Garde dá a volta por cima
Gestora se recupera das perdas sofridas com juros e câmbio no último ano, reabre fundos para a captação e reforça a sua grade de produtos

As fortes oscilações dos mercados e dos ativos em 2018, na esteira, entre outros fatores, de uma disputa eleitoral surpreendente, causaram estragos a diversas gestoras, inclusive de primeiríssima linha. Que o diga a Garde Asset Management. Detentor de sólida reputação no segmento de multimercados, o negócio criado em setembro de 2013 por Marcelo Giufrida, Carlos Calabresi, Marcio Georgetti e Rodrigo Pagnani viu o seu carro-chefe, o Garde D’Artagnan Master, hoje com patrimônio líquido ao redor de R$ 4,65 bilhões, apresentar um desempenho frustrante no ano passado. A rentabilidade do fundo despencou para 57,62% do seu benchmark, o CDI, ficando em mirrados 3,7%, enquanto nos três anos anteriores o fundo tinha batido o índice por margens entre 10,72 e 24,99 pontos percentuais.
“Problemas na leitura do cenário na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2018 nos causaram perdas em juros e câmbio, áreas nas quais detemos grande expertise. Em março, o Banco Central reduziu a taxa Selic para 6,5% ao ano e sinalizou um corte adicional de 0,25 ponto percentual, mas não cumpriu a promessa, desnorteando o mercado. A seguir, com a reversão da tendência de alta dos juros nos Estados Unidos, o mercado ficou ainda mais confuso”, comenta o CEO Marcelo Giufrida. “Como consequência, de maio até setembro, decidimos não assumir posições mais fortes nos fundos multimercados. Só começamos a reposicionar a estratégia D’Artagnan a partir da definição do quadro das eleições, no último trimestre do ano.”
A derrapagem, que teve como ponto de partida retornos negativos de 0,92% e 2,82% colhidos pelo master da linha D’Artagnan, em abril e maio do ano passado, marcou o início de um amplo e profundo processo interno de revisão de métodos, rotinas e quadros. Além de providenciar correções em processos e sistemas de controle, com redução dos riscos de novas quedas, a Garde decidiu trocar quase 30% de sua equipe, que soma 34 profissionais, mantendo intacto, entretanto, o grupo de gestores e analistas mais experientes.
As mudanças não pouparam nem mesmo a composição das carteiras da casa, que ganharam diversidade. Entre junho de 2018 e igual período deste ano, a participação dos títulos públicos federais no portfólio do principal veículo de investimento da asset declinou de 71,76% para 60,27%, ao passo que a renda variável saltou de 13,70% para 21,71%. As operações compromissadas lastreadas em papéis da União e as cotas de fundos de investimento regulamentados pela Instrução 409 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também ganharam mais espaço, elevando suas fatias de 15,35% para 16,09% e de 5,55% para 11,22%, respectivamente. “Renda fixa e câmbio tinham peso muito maior em nossos fundos, com ações e opções em segundo plano. Agora, os quatro se tornaram motores voltados à geração de alfa”, diz Giufrida.

