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Disputa acirrada entre gestores
Casas de gestão lançam produtos com novas teses de investimento e impulsionam participação em licitações para fundos exclusivos

Edição 333

Com lançamento de novos produtos de prateleira e grande competição por mandatos exclusivos, a disputa entre as casas gestoras pelo mercado de investimento no exterior acelerou bastante durante a crise de 2020. Com sete fundos de investimento no exterior (IE) lançados em 2020, adequados aos EFPC e RPPS, a BB DTVM vê um momento de inflexão histórica nesse mercado. “É uma tendência cada vez mais forte, como um trem-bala”, diz o diretor da área comercial e de produtos da gestora, Júlio Vezzaro.
A forte demanda por mais teses de investimento, por parte do mercado, reforça esse movimento. A BB DTVM já tem 18 fundos IE disponíveis, sendo que 35% do patrimônio foram constituídos no ano passado. O patrimônio líquido é de R$ 6 bilhões só em carteiras de exterior para institucionais, com teses variadas que vão desde bolsas asiáticas até ações globais de biotecnologia. Uma dessas carteiras é um fundo de bolsas globais com gestão ativa, que deixa o gestor mais livre em suas decisões. Mas o trabalho para as EFPC, diz Vezzaro, é feito “praticamente a seis mãos, já que inclui as equipes de gestão das entidades e suas consultorias”.
Para 2021, o objetivo da BB DTVM é buscar inovação nas estratégias de IE. Mais dez novos produtos devem ser lançados ao longo do primeiro semestre e, no caso dos fundos destinados aos RRPS, a modelagem é pensada desde o início de acordo com as características desse público. “São dois mercados estratégicos para nós, EFPC e RPPS, e embora a média de alocação dos RPPS ainda seja um pouco abaixo das fundações, a tendência é de crescimento, avalia Vezzaro.
No caso das EFPC, já há uma pressão de algumas entidades para ampliar o limite legal “Entidades com patrocinadores internacionais já avançaram mais porque têm a diversificação no seu DNA e muitas estão perto do teto”.

Do total de R$ 73,3 bilhões que a BNP Paribas Asset Management tem sob gestão no Brasil, cerca de R$ 400 milhões são de investidores locais em fundos no exterior. “A família desses fundos já está disponível aos institucionais brasileiros desde 2010, mas a demanda era pequena até o início do ano passado. De lá para cá, o apetite mudou de forma radical”, explica o responsável pela área comercial da asset, Aquiles Mosca.
A realidade de juros reais baixos e até negativos fez com que tanto EFPC quanto RPPS passassem a acelerar seus processos de alocação internacional e a casa viu disparar o patrimônio de algumas de suas principais estratégias. Uma delas está num fundo de ações de gestão ativa, sem hedge cambial, cujo patrimônio líquido saltou de R$ 20 milhões no final de 2019 para R$ 200 milhões em dezembro passado, crescimento derivado em 80% de novas captações e apenas em 20% da valorização da carteira, explica Mosca.
O câmbio, na atual safra de fundos, passou a ser mais um componente da diversificação. Com desempenho superior ao S&P 500, já descontado o efeito cambial, esse fundo é um dos produtos de prateleira do BNP que deve seguir crescendo este ano, acredita o gestor. Segundo ele, o fundo atende uma demanda das fundações que buscam um fundo de ações globais, incluindo mercados desenvolvidos e emergentes, com uma cesta de moedas sem hedge.
Mas há entidades que ainda preferem ter uma opção de proteção cambial, principalmente aquelas que estão dando o primeiro passo na área internacional e preferem não ter que explicar o risco do câmbio aos conselheiros e participantes. “Montamos uma carteira mais diversificada, num multimercado, e optamos por fazer hedge cambial para ter um espectro menor de risco”, observa Mosca. Além desses, há também um fundo de fundos off shore que engloba mais de dez gestores e faz hedge cambial.
Fora dos fundos de prateleira, a BNP Paribas participa de oito processos de seleção para oferecer fundos exclusivos. “É interessante notar que, na modelagem customizada, os investidores começam a pedir estratégias bem específicas, como por exemplo um fundo só de renda fixa global”. A casa não tem hoje no Brasil um fundo nesses moldes e está avaliando desde janeiro como trazer esse produto por meio de suas plataformas de distribuição. Um bom fundo de crédito corporativo de emergentes, por exemplo, pode superar a inflação mais 4% para os investidores brasileiros. A estrutura taylor made, mais complexa, é viável a partir de um volume mínimo de R$ 50 milhões de alocação, explica o gestor, o que deixa a opção no tamanho adequado para entidades de porte médio para cima.

