira, de uma empresa com o nome de Itajubá, fez muita gente se perguntar se eu estaria mudando de estado”, conta divertido Garcia. “Não era isso, o nome é uma referência à idéia de criação de valor que está por trás da proposta da marca, uma junção de duas palavras de origem tupi, ita que significa pedra, com jubá que significa amarelo, formando pedra amarela que é como os indígenas se referiam ao ouro”.

Baiano de nascimento mas radicado no Rio de Janeiro há décadas, ao lançar a empresa ele vinha de uma trajetória profissional de duas décadas na área comercial da gestora de recursos do banco Icatu, que no ano de 2000 se fundiu com o BBA Credinstantalt de Fernão Bracher e Antonio Beltran Martinez. Dois anos depois, quando o BBA foi vendido para o Itaú, a sociedade com o BBA se desfez e a família Almeida Braga, dona do Icatu, fez nova parceria, dessa vez com o grupo norte-americano Hartford, para lançar em 2003 a Icatu Hartford. Garcia ficou na nova sociedade até 2006, quando a deixou para um ano sabático no Canadá e Estados Unidos, onde conheceu de perto o funcionamento das empresas independentes de distribuição que então começavam a ganhar força naqueles países. No Brasil, praticamente não existiam ainda empresas desse tipo para distribuir produtos aos fundos de pensão.
De volta ao Brasil, ele convidou Andrade para montar uma estrutura semelhante, no modelo de agente autônomo, para distribuir fundos alternativos para os institucionais brasileiros. Buscou vários gestores sem estrutura de distribuição, como os quais negociou contratos de exclusividade, passando a oferecer seus produtos aos fundos de pensão locais. Em pouco tempo ampliou o leque, passando a incluir entre os clientes também as seguradoras e family offices.
Aos poucos, novos sócios se incorporaram ao projeto, somando nove atualmente, a maioria ex-funcionários do Icatu. Em 2011, de olho no mercado dos fundos de pensão e family offices latino americanos, a Itajubá fez um acordo com uma gestora chilena chamada HMC Capital para criar a HMC Itajubá, que passou a distribuir fundos alternativos inicialmente para institucionais do Chile e a seguir do Peru, Colômbia, e México.
Atualmente, a Itajubá Investimentos têm cerca de R$ 25 bilhões distribuídos no Brasil e a HMC Itajubá o equivalente a R$ 55 bilhões distribuídos nos outros quatro países que cobre na América Latina, num total de R$ 80 bilhões somando o volume das duas empresas. Em termos de clientes, a Itajubá abrange cerca de 500 no Brasil e a HMC Itajubá cerca de 250. “O ticket dos negócios no Brasil é menor, porque lá fora as estruturas das associações de fundos de pensão são maiores que os nossos fundos de pensão, embora sejam poucas em cada país”, explica. “Um negócio com uma dessas associações pode envolver facilmente uma boleta de 100 a 150 milhões de dólares”.

A idéia de montar uma DTVM no Brasil, encerrando as atividades da AAI, surgiu da constatação que para crescer seria necessário contar com uma estrutura mais robusta, que permitisse atuar mais livremente na distribuição de emissões de papéis do mercado de capitais, incluindo equities e títulos, aos clientes. Embora o agente autônomo não tenha limitações na área de fundos, podendo distribuir diferentes gestores sem manter exclusividade com nenhum, na distribuição de papéis do mercado de capitais é submetido a algumas restrições, como só distribuir um papel por vez. “Por exemplo, se eu distribuo uma debenture eu não posso distribuir outra enquanto aquela não encerrar”, explica Garcia.
Foi o que aconteceu no ano passado, quando a Itajubá distribuiu as debêntures do IRB, ficando impossibilitada no período que durou aquela distribuição de trabalhar com outras emissões. “Ficamos presos àquela emissão, o que limitou muito a nossa atuação”, afirma o executivo. “Os negócios começaram a ficar difíceis de expandir a partir da estrutura de agente autônomo”.
Segundo Garcia, o lançamento da DTVM não mudará em nada o foco atual da empresa, que é distribuir exclusivamente produtos de terceiros, sem lançar produtos próprios. Além de emissões do mercado de capitais, a empresa distribui também fundos, fundos de fundos e feeders. “Somos e continuaremos a ser apenas distribuidores” diz ele.
A DTVM está sendo criada do zero, apesar dessa solução ser a mais demorada. “Mas garantimos que as coisas saem do nosso jeito. Sabemos que o BC vai analisar toda a documentação, ver se o nosso processo está adequado em toda a linha”, afirma o executivo. “Mas não creio que possamos ter problemas com essas análises, já estamos acostumados com avaliações externas, como agente autônomo já sofremos duo diligences de todo mundo, desde administradores locais a gestores internacionais”.
A empresa já está desenvolvendo novos sistemas, criando manuais, implantando normas e contratando gente para que, quando a autorização do BC for publicada, as duas estruturas possam funcionar simultaneamente, por um certo tempo, para transferir as operações de uma para a outra. “Não vamos esperar a aprovação do BC chegar para começar a agir, já estamos preparando tudo, queremos estar com tudo pronto para quando chegar o sinal verde do BC”, explica.

