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Passando da teoria à prática
Os projetos denominados “verdes”, que até bem pouco tempo atrás eram bem vistos mas com poucos recursos, podem estar entrando em nova fase

Os projetos com características ASG, sigla que indica as vertentes de respeito ambiental, social e de governança dos empreendimentos, estão começando a ganhar contornos mais reais nos portfólios dos investidores brasileiros. Até recentemente muitos gestores de recursos e investidores falavam abstratamente de adesão aos princípios ASG, tanto que o PRI (Principles for Responsible Investment) tem 66 signatários brasileiros, mas poucos com uma prática muito visível aos não iniciados. Isso vinha mudando aos poucos nos últimos anos, mas com a crise gerada pela pandemia do Covid-19 a mudança tornou-se radical.
Essa radicalidade tornou-se explícita quando um grupo de gestoras internacionais, entre as quais pontuavam a Storebrand e KLP, da Noruega, Nordea e SEB, da Suécia, Legal and General Investment, do Reino Unido, Robeco, dos Países Baixos, AP2, da Suécia, e Sumitomo Mitsui, do Japão, reuniu-se por videoconferência no início de julho com o vice presidente da República, Hamilton Mourão, para discutir as queimadas na Amazônia. Eles disseram que sem um compromisso claro do governo brasileiro em relação ao tema ambiental o dinheiro dos fundos internacionais poderia deixar de fluir para o País.
É a linguagem que o governo entende. Alguns dias depois foi a vez de um grupo de empresários nacionais, entre os quais pesos pesados como Water Schalka, CEO da Suzano, André Araújo, CEO da Shell, Paulo Sousa, CEO da Cargill, Marcos Antonio Molina dos Santos, presidente do Conselho de Administração da Marfrig, Candido Botelho Bracher, CEO do Itaú, e Luiz Eduardo Osorio, diretor de Relações Institucionais da Vale, se reunir com Mourão para dizer que o País precisaria assumir claramente um compromisso de conter as queimadas e o desmatamento da floresta amazônica. Eles disseram à Mourão que parceiros internacionais das empresas brasileiras estavam sendo pressionados a diminuir seus negócios com o País por conta dos desmatamentos e das queimadas na Amazônia.
De uma hora para outra parece que a questão ambiental, assim como os demais aspectos da agenda ASG, ganharam relevância nos projetos das empresas. “A pegada verde já não é só uma questão de boas intenções, hoje é uma tendência clara de negócios e uma realidade dentro dos novos projetos”, afirma Vitor Bidetti, CEO da Brei, gestora especializada em fundos imobiliários. A Brei, uma subsidiária do grupo Integral, está estruturando um fundo imobiliário que pretende captar cerca de R$ 4 bilhões para desenvolver um bairro com características ASG em Brasília.

O projeto é liderado pela Terracap, uma estatal do distrito federal, que vai entrar com um terreno de 960 mil metros quadrados localizado na Asa Norte de Brasília, avaliado em R$ 1 bilhão. A Terracap contratou o arquiteto italiano Carlos Ratti, que dirige no Massachusetts Institute of Technology, em Boston (EUA), um grupo de pesquisa que explora a forma como as novas tecnologias estão mudando as formas de planejamento e convivência das cidades.
O projeto de Ratti para Brasília pretende somar edifícios de várias vocações num projeto integrado, composto por residências, comércio, serviços, educação (prevê duas universidades) e tecnologia (terá um edifício específico para abrigar novas start-ups), num modelo que especialistas globais estão chamando de “distritos de inovação”. O projeto recebeu da Terracap o nome de Biotic, numa referência ao seu objetivo de desenvolver em suas dependências as áreas de biotecnologia, tecnologia da informação e comunicação.
A Brei, escolhida para fazer a estruturação e gestão do fundo imobiliário a partir de uma licitação feita pela estatal, prevê cerca de R$ 4 bilhões a serem aportados nesse veículo nos próximos anos para o desenvolvimento do projeto. Esse volume não deve ser aportado de uma só vez, mas em emissões sequenciais, sendo que a primeira, para captar entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões, deve ocorrer já no final de outubro deste ano. Segundo Bidetti, os recursos da primeira emissão devem ser usados para o desenvolvimento das estruturas “âncoras” do projeto.
As captações serão direcionadas tanto para os grandes investidores internacionais, caso dos fundos soberanos e fundos de pensão globais, quanto para os grandes investidores locais, como os fundos de pensão nacionais. Bidetti considera que o ideal seria obter um mix de captação com cerca de 50% aportado por cada um desses lados, mas adianta que isso é difícil de prever. “Às vezes um grande fundo soberano, sozinho, pode resolver ficar com toda a emissão”, diz. “Mas os fundos de pensão locais, pressionados pela queda da taxa de juros, também têm interesse nessas emissões, que devem pagar uma remuneração da ordem de 20% ao ano”.
Além da Terracap e da Brei, participam do projeto o Banco Regional de Brasília (BRB), como responsável pela administração e custódia, e uma empresa que fará a distribuição do fundo. Essa última ainda não está definida.
Com seis fundos imobiliários no portfólio, a Brei tem atualmente R$ 3,5 bilhão sob gestão, diz Bidetti. O grupo conta com uma segunda gestora, a Integral Investimentos, com foco na área de fundos de direitos creditórios (FIDCs). Juntas, as duas têm cerca de R 12,5 bilhões sob gestão. O grupo se prepara para lançar uma DTVM, inicialmente destinada às operações do próprio grupo, para atender a clientes com emissões menores que não comportariam o lançamento de um fundo.
Outro projeto com fortes características ASG anunciado recentemente foi o da Ibitu Energia, uma empresa controlada pelo fundo global Castlelake. A Ibitu, novo nome da Queiroz Galvão Energia, pretende investir entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões na expansão de seu parque de geração de energia com energias limpas. Atualmente a empresa tem uma capacidade instalada de 832 Megawatts, dos quais 532 Megawatts são de fonte eólica e 300 Megawatts são de fonte hídrica.

