Eles querem fazer a diferença
Fundos que revertem receita da taxa de administração para projetos em comunidades carentes começam a ganhar espaço no País

Desde 2002 a Organização Não Governamental (ONG) Vaga Lume ajuda a levar educação e conhecimento para comunidades isoladas na região amazônica e já construiu quase cem bibliotecas comunitárias em regiões desassistidas pelo poder público. Em tempos em que o próprio presidente da República faz críticas reiteradas ao trabalho realizado por essas organizações, elas começam a receber um importante e inusitado apoio, cada vez maior, de gestoras de recursos e investidores. A união dos dois extremos – grandes riquezas e comunidades carentes – tem se tornado comum com o surgimento de fundos que apoiam, direta ou indiretamente, causas sociais diversas.
Em dezembro de 2019 a Sul América deu início à uma estratégia de investimento em renda variável que reverte a taxa de administração de 1,2% do fundo para a ONG Vaga Lume. “O que nos motivou a estruturar o fundo foi a vontade de contribuir com a sociedade de forma direta e não só através dos princípios de sustentabilidade que aplicamos em nossos processos de seleção dos ativos”, afirma o vice-presidente da gestora, Marcelo Mello.
A carteira do fundo é composta apenas por empresas alinhadas às boas práticas socioambientais. Para chegar às ações de companhias como Lojas Renner, Lojas Americanas, Fleury e Weg, a Sul América faz uma série de filtragens – para começar, ela considera somente empresas que sejam aderentes a pelo menos dois de quatro índices – os de sustentabilidade, de carbono eficiente e de governança corporativa da B3 e o da Dow Jones de empresas socialmente sustentáveis. Após essa primeira filtragem, restam, de um universo de quase 400 empresas listadas na B3, cerca de 40. A gestora parte então para uma análise qualitativa e avalia, dentre as 40, as que entregam as maiores rentabilidades aos investidores com os menores níveis de alavancagem, e chega a uma seleção final por volta de 20 ações. Esses papéis recebem, de maneira isonômica, os valores do patrimônio do fundo, que por ter sido criado há pouco tempo tem cerca de R$ 15 milhões. A expectativa da Sul América é que o produto chegue aos R$ 100 milhões ainda em 2020, o que vai fazer a contribuição à ONG Vaga Lume superar R$ 1 milhão.
“Temos uma estratégia competitiva para o cenário atual, de renda variável com empresas de alta qualidade, o que deve atrair o interesse de investidores como os institucionais, que precisam buscar alternativas frente aos juros baixos para superar as metas atuariais”, diz Mello. Segundo ele, já existem conversas em estágio avançado com algumas fundações interessadas em aplicar parte do capital no fundo, que não é voltado apenas para investidores qualificados. O produto está disponível em plataformas digitais como Órama, Pi e Modalmais e tem aplicação mínima de R$ 100. “Temos notado o engajamento dos players com a causa, já que as plataformas aceitaram fazer a distribuição do fundo sem ter nenhum ganho com isso, já que toda a taxa será revertida para a Vaga Lume”, afirma o vice-presidente da Sul América.
De dezembro de 2019 a fevereiro de 2020 o fundo rendeu 2,60% e superou com folga a performance negativa de 4% do Ibovespa no período. “Pelo perfil das empresas que compõem o portfólio, o fundo tende a ir melhor que o benchmark, principalmente no longo prazo, uma vez que está comprovado que companhias que se preocupam com questões sociais tendem a ter um desempenho melhor que os pares com o passar do tempo”, diz Mello.