Apesar de um certo arrefecimento na demanda dos institucionais por fundos internacionais entre os meses de maio e julho, o ano de 2020 foi positivo e inclusive aumentou o número de processos de seleção em andamento a partir de agosto. Tanto mandatos single como exclusivos ganharam muita tração no ano passado e devem continuar em alta neste, informa o country head da Schroders, Daniel Celano. Duas estratégias em particular já ganharam tração: o fundo long and short de tecnologia, lançado em abril e que já conta com alocação de quatro EFPC, via alocadores, além de duas ou três outras fundações em processo final de alocação. A carteira, que soma R$ 120 milhões de patrimônio, pretende bater em R$ 200 milhões até abril, quando completará um ano. “A Covid estressou os mercados e esse fundo andou bem, é hedgeado em dólar e gerou alfa nas posições short, com retorno de CDI mais 9% e volatilidade alta, de 10%. Embora essa volatilidade esteja acima daquela dos multimercados locais, que fica na média de 7%, o nosso fundo tem correlação negativa com a bolsa e com os fundos semelhantes daqui”, explica Celano.
As fundações, acredita o gestor, já começaram a compreender os dois atributos do investimento no exterior que vão além da performance em si, que são a descorrelação e a capacidade de geração de alfa. A outra estratégia global que tem avançado junto aos fundos de pensão é a que incorpora o tema ESG e o fundo da Schroders, que aposta na sustentabilidade, está perto de R$ 80 milhões de patrimônio, com projeção de chegar rapidamente a R$ 100 milhões. A estratégia compra cotas de um fundo de fora que tem patrimônio de U$ 1 bilhão.
Em janeiro, a casa lançou seu terceiro fundo exclusivo de exterior e já há outras duas fundações sinalizando interesse nessa estratégia, diz Celano. Esses três mandatos, que somam cerca de R$ 730 milhões, devem ser acrescidos de outros, já em fase de discussão de regulamentos ou em etapa final do processo de seleção. Ao todo, os mandatos exclusivos de Investment Solution da Schroders devem atingir R$ 1 bilhão ainda no primeiro trimestre deste ano e seguir crescendo. “Essa massa crítica permite trazer cada vez mais soluções taylor made para o Brasil e vamos começar a trabalhar na transferência de tecnologia com o time de experts lá fora que vai discutir o assunto em uma série de eventos”. Ele lembra que o time global da gestora já trabalha com a equipe local desde 2018 e começa a entender a demanda dos investidores brasileiros, o que melhora os aspectos quantitativos da gestão.

Com cinco fundos off shore na prateleira e planos para oferecer também estruturas combinadas de exterior e ativos locais, a Santander Asset Management está particularmente otimista com a alocação em equities globais este ano. Dois fatores fundamentam uma visão positiva para as companhias, sublinha o head de Soluções de Investimentos da asset, Renato Santaniello: a perspectiva da aplicação da vacina como alavanca para a recuperação e a expectativa de que os setores desfavorecidos pela pandemia/isolamento social comecem a recuperar espaço sem que haja perda de performance nos setores que haviam crescido nesse período.
“Estamos mais otimistas com o cenário para equities porque os estímulos monetários e fiscais devem sustentar um nível elevado de liquidez e as vacinas tendem a ajudar a acelerar a retomada. A perspectiva é de que a política monetária continue frouxa e os juros baixos no mundo, o que indica que o mercado de ações será o de maior crescimento este ano” analisa o gestor. Na Santander, o carro-chefe de exterior de 2020 para cá tem sido a estratégia de global equities, gestão ativa com benchmark MSCI World, sem hedge, num fundo de fundos com processo de seleção junto à Santander Europa. Com retorno de 61% nominais e patrimônio de R$ 1 bilhão, essa carteira superou o benchmark em 14 pontos percentuais no ano passado, dos quais 30% devem-se ao efeito cambial e 70% à sua gestão ativa e à valorização das ações globais. Ao todo, as estratégias off shore da casa tiveram captação líquida de R$ 1,1 bilhão no ano passado.
O mercado de crédito no exterior aparece como uma classe complementar. A alocação em gestão ativa de fundos de crédito corporativo de países latinoamericanos, feita via feeder local, é uma alternativa que “pegou” no Brasil, diz Santaniello. “Captamos R$ 100 milhões no ano passado e, embora esse fundo já exista há dois anos, agora passou a ser oferecido também aos institucionais”. Há ainda um conjunto de estratégias com hedge cambial, seja em bonds latino-americanos ou equities globais com foco específico, incluindo um fundo ESG em parceria com outras assets. Avançam também estudos para criar soluções que atendam à demanda interna por diversificação num mix de alocação off shore e local. “Esta última é uma combinação que atende o varejo, o private e os fundos de previdência, mas avaliamos se será possível oferecer também às fundações”, explica Santaniello.

