Mainnav

Sem risco não há retornos
Clientes private do Itaú USA entram no mercado global assumindo mais risco e abrindo mão da liquidez em busca de mais rentabilidade

Mais risco e menos liquidez faz parte da fórmula que está sendo oferecida pelo Itaú USA aos clientes private brasileiros com alocações no exterior. Eles estão cada vez mais ingressando no mercado global e rapidamente se acostumam às suas características, que são bem diferentes das que conheceram por décadas no Brasil, onde os juros altos e a garantia dos títulos públicos federais foram a regra, por décadas. Mas eles aprendem rapidamente que para ampliar o retorno de seus portfólios globais precisariam abrir mão de um pouco de garantia ou de um pouco de liquidez, ou de ambos. “Não dá para ter tudo, garantia plena, liquidez total e alta rentabilidade”, diz o CEO do Itaú USA, Fernando Beyruti.
Quando ele chegou à Miami, em janeiro de 2019, depois de comandar por três anos a asset do Itaú no Brasil em parceria com Marcelo Siniscalchi, percebeu que soluções mais criativas em termos de abordagem dos clientes seriam a chave para crescer nesse mercado. E isso dependia de três fatores: um time de pessoas que “pensassem fora da caixinha” para entender as necessidades do mercado, parcerias com empresas que tivessem as melhores alternativas em termos de produtos, e tecnologia que permitisse relacionamento fácil com novos parceiros e produtos assim como com os clientes.

Quanto às pessoas, Beyruti montou sua equipe não a partir das pessoas mais familiarizadas com o Brasil, mas das menos. Isso evitava pensamentos repetitivos, evitava repetir o padrão vigente na Faria Lima, centro financeiro de São Paulo. Como exemplo, o head da área de equity é um descendente de hindus que não fala o português, o estrategista-chefe é um londrino e o cara que opera curva de juros nem veio do mercado financeiro, na verdade trabalhava na indústria farmacêutica, no laboratório Abbot, anteriormente. “São pessoas que pensam fora da caixinha”, diz Beyruti.
Quanto aos produtos, ele sabia que teria que estreitar relacionamento com novas casas, e para isso buscou o mercado de assets especializadas e family offices. Fez acordos com várias casas, desde gestoras renomadas de private equity a family offices tradicionais. “Para atuar no mercado norte-americano é preciso jogo de cintura, no Brasil o nome do Itaú te abre as portas, já nos Estados Unidos, embora o Itaú seja conhecido, as coisas são diferentes”, afirma.
Beyrute sabia que precisava desses dois elementos e mais um. Além das pessoas e dos produtos, precisava de tecnologia para fazer a diferença no jogo global. “Temos investido alguns milhões de dólares para aperfeiçoar a nossa plataforma, não só com foco no nosso core business mas também na intersecção com os clientes”, afirma.

Em janeiro de 2019, quando Beyruti chegou à Miami, o Itaú USA tinha um total de US$ 23,5 bilhões sob gestão, volume que saltou para US$ 26 bilhões ao final do mês de setembro. Apenas na base de investimentos alternativos, incluindo hedge funds, private equity, long & short de diversas estratégias e real estate, o volume saltou de cerca de US$ 500 milhões no início de 2019 para US$ 2,6 bilhões atualmente. Do total sob gestão, cerca de 90% são provenientes de privates brasileiros e o restante de colombianos, chilenos e outros latino-americanos. “A base de clientes private do Brasil é a maior, não tem como ser diferente”, afirma Beyruti.
Segundo ele, é uma base com clientes que possuem pelo menos US$ 1 milhão em investimentos com a casa, e que estão em busca de diversificação global para suas carteiras. Como as classes de ativos no Brasil são pouco diversificadas, esses clientes estão buscando no mercado global classes com tipos diferenciados de distressed assets, de private equitys, de hedge funds e de real estates.
Além disso, em razão das taxas de juros baixas dos Estados Unidos, alguns clientes podem alavancar suas posições no mercado norte-americano, o que raramente fazem no Brasil. Segundo Beyruti, o banco não permite posições alavancadas que excedam a capacidade de pagamento do cliente. “Mas como o custo de oportunidade para tomar posições alavancadas nos Estados Unidos é mais favorável que no Brasil, até um certo limite permitimos”, diz. “Esse limite está relacionado ao total de ativos que o cliente possui, de forma que numa emergência ele consiga honrar tranquilamente as posições apenas vendendo seus ativos”.

Uma tendência que se consolidou nos Estados Unidos e que caminha nesse mesmo sentido no Brasil é o uso de ETFs (Exchange Traded Funds) pela indústria de investimentos. A principal razão disso são os baixos custos do instrumento, com gestão muito mais simples uma vez que o trabalho do gestor é reproduzir constantemente o índice que replica.
A indústria dos ETFs ainda é muito pequena no Brasil, representando R$ 27,83 bilhões ao final de setembro, sendo R$ 23,51 bilhões em ETFs de renda variável e R$ 4,32 bilhões em ETFs de renda fixa. Isso significa apenas 0,47% do total da indústria brasileira de fundos, que somava R$ 5,79 trilhões também ao final de setembro. Nos Estados Unidos, onde esse mercado é muito mais desenvolvido, além dos ETFs de ações e renda fixa, há também de commodities, de moedas etc.
Segundo Beyruti, essa indústria “tem um potencial enorme de crescimento”. Na opinião do executivo, ela irá conviver com os fundos que buscam e entregam alfa daqui para a frente, mas vai eclipsar os fundos que prometem mas não entregam alfa. “Quando recomendamos um fundo para um cliente é porque ele entrega alfa. Se não for para gerar alfa, ou gerar um alfa pequeno, o melhor é ficar com os ETFs”, diz Beyruti. “É mais barato para o investidor”.

Outra vertente que o executivo destaca como muito vigorosa, apresentando um grande potencial de crescimento, é a dos fundos ESG (de ambiental, Social e Governança). Segundo ele, é um segmento novo, e os gestores ainda têm que compreender melhor o seu desenvolvimento, as suas implicações, o seu público, “mas não há dúvida de que os clientes estão cada vez mais interessados”.
De acordo com ele, “tem investidor que já está pedindo uma carteira 100% ESG”. Ele afirma já que os clientes com preocupações ESG nos investimentos já representam uma parcela significativa das carteiras do Itaú USA. “Ao contrário do que ouço muitas vezes, isso não é um modismo”, diz. “Ao contrário, é uma tendência firme e vai crescer muito”.