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FIPs foram demonizados
O presidente da Abvcap, Piero Minardi, diz que algumas acusações contra investidores em FIPs são “fora do esquadro” e é preciso “virar a página”

Passada meia década dos problemas que envolveram investimentos de fundos de pensão de patrocinadores públicos, em sua maioria, com Fundos de Participações (Fips) como Sete Brasil e Greenfield, a ferida ainda não está cicatrizada. Muitos fundos de pensão ainda colocam restrições a investimentos nessa classe de ativo. Para o presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), Piero Minardi, esse tipo de restrição não faz nenhum sentido hoje.
“Os fundos de pensão precisam investir na classe private equity para conseguir cumprir suas metas atuariais”, diz Minardi. Segundo ele, realmente houve distorções nos investimentos de alguns FIPs em anos passados, mas não se pode confundir essas distorções com os próprios instrumentos. “Não é o FIP, é o mau uso que se fez deles que trouxe problemas às fundações”, diz.
Com a queda da Selic a 2%, muitas alocações de renda fixa deixaram de fazer sentido para o investidor local, que tem direcionado suas carteiras para a renda variável. A classe de private equity começou a entrar no radar de pessoas físicas, de family offices e também de institucionais, como fundo de pensão e RPPS, mas ainda é majoritariamente uma praia dos investidores estrangeiros, que representam entre 80% e 90% das alocações nos fundos.
Grande parte da resistência do investidor brasileiro, particularmente o institucional, em relação aos FIPs deve-se aos problemas evidenciados meia década atrás com os fundos Sete Brasil e Greenfield, principalmente. Segundo Minardi, esses fundos nem seriam enquadrados como FIPs atualmente, pois pelas regras da Abvcap apenas fundos com investimentos em várias empresas podem ser considerados como tais, e eles eram monoativos, ou seja, investiam em uma empresa única.
Além disso, houve uma “demonização” dos FIPs por parte de reguladores e tribunais de contas. “Alguns investidores são cobrados por coisas que não fazem sentido nenhum, como terem aprovado investimentos em fundos com determinadas taxas de desconto, alguns tomaram multa por isso”, diz o presidente da Abvcap. Segundo ele, “são acusações fora do esquadro”.
Ele aponta que a indústria de private equity local tem gestores com 15 a 20 anos gerando resultados positivos, mas esses resultados positivos não estão servindo para pagar aposentadorias de trabalhadores brasileiros. “São bons retornos que estão indo para pagar aposentadorias das velhinhas de Wisconsin, dos trabalhadores de Minnesota”, diz Minardi. “Precisamos reabilitar os FIPs para os investidores brasileiros. É preciso virar essa página”.