A busca por diversificação, melhor retorno e mais alocação internacional impulsionaram captações da Pimco junto aos clientes institucionais no ano passado. Segundo o vice-presidente executivo da gestora no Brasil, Luis Otavio Oliveira, a casa teve captação líquida de R$ 490 milhões em 2020 nos fundos distribuídos no Brasil, fechando o ano com R$ 3,6 bilhões sob gestão. Entre as estratégias demandadas estão um multimercado IE que busca complementar a parcela de crédito e renda fixa local, numa carteira diversificada, com yields mais atrativos.
O retorno do fundo foi de 7,45% em 2020, enquanto a mesma estratégia com exposição ao dólar garantiu rentabilidade de 36.41%. Segundo Oliveira, o câmbio pode ser uma alternativa de proteção para ativos brasileiros de maior risco, como a bolsa, já que a exposição ao dólar ajuda na diversificação. “Vemos cada vez mais clientes considerando estratégias internacionais com exposição ao dólar, dada a correlação negativa entre o dólar e a bolsa brasileira”, aponta o gestor.
Na perspectiva dos investimentos em renda fixa global para 2021, a Pimco prefere os títulos do governo americano e de alguns países emergentes selecionados, assim como o crédito securitizado e alguns créditos corporativos de alta qualidade selecionados. “De maneira geral, gostamos de alguns ativos reais, como os títulos indexados à inflação nos EUA e o ouro. Olhando para as bolsas globais, gostamos de bolsa nos EUA, Japão e mercados emergentes”, detalha Oliveira.
Sua expectativa é de que haja depreciação do dólar contra outras moedas globais, e encontra-se “cautelosamente otimista” com a economia global em 2021, mas o foco dos investimentos da casa é na preservação de capital e na gestão de liquidez dos portfolios. “De maneira geral, gostamos da bolsa dos Estados Unidos, especialmente dos setores de materiais básicos, semicondutores e tecnologia. E temos uma perspectiva positiva para Ásia e mercados emergentes”, afirma Oliveira.

Também o BNP Paribas aposta forte no crescimento da economia asiática, seguidas de perto pela visão relativamente otimista em relação aos EUA e a alguns emergentes. A equipe global da BNP Paribas, sediada em Paris, está sobrealocada em Ásia, principalmente por causa da rápida recuperação econômica da região, e em segundo lugar nos EUA, com expectativa positiva em relação ao governo Biden e seu novo modelo de enfrentamento da pandemia. “Mas quando falamos de Europa e dos emergentes, excetuando os asiáticos, a nossa posição muda para neutra”, explica Mosca.
Também Santander começou a reduzir posições em EUA para aumentar Ásia já no final do ano passado, de olho na expansão da economia chinesa e dos negócios com commodities, informa Santaniello. “Estamos over em Ásia e under em EUA, com posições neutras em Europa. Os estímulos fiscais e monetários nos EUA tentem a desvalorizar o dólar e isso também deve favorecer as commodities, reforçando a importância da recuperação na China”.
Ele indica que no setor de serviços a retomada das atividades tem sido rápida e há um aquecimento que deve favorecer os ativos asiáticos. Setorialmente, os portfolios da Santander estão over no setor de tecnologia global, inclusive com exposição tática adicional àquela dos índices de bolsa.

Com R$ 8 bilhões sob gestão no Brasil, a Franklin Templeton lançou duas estratégias novas de exterior em 2020, centradas em ativos cujo desempenho está ligado à tecnologia e à inovação. Uma delas aposta em ações diferenciadas, com exposição forte nos EUA, em empresas que tenham a inovação como condição essencial de seus modelos de negócios. Entre os setores destacados estão health care, robótica e inteligência artificial e todo o ecossistema do e-commerce e e-payments. “São setores que estão na vanguarda da inovação”, afirma o vice-presidente para institucionais da casa, Luís Fernando Pedrinha.
A outra novidade foi o lançamento, em julho passado, do fundo multimercado Franklin Wellington voltado exclusivamente a ativos do setor de tecnologia, com estratégia long and short. Lançado originalmente para os investidores de private, desde janeiro deste ano ele passou também a ser elegível para as EFPC. Sua carteira tem exposição a um total de 120 a 140 empresas. Segundo Pedrinha, a casa está finalizando uma estratégia para customizar a alocação global para EFPC.

Embora alguns gestores apostem na Ásia como principal motor da economia global, a Dahlia Capital continua colocando suas fichas nos EUA. Para a sócia fundadora da casa, Sara Delfim, os EUA seguem sendo o principal farol de investimentos globais. ”Quando decidimos “exportar” parte do nosso patrimônio, seja em alocação na bolsa, ativos reais e outras possibilidades, sempre tivemos o olhar voltado para os EUA”, diz Sara.
O fundo Dahlia Global Allocation, um FIC multimercado, investe 80% de seus ativos no exterior, majoritariamente nos EUA, e destina 20% para alocação em reais, seja bolsa ou renda fixa no Brasil. Dos ativos no exterior, 60% é bolsa (dos quais 90% são de empresas americanas), cerca de 20% são metais (como ouro e cobre) e 15% a 20% são renda fixa. “Os EUA devem crescer bem neste ano, as empresas estão fortes e pagando bons dividendos e fazendo buyback de suas ações”, lembra a sócia.
Com R$ 10 bilhões sob gestão, a casa lançou em novembro passado uma segunda versão de seu fundo global, uma estratégia de previdência para ajustar o tamanho de sua exposição no exterior e oferecer ao público em geral. Entre as duas versões, são R$ 450 milhões de patrimônio. Na carteira original, o rendimento acumulado foi de 33% em 2020.