Em escala já mais avançada, o VRB Multimercado conta com cerca de R$ 300 milhões de investidores que viram no produto a oportunidade de unir retorno e ajuda ao próximo. Um dos primeiros a investir no projeto, via ‘seed money’, foi o megainvestidor George Soros. O VRB é um fundo de fundos que compra cotas de fundos multimercados, de renda fixa e renda variável, e tem dois chamarizes importantes que tem contribuído para atrair cada vez mais interessados.
“A seleção dos fundos que serão comprados é feita por uma equipe composta por gestores de grandes familys offices, como Guilherme Ferraioli, da UBS Consenso, Leonardo Martins, da Turim MFO, Demosthenes Madureira, da Brazil Warrant, Luciano Telo, da XP Advisory e Lucas Borges, da Tera Capital”, afirma Tiago Fernandes, um dos criadores do fundo e CEO da VRB, instituição filantrópica que é o braço de impacto social do veículo. O executivo ressalta que os gestores dos family offices fazem o trabalho de seleção de fundos em caráter pro-bono, sem qualquer tipo de gratificação financeira.
Além disso, dentre os multimercados selecionados, muitos estão fechados para captação por já terem alcançado volume relevante sob gestão, como o Verde, o SPX Nimitz, o Truxt Long Biased, o Bahia Marau, o Oceana Long Biased e o Kapitalo Zeta. “Pelo aspecto social do fundo, os gestores aceitam abrir os multimercados pontualmente para receber os aportes do VRB”, diz Fernandes.
Desde o início da estratégia, em julho de 2016, até fevereiro de 2020 o fundo rendeu 45,10%, o que corresponde a 138% do CDI. A taxa de administração de 1%, após os custos que consomem cerca de 0,45%, é revertida para causas sociais como a academia de futebol Pérolas Negras, voltada para jovens de comunidades carentes do Rio de Janeiro que além da prática esportiva também recebem reforço escolar. “Nossa expectativa é destinar nos próximos dez anos cerca de R$ 35 milhões para as causas apoiadas nas áreas da educação e de inserção de jovens no mercado de trabalho, impactando a vida de até 500 mil pessoas”, afirma o CEO da VRB.
Para fazer a seleção dos projetos sociais a serem apoiados foi criado um comitê com nomes versados sobre o tema tais como Edmar Bacha, Anna Victoria Lemann, Bernardo Sorj, Simon Schwartzman, Rubem César Fernandes e Aik Brandão.
Para tornar o fundo mais acessível e assim conseguir repassar quantias maiores para os projetos sociais, em dezembro de 2018 o ticket mínimo do VRB Multimercado caiu de R$ 300 mil para R$ 10 mil, o que fez a base de cotistas saltar de 22 para 1,3 mil investidores.

No campo dos investimentos voltados para causas sociais há também o caso da Wright Capital, fundada em 2014 pela executiva Fernanda Camargo. Ela batizou a empresa em homenagem a Roger Wright, banqueiro com quem trabalhou na gestora de patrimônio Arsenal e que faleceu em um acidente aéreo em Trancoso, na Bahia, em 2009. A casa é um multi-family office com cerca de R$ 3,5 bilhões sob gestão. E nas conversas para iniciar o atendimento de famílias endinheiradas, a Wright sugere a elas a destinação de 1% dos seus recursos para fundos de impacto social.
Esses fundos, contudo, não fazem operações tradicionais no mercado, comprando e vendendo ações e títulos de renda fixa, como os da Sul América ou da VRB. Eles são veículos de porte mais modesto e investem os recursos diretamente em empresas de menor escala, constituídas e com sua atuação centrada em comunidades carentes. Entre os fundos apoiados pela Wright está o Mov, que investe em empresas como a Terra Nova, que ajuda famílias carentes a regularizar a situação de suas moradias em áreas ocupadas irregularmente. O Vox é outro fundo apoiado pelo multi-family office, que tem entre as investidas as empresas de microcrédito Avante e Banco Pérola.
“As características desses fundos, pelo perfil das empresas investidas, se assemelham aos de um venture capital, e podem entregar rentabilidades muito atraentes como podem também não trazer nenhum tipo de retorno”, afirma Fernanda. “Ao alocar os recursos conosco e aceitar a destinação de 1% para esses fundos, os clientes têm consciência do risco assumido, mas o aceitam pela oportunidade de ajudar outras pessoas”.