A Ibitu pretende dobrar sua capacidade instalada nos próximos cinco anos, principalmente através de novas plantas de energia eólica e solar. Segundo o CEO da Ibitu, Gustavo Ribeiro, a tomada de decisão em relação ao desenvolvimento de novos projetos leva fortemente em conta os seus impactos sociais e ambientais. “Pensamos que esses impactos devem ser minimizados tanto quanto possível. Esse cuidado está um pouco entranhado no DNA da companhia”, explica. “Não pensar assim pode gerar uma destruição de valor muito grande. A gente vê as questões ASG do ponto de vista da geração de valor”.
Essa expansão planejada pela Ibitu, segundo Ribeiro, poderia vir tanto de ativos greenfield (novos projetos) quanto brownfield (projetos já existentes). “Estamos avaliando todas as possibilidades para sustentar nossa expansão e trabalhamos, simultaneamente, na estabilização da companhia nos aspectos operacionais, organizacionais e financeiros”, diz
Segundo ele, as fontes de financiamento para esse investimento ainda não estão definidas. “Também nesse caso estamos estudando quais são nossas melhores opções”, diz. Ele conta que a empresa pode buscar tanto os tradicionais bancos de fomento nacionais, como BNDES, BNB e Basa, assim como agentes multilateriais internacionais, como IFC, ou Eximbanks de países estrangeiros. “Está tudo sobre a mesa”.

Atentas ao desenvolvimento dessa tendência de valorizar as áreas ambiental, social e de governança, as companhias abertas e as gestoras de recursos passaram a buscar profissionais capazes de assumir essa nova demanda. É o caso da Marfrig, segunda maior empresa global de carne bovina e maior produtora mundial de hambúrgueres, que contratou o ex-diretor executivo do Greenpeace no Brasil, Marcelo Furtado, para compor o seu comitê de sustentabilidade.
Segundo Marcos Molina dos Santos, fundador e presidente do Conselho de Administração da Marfrig, “é um enorme privilégio contar com a experiência e o conhecimento de Marcelo Furtado”. “Temos convicção de que ele contribuirá de forma decisiva para reforçar a posição atual da Marfrig como uma referência em termos de sustentabilidade”.
A XP Private trouxe Marina Cançado para dirigir a área de Sustainable Wealth, algo como Fortuna Sustentável numa tradução livre, colocando sob sua responsabilidade a abordagem dos temas ambiental, social e governança no mundo dos investimentos. Marina faz parte do conselho consultivo do Global Reporting Initiative e também é membro da rede The ImPact, que reúne famílias dispostas a fazer investimentos ASG. “Estou muito animada de liderar essa frente dentro da XP e poder contribuir ainda mais com a expansão de investimentos ASG e de impacto no Brasil”, diz.
Para o vice-presidente da área de investimentos, vida e previdência da SulAmérica, Marcelo Mello, o aspecto ambiental foi o último, do trinômio ASG, a ganhar importância no mundo dos investimentos. Segundo ele, isso só começou a acontecer “quando as empresas repararam que a questão ambiental teria impacto positivo sobre todos os outros investimentos”. Mello, que fez esse comentário durante debate promovido pela Confederação Nacional de Seguros (CNSeg), avalia que embora o tema ambiental esteja ganhando importância ele ainda está longe dos outros dois, que são o social e a governança. “Nessa direção, nós estamos semelhantes ao investidor americano, mas ainda muito longe do investidor europeu”, diz.