Superar a limitação de distribuir de forma mais ampla ativos do mercado de capitais é um dos principais objetivos da criação da DTVM, o que deve multiplicar o negócio por quatro ou cinco vezes num período de cinco anos. “Achamos que é perfeitamente possível saltar dos atuais R$ 25 bilhões distribuídos para R$ 100 bilhões ou mais nesse espaço”, explica. Principalmente na conjuntura atual, de juros baixos, onde os institucionais estão sendo obrigados a tomar mais risco em produtos alternativos para conseguir bater as metas atuariais.
Do volume total distribuído no Brasil, cerca de metade são produtos de private equity e crédito estruturado e a outra metade de ações e multimercados. Na opinião de Garcia, devido à queda das taxas de juros o espaço para crescimento do risco na carteira dos institucionais é grande nos próximos anos. Ele faz uma conta simples: do total das reservas dos fundos de pensão, que atualmente está em cerca de R$ 1 trilhão, cerca de 75% estão em títulos públicos, o que corresponde a cerca de R$ 750 bilhões. Se houver uma migração de 5 a 10% desse volume ao ano, principalmente de títulos que vão vencendo e não encontram equivalente em rentabilidades, serão entre R$ 32,5 bilhões e R$ 75 bilhões ao ano migrando para o mercado de risco, em busca de melhores retornos para atingir suas metas atuariais.
Ele faz uma analogia como os Estados Unidos, onde os fundos de pensão alocam 70% das reservas no mercado de renda variável e 30% nas outras classes de ativos. No Brasil, é praticamente o inverso, com 80% sendo alocado em renda fixa e apenas 20% nas outras classes, incluindo ações. Essa proporção, segundo ele, não se sustentará num mercado de taxas de juros baixas, como passou a ser o Brasil de três anos para cá. “Nos tornamos mais parecidos como o resto do mundo, então nossas alocações também deverão refletir essa realidade global”, avalia Garcia.
Ele considera que os juros, embora possam apresentar alguma elevação neste ano, devem se manter ainda em níveis baixos nos próximos anos, principalmente para os padrões brasileiros. Taxas de juros que, sozinhas, entregam a meta atuarial para as fundações “é uma realidade que não volta mais”, diz.
A Itajubá representa gestores locais como Ibiuna, Velt, Núcleo, HIX, Brasil Capital, Vista Capital, Absolute, Giant Steps, Gama e Spectra. Entre os internacionais, representa a Bridgewater, Oaktree, Acadian, Man Group e CD&R.

Assim como aposta no crescimento do risco nas carteiras dos institucionais, Garcia aposta também que o movimento dos institucionais locais em busca de alocação no exterior deve se acentuar daqui para a frente, forçando inclusive a Previc a ampliar o limite de 10% que atualmente vigora para essa classe.
Ele cita o exemplo dos Chile, cujo sistema previdenciário formado pelas associações de fundos de pensão representa 80% do Produto Interno Bruto (PIB) local, dos quais 40% são alocados no exterior. Os fundos de pensão dos Estados Unidos, que representam cerca de 85% da economia americana, direcionam para mercados estrangeiros entre 30% e 40% dos recursos dos seus fundos de pensão. “No Brasil, onde os fundos de pensão representam 14% da economia local, apenas 1% dos recursos previdenciários estão sendo alocados no exterior. É muito pouco, claro que isso tende a crescer”, diz. “O Brasil vai querer colher os benefícios da diversificação”.
Dos 300 fundos de pensão em atividade no Brasil, mais de 100 possuem investimentos em produtos representados pela Itajubá, segundo Garcia. Ele diz ainda que, entre as dez maiores fundações brasileiras, nove tem investimentos em produtos da distribuidora. “Com a Itajubá DTVM, nosso objetivo é figurar entre as mais relevantes distribuidores independentes do País“, afirma.