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Dinheiro tem que trabalhar
À frente da Captalys, Margot Greenman investe na desintermediação financeira para ampliar a oferta de crédito e transformar o futuro

 

“O crédito só pode existir se acreditamos que amanhã pode ser melhor que hoje. Se você não acredita que seu empreendimento vai prosperar porque tomaria um empréstimo? Da mesma forma, porque emprestaria o seu dinheiro se você não acredita que, amanhã, um determinado negócio vai ser melhor e maior?” Os questionamentos justificam a afirmação inicial e exemplificam a filosofia de trabalho – e de vida – de Margot Greenman, CEO e co-fundadora da Capitalys, única gestora de private debt a atuar no Brasil, com R$ 3 bilhões de ativos em carteira.
O private debt é uma classe de assets, reconhecida oficialmente apenas no ano passado, que envolve exclusivamente ativos privados de crédito. “Nosso foco está na base das cadeias produtivas. Grandes empregadores, grandes corporações acessam facilmente o capital via intermediação bancária, mercado de capitais e outros instrumentos. A Captalys leva recursos para algumas camadas abaixo”, explica Margot. “Compramos carteiras de crédito que foram feitos diretamente para pessoas físicas, PMEs (pequenas e médias empresas), pequenas incorporadoras no interior”, exemplifica. “Ou seja, ativos que são vinculados à economia real.”

Crise do sub-prime – Nova-iorquina de nascimento, Margot graduou-se em economia com especialização em agronegócio na Cornell University e cursou seu MBA na Harvard Business School. Até 2007, desenvolveu sua carreira em algumas das maiores instituições financeiras do mundo, como Credit Suisse, JP Morgan e Banco Mundial, entre outras. “Conheci profundamente as estruturas e processos de bancos e isso foi uma vantagem para perceber a oportunidade à frente”, conta.
Em 2009, logo após a crise do subprime, Margot, que já atuava com operações de crédito na América Latina através de um grande fundo norte-americano, conheceu Luiz Claudio Garcia de Souza, ex-Rio Bravo Investimentos, e juntos desenharam o esboço do novo negócio. “O desenvolvimento de carreira tem um norte que te inspira, que impulsiona suas atividades”. Para ela, esse norte estava ao sul dos Estados Unidos.
Margot e Garcia criaram, em 2010, a Finvest (que, em 2016, passaria a se chamar Captalys), para aproveitar o desenvolvimento do mercado de crédito que o governo Lula usava, então, para “blindar” a economia doméstica da crise internacional daqueles anos. “Infelizmente, via mecanismos centralizadores”, analisa. “Era crédito de intermediação financeira, dado pelas instituições financeiras, pelos bancos. Diferente do que fazemos, que é a desintermediação financeira.”
Essa opção de crédito, unindo a ponta de quem tem o dinheiro com a ponta de quem precisa do dinheiro, exige uma plataforma de muita tecnologia que suporte as operações e dê segurança aos processos de fluxo de capital. “Nós temos esses mecanismos, sistemas, tecnologias e profissionais capacitados para fazer isso, sem a centralização mas com a mesma segurança”, explica Margot.
“É a prática da filosofia do crédito como bem comum: eu tenho dinheiro para investir. Você precisa de dinheiro para comprar algo ou investir no seu negócio. Essa conexão está sendo reestabelecida”, explica a CEO da Captalys.
Em 2018, a gestora apresentou um crescimento de 38% no volume de recursos sob gestão, em relação ao ano anterior. Em direitos creditórios, o volume saltou 3,5 vezes. “Estamos crescendo em todas as frentes no Brasil e expandindo para outros países da América Latina. Abrimos um escritório no México e estamos avaliando iniciar atividades na Colômbia”, conta Margot.
Entre seus clientes já há dois fundos de pensão. “Começamos a trabalhar com fundos de pensão no segundo semestre do ano passado. Até então achávamos que não haveria muita atratividade dos nossos produtos para esse público, já que mais da metade dos recursos dos fundos de pensão está investida em títulos públicos. Agora, com a queda da taxa de juros, as entidades já começam a avaliar novas alternativas de investimento.”
Além disso, ela ressalta que existe uma grande sinergia entre a atuação da Captalys e os produtos que as fundações estão procurando. “Estamos em conversação com mais seis fundos de pensão. O nosso foco são 80 fundações, escolhidas conforme a robustez de seu corpo técnico.”
Um dos pontos de atratividade do crédito como investimento para os fundos de pensão é a gestão de risco. “O risco de trabalhar com crédito é menor quando bem gerido, diversificado e pulverizado”, explica. “Crédito é um ativo vivo. Tem que acompanhar de perto, o tempo todo. E a relação risco/retorno é muito interessante.”
Margot ressalta que o momento de taxa de juros historicamente baixa é um estímulo muito grande para a diversificação dos investimentos, tanto para quem investe, como para a economia do país. “O benefício de juros baixo é que o dinheiro tem que trabalhar para se rentabilizar. Quando se tem juros altos, o dinheiro fica preguiçoso. Por isso, durante muito tempo, o dinheiro não chegava a lugar nenhum. Ele ia para o título público e ficava lá, relaxando, tomando sol... Agora, o dinheiro tem que trabalhar e isso é excelente para a economia, porque ele vai procurar onde, o que e como fazer esse trabalho e quais são os riscos.”

Como nasceu a gestora – Em 2010, a Captalys, então Finvest, foi criada pela executiva norte-americana Margot Greenman e pelo brasileiro Luiz Claudio Garcia de Souza. Em 2011, recebeu aporte da Morgan Rio e, em 2014, da Two Sigma, ambos fundos de investimento norte-americanos.