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Squeeze pela rede
O ataque de investidores de varejo a uma ação vendida a descoberto nos EUA, combinando preços via redes sociais, mostra a importância das regras

Edição 333

O ataque de investidores de varejo aos vendedores a descoberto de ações da GameStop nos Estados Unidos, na última semana de janeiro, não é visto por gestores brasileiros como algo que possa se repetir, pelo menos naquela magnitude, no mercado local. Embora ações do IRB tenham sido foco de um movimento semelhante por parte de investidores de varejo brasileiros, tentando levar à corner vendedores de ações a descoberto da seguradora, caso típico da gestora Squadra que no ano passado descobriu e denunciou irregularidades contábeis no IRB, a alta desses papéis na bolsa brasileira não ultrapassou a casa dos dois dígitos enquanto nos Estados Unidos a alta da GameStop chegou a quase 2000%.
“Vale diferenciar a magnitude dos eventos. Enquanto o IRB subiu cerca de 20% em um único dia, sem se estender e ficando dentro de uma normalidade para uma ação intrinsicamente volátil, o GameStop oscilou de cerca de US$ 2.5 para mais de US$ 480 sem grandes alterações fundamentais na empresa, tendo de fato gerado a quebra de hedge funds vendidos na ação”, analisa o diretor de investimentos da Claritas, Helder Soares. “No Brasil, também tentaram fazer algo semelhante com Cogna, com criação de grupo no Telegram, mas com impacto bastante moderado no preço da ação”.
Uma nota divulgada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) assim que a pressão sobre os papéis brasileiros começou a tomar corpo também pode ter esfriado o ânimo dos investidores locais que tentavam replicar aqui a dinâmica do movimento americano, onde milhares de investidores de varejo atuaram via fóruns de mídia social (principalmente o Reddit) para disparar, de forma coordenada, ordens de compra de ações da GameStop, uma empresa de jogos eletrônicos que há tempos vinha sendo alvo de ordens de vendas a descoberto por parte de gestoras.
Por aqui, os investidores locais mantiveram fóruns de discussão de preços do IRB no Facebook e Instagram, usando nomes como “IRBR3 Forum Investing” (mais de 8 mil membros) e “Short squeeze IRB” (mais de 20 mil membros) respectivamente. No caso da Cogna, as discussões aconteceram no YouTube.
A nota divulgada pelo regulador brasileiro em 29 de janeiro dizia que “o chamado squeeze, que pode se configurar em situações nas quais um ou mais investidores provocam artificialmente a alta do preço de valores mobiliários, é uma das modalidades de manipulação de mercado”. Prosseguindo, a autarquia advertia que “a atuação com o objetivo deliberado de influir no regular funcionamento do mercado pode caracterizar ilícitos administrativos e penais”.
A nota da CVM dizia ainda que “a CVM continuamente monitora o mercado para identificar práticas ilícitas e rotineiramente instaura processos sancionadores e aplica sanções pela prática de ilícitos dessa natureza. Como já se encontra demonstrado nos precedentes da CVM, pode contribuir para a caracterização da manipulação a atuação de um conjunto de pessoas, agindo sob um interesse comum, sendo todas elas, pelo menos em tese, possíveis de responsabilização pela conduta vedada pela Instrução CVM 8”.

Segundo gestores brasileiros, além dessa intervenção da CVM também as características regulatórias do mercado brasileiro, com limites mais estreitos de venda de ações a descoberto do que aqueles que vigoram nos Estados Unidos, contribuíram para que o evento não tivesse grandes proporções por aqui. “O mercado brasileiro é muito menos alavancado. No Brasil, para você ficar short você tem que tomar aluguel na CBLC (Central Brasileira de Liquidação e Custódia), que controla todo o mercado de aluguel e tem uma série de limites de alavancagem que não existem lá fora”, explica o sócio responsável pelos fundos long & short da Neo Investimentos, Augusto Lange.
Essa avaliação é a mesma do diretor de investimentos da Claritas, Helder Soares. “No Brasil, sempre existiram limites ao aluguel de ações, para citar alguns: limite de aluguel total em relação às ações em circulação de 20%, limite nas posições por investidor de 5% das ações em circulação e 10% por corretora. Além disso, as regras de recompra são muito mais punitivas, evitando a venda a descoberto quando não se tem ações alugadas”, diz ele. “Assim sendo, a situação de ter em algum momento mais de 100% de ações vendidas do capital total, como no caso do GameStop, nunca ocorreria no Brasil”.

