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No lugar certo, na hora certa
Duas alocadoras independentes ganham espaço junto aos fundos de pensão, implementando estratégias definidas em suas políticas de investimento

O crescente uso dos Fundos de Investimento em Cotas (FICs) pelas fundações, seja combinando num único veículo cotas de um mesmo segmento ou cotas de diferentes segmentos, tem representado um impulso para a atividade dos alocadores independentes. Essas casas, que não possuem fundos próprios e operam exclusivamente com fundos de terceiros, são mandatadas pelos clientes para implementar uma determinada estratégia, que inclui desde a análise dos fundos e a duo-diligence nos gestores, passando pela seleção e alocação nos melhores fundos e finalizando com o acompanhamento dos desempenhos e a realocação sempre que se faz necessário.
Duas dessas casas tem crescido bastante no último ano, com a conquista de mandatos de vários fundos de pensão. São elas a i9 Capital e a Tag Investimentos. A primeira surgiu em meados do ano passado, como um braço que se desmembrou da i9 Consultoria, passando a prestar serviços de alocação para fundos de pensão e outros clientes institucionais. Atualmente, já tem seis clientes, dos quais cinco são fundos de pensão, representando cerca de R$ 3 bilhões em recursos discricionários.
Sobre um deles, a Fipecq, falamos numa reportagem na edição anterior de Investidor Institucional. O fundo de pensão dos funcionários da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e outros três institutos federais de pesquisa (Inpe, Ipea e Inpa), transformou em março deste ano uma carteira própria de R$ 200 milhões num FIC Multimercado exclusivo, sob a gestão da i9 Capital.
Além da Fipecq, a i9 Capital tem como clientes a MSD Prev, fundação da Merck Sharp, com um fundo que começou em meados do ano passado com cerca de R$ 100 milhões e de lá para cá tem ganhado musculatura. “Foi nosso primeiro cliente, de lá para cá o fundo já aumentou significativamente de tamanho”, diz o sócio e diretor da i9 Capital, Diego Condado, sem no entanto precisar quanto. Outro cliente de peso da alocadora é a fundação da GE, com quatro fundos exclusivos mandatados para a i9 Capital, que juntos representam cerca da metade dos recursos sob responsabilidade da i9.

A Tag, uma alocadora mais antiga, que já existe há 16 anos e possui 8 fundos de pensão como clientes, possui R$ 3,5 bilhões em recursos discricionários. Segundo a diretora da Tag, Francisca Brasileiro, a queda da taxa Selic, em declínio contínuo há alguns anos e que bateu em 2,25% na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de 17 de junho, está obrigando os fundos de pensão a adotar estratégias de investimento mais complexas, com mais gestores no radar, na tentativa de bater as metas atuariais. “Para 90% das fundações, a única maneira de implementar essas estratégias mais complexas é através de FICs”, analisa. “Elas não possuem uma estrutura própria capaz de dar conta dessa complexidade”.
Com 144 gestores mapeados, dos quais 116 estão pré-aprovados para investimento, a Tag já possui investimentos feitos em 36 deles através de seus 17 fundos exclusivos. Dos seus oito clientes institucionais, quatro adotam estratégias de alocação por segmento, com um FIC para abrigar vários fundos de um mesmo segmento, enquanto outros quatro adotam alocação multiestratégicas, com um FIC abrigando fundos de diferentes estratégias, explica Francisca.
Segundo ela, a tendência ao uso de FICs por parte dos institucionais é crescente e deve tornar-se ainda mais relevante nos próximos anos, não só pela estrutura mais enxuta das fundações e necessidade de especialização cada vez maior, mas também para atender ao crescente rigor dos órgãos reguladores em relação à transparência das operações. Ela acha que uma casa especializada pode proporcionar isso com mais facilidade, tirando um peso de cima dos ombros das fundações.
Além disso, os FICs proporcionam três vantagens ao fundo de pensão, que vão ser cada vez mais importantes na conjuntura de taxas de juros baixas. A primeira delas é a seletividade, com escolhas de fundos feitas a partir de métodos objetivos de avaliação de produtos e gestores por parte do alocador; a segunda são as estratégias de proteção, que o alocador monta para evitar ou para minimizar perdas, seja dentro de um mesmo fundo ou cruzadas de um fundo para outro; e a terceira é a diversificação, incluindo gestores independentes de boa qualidade e diferentes procedências que dificilmente comporiam os portfólios das fundações sem o olhar de um alocador externo.

Nascida em agosto do ano passado, tendo como sócios Diego Condado e Silvio Santos que se desligaram da i9 Consultoria para criar a i9 Capital, a alocadora mantém equipes e até escritórios separados para garantir a independência das decisões. A i9 Capital tem um total de 60 gestores já avaliados e com due-diligence realizadas, com cerca de 200 fundos pré-aprovados de várias classes na sua prateleira, incluindo desde fundos de renda fixa ativa até renda variável fundamentalista, dividendos e small caps, além de multimercados estruturados e institucionais. Tem também dois FIPs já aprovados, que estariam pronto para entrar na estratégia de alguma fundação cujo plano contemplasse essa estratégia.
Para o sócio Diego Condado, a adoção de estruturas terceirizadas por parte dos fundos de pensão está ocorrendo principalmente nas entidades de médio e pequeno porte, cujas equipes têm sido reduzidas ao longo do tempo. “As patrocinadoras estão enxugando o time de gestão das fundações”, afirma. “As fundações de patrocinadora estrangeiras são as que têm estrutura mais enxuta, normalmente são apenas três ou quatro pessoas para cuidar das áreas de recursos humanos, benefícios e investimentos, então elas adotam o modelo que já utilizam lá fora, de contratar Fofs de alocadores externos”, explica.

Além da facilidade para controlar as carteiras, os FICs podem até representar economia com taxas para as fundações. Isso porque eles adotam a prática de repassar ao investidor o rebate da taxa de administração que os gestores costumam dar. Tanto a Tag Investimentos quanto a i9 Capital repassam ao investidor 100% do rebate, que é incorporado à rentabilidade do fundo. Esse repasse é feito diretamente pelo administrador ao fundo, sem passar pelo alocador, explica Condado. Segundo ele, os rebates representam uma média de 25% da taxa de administração, podendo ser um pouco maiores nos fundos de renda variável e multimercados e um pouco menores quando se trata de fundos de renda fixa.
Esse rebate é dado, normalmente, por gestores independentes, mas segundo Condado já se nota entre as assets médias uma tendência de também adotar esse procedimento de rebater taxas. “Já conseguimos que assets de mais de R$ 20 bilhões rebatessem um pedaço da taxa de administração ao fundo”, explica o diretor da i9. “Acho que isso vai virar uma tendência e em breve chegará inclusive aos bancos”.
Segundo Condado, os FICs podem ser usados tanto por fundações com estruturas mais simples, com um único ou poucos planos, até fundos de pensão com estruturas mais complexas com vários perfis de investimentos e planos desenhados com estratégias diferenciadas e/ou por ciclos de vida. No caso das estruturas mais simples, a opção mais natural é um FIC abrigando todas as estratégias, nos casos de perfis e planos diferenciados a opção mais natural são FICs para cada estratégia, seja de perfil ou plano.