O presidente da Abvcap passou as duas últimas semanas de novembro envolvido com a realização do Congresso da entidade, que comemora neste ano o seu 20º aniversário. Durante duas semanas a associação reuniu, numa série de painéis realizados de forma virtual, especialistas de várias áreas para tentar projetar qual será o papel do capital de risco no Brasil dos próximos anos. “Temos uma comunidade robusta, formada por gestores, investidores, todo um ecossistema que vai ser importante na modernização do capitalismo brasileiro daqui para a frente”, diz.
Uma vertente importante dessa modernização já ficou evidente nos últimos quatro a cinco anos, com a entrada em cena de empresas tecnológicas de vários segmentos investidas por fundos de private equity, muitas das quais estrearam nas bolsas de valores, tanto local quanto internacional, nos últimos anos. São empresas tecnológicas das áreas financeira (fintechs), meios de pagamento, logística etc. Daqui para a frente, além da vertente tecnológica também a vertente ESG (de Ambiental, Social e Governança) deve entrar com força na mira dos fundos de private equity, afirma Minardi.
Segundo Minardi, o lado G do acrônimo ESG já é um velho conhecido dos fundos de private equity, que há anos incentivam padrões de transparência, direito de minoritários e outros nas empresas investidas. Muitas das empresas investidas que foram a IPOs nos últimos anos, principalmente na listagem do Novo Mercado, seguiam esses padrões. “Grande parte das empresas brasileiras que contam com governança é graças à atuação dos fundos de private equity”, diz o presidente da Abvcap. “Cerca de 60% das empresas listadas hoje em bolsa já foram investidas de fundos de private equity”.
Agora é a vez do lado E do ESG. Segundo Minardi, serão as empresas investidas pelos fundos de private equity que puxarão os novos padrões de sustentabilidade e respeito ao meio ambiente dentro do ambiente empresarial brasileiro nos próximos anos. Isso já começa a acontecer, em linha com as exigências do mercado internacional. “Os investidores internacionais cobram isso da gente e a gente cobra das nossas investidas”, explica.
Segundo ele, a falta de entendimento no governo da relevância desse tema, gerando uma política de comunicação completamente errática, têm contribuído para afastar investidores internacionais do Brasil. Claro que esse não é o único ponto a explicar a queda dos investimentos diretos dos estrangeiros no País, que caiu 48% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2019, para US$ 18 bilhões. Além da questão ambiental, contribuíram para essa queda também a desaceleração econômica global e a desvalorização cambial, “que machucou todo mundo” ao atingir o patamar de R$ 5,74 no final de outubro, diz Minardi. “Mas as atitudes que esse governo tem tomado em relação à questão ambiental ajudam a piorar bastante o ambiente“.

Além de uma comunicação errática na questão ambiental, também sinais equivocados em relação a compromissos do governo com a disciplina fiscal, teto de gastos, reforma tributária e administrativa, têm prejudicado a entrada de capital estrangeiro no País, avalia o presidente da Abvcap. “Está certo, na pandemia tinha que gastar sim, para ajudar os mais vulneráveis e as micro e pequenas empresas em dificuldades, mas tinha que sinalizar que esses gastos excepcionais tinham prazo para acabar, e não eram para se eternizar. Se o governo ceder à tentação de manter esses gastos permanentes, como quer parte do mundo político, poderemos ter um quadro bem complicado no ano que vem”, diz Minardi.
Nas duas últimas semanas de novembro onde participou de vários painéis do Congresso da Abvcap como debatedor ou moderador, ele diz ter notado um forte temor por parte de agentes do mercado financeiro em relação a eventuais medidas de irresponsabilidade fiscal que possam estar sendo fomentadas no governo. Embora o tema não tenha sido abordado especificamente em nenhum painel, surgiu naturalmente nas apresentações de vários expositores. “Não tem como debater o nosso setor sem abordar temas da conjuntura”, diz. “E a política está ligada a esses temas de conjuntura”.

Para o presidente da Abvcap, apesar de alguns ajustes eventuais poderem ocorrer em relação aos preços dos IPOs, eles devem continuar fortes no final de 2020 e 2021. Ele diz que as desistências que ocorreram neste ano, basicamente da Compass Gás e Energia, controlada da Cosan, Caixa Seguridade, controlada pela Caixa, e BR Partners, se devem a questões de preços. “Talvez não tenha ocorrido a demanda que eles gostariam, então eles desistiram”, diz. “Na primeira onda de IPOs os múltiplos esticaram muito, porque tinha pouco ativo, mas depois isso começou a se ajustar”, analisa. “Nesse ajuste, alguns lançamentos poderiam não alcançar os níveis que tinham projetado”.
Minardi acrescenta que os investidores brasileiros devem continuar apostando nos IPO, até porque a entrada de novas empresas darão às bolsas brasileiras uma melhor representação da economia real. “Até há pouco tempo, se você queria investir numa empresa farmacêutica tinha apenas uma, agora tem pelo menos duas ou três”, diz
Setores que não eram representados na bolsa, como de cuidados animais, passaram a figurar como uma opção de investimentos desde o IPO da PET. Além disso, ele destaca também o IPO da Sequoia Logística, de entregas de compras Online. “Os IPOs estão trazeendo novas empresas e novos setores à bolsa, aumentando as opções para os investidores”, diz.