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O modelo que vem de Yale
Queda da taxa de juros deve levar institucionais a buscar mais risco para as carteiras, principalmente com os vencimentos dos títulos públicos

A Bradesco Asset Management, que desde 2008 mantém uma área dedicada a oferecer soluções de investimento à grandes clientes, entre os quais os private e os fundos de pensão, avalia que a atual conjuntura de queda da taxa de juros deve levar a um aumento da demanda por Fundos de Investimentos em Cotas (FICs), sejam eles exclusivos ou condominiais. O motivo, segundo o superintendente da área de soluções de investimento da Bram, Adilson Ferrarezi, é que grande parte dos títulos públicos que estão entrando na linha de vencimento devem buscar veículos de investimentos mais sofisticados, com mais risco, que viabilizem o atingimento das metas atuariais por parte das fundações.
Esses veículos, no entanto, exigem especializações que nem todas as gestoras possuem. Aliás, algumas possuem um tipo de especialização enquanto outras possuem outro tipo de conhecimento, o que torna os FICs, que investem em estratégias de vários gestores, veículos adequados para investidores que querem tomar mais risco mesmo sem o apoio de grandes equipes de analistas.
A área de soluções da Bram tem notado um aumento da demanda por esses veículos desde o ano passado, quando ficou nítido que a queda da taxa de juros era para valer. Segundo Ferrarezi, a sua área de soluções investe em todos os fundos do mercado, sem priorizar os da Bram. “Somos uma área independente. Embora estruturalmente sejamos parte da Bram, eu não me reporto à estrutura de investimentos da asset, eu me reporto diretamente ao CEO da Bram”, explica ele.
A área de soluções de investimento tem em sua prateleira 160 fundos, dos quais 20 são da Bram. Os 140 restantes pertencem a 70 gestores externos, sendo 50 locais e 20 internacionais. Segundo Ferrarezi, o processo de seleção de fundos é baseado em avaliações quantitativas e qualitativas dos gestores e dos fundos, resultando em scores individuais para cada fundo, sejam da Bram ou de terceiros. A seleção dos produtos que irão compor os Fundos de Investimentos em Cotas (FIC) montados pela área para seus clientes é feita com base nesses scores.

Dos R$ 42 bilhões em mandatos discricionários que tem a área, metade são em fundos exclusivos, com R$ 6 bilhões vindos de fundos de pensão e o restante de clientes private, e a outra metade em FICs condominiais e fundos espelhos, sendo R$ 2 bilhões de fundos de pensão e o resto private. No total, são R$ 8 bilhões vindos de fundos de pensão, em 35 mandatos exclusivos. “Acreditamos que com a queda da taxa de juros a tendência é que a participação dos institucionais aumente”, avalia Ferrarezi. “Os fundos de pensão estão sentindo a necessidade de buscar novos gestores, novos produtos, para conseguir bater as metas atuariais, e podemos oferecer isso a eles com uma estrutura bastante robusta”.
Para Ferrarezi, o uso de fundos de fundos deve seguir no Brasil o mesmo caminho já trilhado pelos endowments norte-americanos trinta anos atrás, quando esses investidores começaram a buscar estruturas capazes de entender e investir em veículos de mais risco que combinassem a teoria dos investimentos com análises de mercados e de riscos, gerando retornos consistentes de longo prazo.
O endowment da Universidade de Yale, em New Haven (Connecticut - USA), com cerca de US$ 30 bilhões, é um modelo para a área de soluções de investimento da Bram. “Eles tinham uma estrutura de gestão de portfólios bem similar aos fundos de pensão, o que fizeram na época foi mirar para o risco para garantir retornos de longo prazo”, diz Ferrarezi. “Estamos vivendo um momento parecido, a queda da taxa de juros está levando uma grande parte dos recursos alocados em títulos públicos a migrar para o risco nos vencimentos e o apoio de estruturas especialistas vai ser decisivo para o sucesso”.

Com 15 profissionais dedicados, a área de soluções de investimento da Bram realiza não apenas a due diligence operacional, que consiste na abertura das carteiras dos fundos e análises dos papéis, mas também a due diligence de investimentos, que avalia equipes, processos de investimento, cultura da gestora e os incentivos que essa tem tem para buscar os melhores retornos para o fundo que toca no longo prazo. Com esse olhar mais amplo fica mais fácil entender as perspectivas dos produtos das casas analisadas, assim como a transparência das decisões de investimento. “Queremos casas com as quais possamos estabelecer parcerias sólidas“, explica Ferrarezi.
De acordo com ele, o processo de construção de um portfólio obedece a três etapas dentro da área de soluções de investimentos que dirige: primeiro é desenhada uma alocação estratégica, feita conjuntamente entre o cliente e a equipe da área, que representa a visão de longo prazo para o FIC que será criado; em segundo lugar é formado um comitê de alocação que define as visões de curto e médio prazo, com desvios padrões, para a gestão desse FIC; e em terceiro lugar são selecionados os fundos, entre os que estão na prateleira da área, já com seus respectivos scores, para compor o FIC.
Dos R$ 42 bilhões mandatados para a área de soluções de investimento da Bram, 100% são de recursos discricionários, mas boa parte disso conta com o que internamente é chamado de consulta de restrição, que é quando o cliente pode vetar uma operação desde que o motivo do veto esteja de acordo com o mandato de risco definido pelo fundo. “Achamos que isso é justificável”, diz Ferrarezi. Do total mandatado, entre 3% e 5% estão alocados em investimentos internacionais, de 10% e 15% em fundos de ações, de 20% e 30% em fundos multimercados, e o resto em fundos de crédito, renda fixa ativa e liquidez.

Assim como acontece em outras gestoras que operam com estruturas de FICs exclusivos, a área de soluções de investimento também reverte para o fundo do cliente 100% das taxas de rebate oferecida pelos gestores. Para Ferrarezi, isso elimina qualquer viés em relação à alocação, pois o incentivo da equipe não está determinado pelo rebate de taxas.
Segundo ele, as alocações internacionais são hoje um dos principais focos de atenção na sua área, pois o percentual alocados pelos investidores brasileiros no exterior ainda é muito baixo comparativamente a outros países do mundo e deve aumentar gradativamente nos próximos anos. Ferrarezi conta que sua área tem 20 gestoras globais avaliadas e pré-aprovadas, com seus fundos devidamente classificados e seus scores, e além deles conta com três FICs condominiais próprios.
Desses fundos próprios, o primeiro tem benchmark no MSI World, o segundo é um fundo em reais com histórico de dois anos, e o terceiro acabou de ser lançado em parceria com a gestora Lyxor, localizada em Luxembrugo, sendo totalmente descorrelacionado das principais bolsas internacionais. O objetivo desse fundo, cuja gestão é compartilhada entre a Bram e a asset européia, é ser usado para diversificação, tanto geográfica quanto de classes de ativos. “Nós desenhamos o mandato do fundo e delegamos a operacionalização para eles executarem”, explica Ferrarezi.
Para ele, que acredita que os endowments americanos representam um modelo para os institucionais brasileiros, o cenário atual, embora com várias nuvens carregadas no céu, também é cheio de oportunidades.