O fato do ataque dos investidores brasileiros ter tido menor repercussão no preço dos papéis do IRB do que tiveram o dos investidores americanos sobre o preço das ações da GameStop também tornou, por aqui, menos relevante a discussão sobre o risco envolvido nessa classe de investimentos. Na opinião do gestor da Neo Investimentos, o episódio da GameStop não vai alterar a percepção de risco que os investidores locais têm em relação aos fundos que operam com posições vendidas, como long&shorts e multimercados. Segundo ele, “não acho que esses eventos vão levar os investidores a buscar produtos mais desalavancados. Na verdade, o movimento do mercado como um todo, nos últimos anos, foi de buscar produtos de maior volatilidade, que conseguissem entregar um retorno mais alto para os investidores, e acho que esse movimento tende a continuar”.
De acordo com o sócio responsável pela estratégia de ações da Ibiuna Investimentos, André Lion, como os episódios repercutiram de forma limitada no Brasil, a percepção dos investidores em relação aos fundos multimercados que operam com estratégias vendidas não deve ser afetada. “Os episódios não tiveram nenhum impacto direto sobre os nossos fundos. Em relação ao IRB, o que vimos na tela foram dois ou três dias de alta, possivelmente porque alguns gestores reduziram posição short, mas depois disso a ação já voltou para a normalidade”.
Segundo ele, eventualmente, alguns gestores podem ter tido algum prejuízo em suas carteiras vendidas, mas o mercado já voltou ao normal e os investidores vão continuar alocando em fundos multimercados e long&short. “Vários fundos ficaram no negativo em janeiro, mas isso é do jogo”, diz Lion. “A busca por risco continua, senão o investidor vai continuar no CDI de 2%. Não existe essa relação do que ocorreu com GameStop com aumento da procura por fundos mais desalavancados”.
O diretor de investimentos da Claritas, Helder Soares, tem opinião parecida. “Não vislumbramos mudança no apetite de clientes, mesmo após termos realizado diligências com clientes institucionais após esses eventos”. Segundo ele, “o ambiente de baixas taxas de juros vai continuar impulsionando à uma maior tomada de risco por parte dos investidores”.
Isso não quer dizer que as empresas de gestão vão passar incólumes pelo episódio GameStop. Na opinião de André Lion, da Ibiuna, os episódios podem levar os gestores de fundos multimercados e long&short a alterar momentaneamente suas estratégias, reduzindo um pouco o risco das carteiras, mas apenas de forma circunstancial. “Podemos ter algo transitório, conjuntural, de os gestores reduzirem um pouco de risco. Mas no médio prazo não vai mudar nada. Esse não foi o primeiro squeeze e nem será o último”, afirma.
O gestor da Neo Investimentos, Augusto Lange, raciocina na mesma direção. “O episódio nos Estados Unidos, onde tivemos fundos com perdas muito grandes, é uma manchete ruim para a percepção das pessoas sobre o risco de ter uma posição vendida. Mas eu não acho que os investidores (...) vão se influenciar por isso”.

Diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos, onde o número de pessoas operando no mercado de varejo de investimentos é enorme, no Brasil o número de investidores pessoas físicas ainda é pequeno, embora tenha crescido bastante nos últimos anos. A tendência é que eles ganhem protagonismo daqui para a frente, principalmente porque descobriram um instrumento de comunicação entre eles, que são as redes sociais, que facilitam a tomada de posições de forma coordenada em relação a um determinado papel ou estratégia. E isso tende a levar muito mais volatilidade aos mercados.
Segundo Lange, “com a entrada de mais investidores pessoas físicas no mercado você pode ter, eventualmente, algum tipo de compra num curto período de tempo por essas pessoas que causem alguma movimentação dos papeis”. Ainda de acordo com ele, “a posição vendida acaba tendo um outro fator de risco a controlar – como teria que controlar qualquer fator de risco –, que é o fato de você estar vendido em papéis que podem andar muito no curto prazo”.
Na opinião de Lion, o que aconteceu em relação ao IRB e Cogna foram “episódios isolados, não foram os primeiros e nem serão os últimos”. De acordo com o executivo, no caso da Cogna “alguns youtubers influenciaram e o papel foi parar em R$ 9,60. Aproveitamos na época para fazer short e hoje o papel veio para R$ 4,24. É importante as pessoas entenderem que ações representam companhias e o valuation que fazemos é em cima de lucro, crescimento, geração de caixa. As coisas têm fundamentos e as pessoas às vezes não entendem isso. Quem entrou na onda perdeu dinheiro. Isso é manipulação de mercado. SEC e CVM já anunciaram que vão agir em relação a isso”.
Mas além da intervenção dos órgãos reguladores, o que de fato deve começar a prevalecer entre os gestores é uma certa reserva na hora de comunicar ao mercado suas posições, principalmente aquelas à descoberto. Com o crescimento do número de investidores de varejo, a partir de agora prontos para tomar uma posição oportunista e coordenada em relação às apostas dos gestores mais expostos em determinados papéis, anunciar publicamente o que estão fazendo passa a ser mais perigoso.