Efeito rápido – Os ajustes surtiram efeito rapidamente. Já em janeiro, o master da linha D’Artagnan obteve retorno de 3,66%, batendo o CDI por 3,12 pontos percentuais. A tendência de alta se manteve ao longo do primeiro semestre, com uma rentabilidade acumulada de 6,13%, 3,06 pontos acima do índice de referência. Animada, a gestora decidiu retomar, em 17 de junho último, a captação de seus fundos multimercados, que, com a exceção do Garde Dumas, exclusivo para investidores institucionais e os funcionários da casa, fora interrompida havia quase dois anos. Para garantir o interesse dos investidores, a aplicação mínima inicial nas três opções oferecidas – o D’Artagnan FIC FIM, o D’Artagnan BNY FIC FIM e o GRPD FIC FIM – foi reduzida em 60%, de R$ 50 mil para R$ 20 mil, e a asset tratou, de forma transparente e corajosa, de tornar públicas as correções de rumo executadas em razão das perdas sofridas no último ano. “Os resultados obtidos em 2019, até agora, mostram que as mudanças já começaram a dar frutos: a rentabilidade acumulada no ano está próxima à média histórica do fundo”, declara a asset em comunicado postado em seu site.
Em meio aos trabalhos de reformulação interna, a gestora tratou, ainda, de ampliar a sua grade de produtos. A abertura do leque contemplou, numa primeira fase, o lançamento da Aramis, uma estratégia multimercado com viés previdenciário. O projeto começou a ser desenhado no segundo semestre de 2017, a partir de inovações introduzidas pela Superintendência de Seguros Privados (Susep) nas regulamentações dos planos PGBL/VGBL, e chegou à praça em agosto do último ano, com a apresentação de um veículo de investimento master, o Aramis FIFE, e de um “filhote”, o Aramis Prev. A dupla apresentava, até 11 de julho, rentabilidades acumuladas de 11,21% e 8,15%, equivalentes a 193% e a 140% da variação do CDI, respectivamente. “O debate sobre a reforma da Previdência Social e a ação das plataformas de investimento aqueceram a procura por esses produtos”, observa Giufrida. “Nossa intenção para a estratégia Aramis, assim como na D’Artagnan, que conta com 14 fundos de investimento em cotas, é colocar vários fundos sob o guarda-chuva do master, que tem como principais ativos renda fixa, ações e moedas.”
O mesmo modelo valerá para a “família” Athos, de multimercados long biased, o trunfo mais recente da Garde. Lançados em dezembro último, o fundo master e o de cotas vêm apresentando desempenhos consistentes, com retornos acumulados, até 11 de julho, de 24,84% e 19,12%, pela ordem. Os patrimônios líquidos das duas novas linhas ainda são reduzidos, somando cerca de R$ 30 milhões, mas o CEO da gestora acredita num rápido e firme crescimento de ambas. “Com as três estratégias de multimercados, temos condições de duplicar o volume atual sob gestão, atingindo a marca de de R$ 10 bilhões”, prevê.

Institucionais – Giufrida também aposta na expansão da clientela institucional, hoje representada por 43 fundos de pensão presentes nas carteiras de cotistas da estratégia D’Artagnan e do Dumas. Esse pelotão de elite responde por cerca de 15% da massa total de recursos entregue aos cuidados da Garde, com perspectivas de alta. “O potencial de crescimento é grande, pois, com a queda dos juros dos títulos públicos, as fundações de previdência terão de buscar outras opções para cumprir as suas metas atuariais. Elas demonstram interesse crescente pelos multimercados e ainda dispõem de volumes expressivos para aplicar nesses produtos, pois, em sua maioria, estão aquém do limite estabelecido pela Resolução 4.661 do Conselho Monetário Nacional para investimentos em fundos estruturados, da ordem de 20% dos recursos garantidores”, diz ele.
A exemplo da maioria de seus pares de mercado, Giufrida acredita que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central irá executar uma redução na taxa Selic neste segundo semestre. A dúvida, a seu ver, diz respeito às dimensões do corte, de 100 ou 150 pontos. “O ajuste é necessário, pois a atividade econômica ainda deixa muito a desejar e a inflação se encontra em patamares reduzidos. O dado curioso é que o Banco Central, ao qual sempre coube o papel de freio da economia, se vê agora diante da missão de agir como indutor do crescimento”, assinala o CEO da Garde, que visualiza um novo cenário para o mercado de capitais doméstico, com os juros baixos ganhando caráter estrutural. “Estamos 100% preparados para encarar esse desafio, até porque não desperdiçamos as lições da nossa crise. Tomamos as providências necessárias e reagimos rapidamente, como mostram os indicadores do primeiro semestre do ano.”