Mainnav

Superando o preconceito
Fundações de previdência de patrocínio privado começam a abrir espaço para entrada de fundos de venture capital no sistema

Edição 335

O desafio de alcançar retornos que superem metas atuariais em um cenário de juros baixos vem levando algumas entidades fechadas de previdência complementar (EFPCs) a deixar de lado o preconceito contra startups e empresas nascentes, com pouco histórico operacional e às vezes escassa contabilidade, e partir para investimentos em fundos de venture capital ancorados nessas iniciativas. “Os investimentos em venture capital, que têm prazos de maturação mais longos, respondem por cerca de 5% das aplicações de nove dos dez maiores sistemas fechados de previdência complementar do planeta. A única exceção à regra nesse grupo é o Brasil, onde menos de 2% dos recursos das entidades estão alocados em opções menos convencionais de longo prazo – como private equity e títulos ilíquidos –, ante uma média de 25% nos outros nove países”, comenta Francisca Brasileiro, sócia responsável pela área de gestão estratégica de recursos institucionais da TAG Investimentos. “A queda dos juros no plano doméstico para a casa de um dígito, contudo, tende a provocar o alongamento de prazos e a diversificação dos portfólios das fundações.”
A TAG vem tocando a quatro mãos, junto com a gestora Domo Invest, o Fundo de Investimentos em Participações (FIP) Ventures 2, aderente à Resolução 4.661 do Conselho Monetário Nacional (CMN). “Compramos cotas do Ventures 2 e alocamos em fundos de fundos de três das 11 EFPCs que atendemos. Nas próximas semanas, o FOF multiestratégia de uma quarta entidade também passará a contar com cotas do Ventures 2”, observa Francisca.
Antes voltada a pessoas físicas e family offices, a Domo tem ampliado seus horizontes de atuação. Em setembro de 2019, meses após ter iniciado a parceria com a TAG, a gestora realizou um evento que contou com a participação de cerca de 200 investidores institucionais. “Esse trabalho começou a apresentar resultados recentemente, com o lançamento do Ventures 2. O fundo conta, entre seus investidores, com três fundações de previdência – Previ Novartis, RochePrev e Syngenta Previ – e duas seguradoras”, conta Gabriel Sidi, sócio-fundador da Domo.
Criada em 2016, a gestora detém participações em cerca de 40 startups e responde pela gestão de R$ 460 milhões, dos quais R$ 105 milhões correspondem à captação do Ventures 2, realizada entre setembro e janeiro últimos. Ainda não iniciados, os aportes do novo fundo seguirão as mesmas regras dos demais produtos da casa, que incluem desembolsos por 60 meses em projetos com ciclos de investimentos médios de dez anos. “A ideia é investir em cerca de 20 startups com modelos de negócios inovadores e não em negócios que estejam desenvolvendo tecnologias de ponta”, diz Sidi, que detecta um maior interesse por essa classe de ativos entre EFPCs ligadas a multinacionais. “É um reflexo das estratégias das entidades mantidas por esses patrocinadores no exterior, que abrem espaço, já há um bom tempo, para o venture capital.”
RochePrev e Previ Novartis fizeram suas estreias no segmento em meio a amplos programas de diversificação. Com patrimônio de R$ 304 milhões, a primeira reduziu a participação da renda fixa em seu portfólio nos últimos quatro anos em 14 pontos percentuais, para 69,31%, e segue em busca de novas opções. Depois de realizar as primeiras aplicações em fundos imobiliários em 2020, a entidade passou a contar, no início do ano, com cotas do Ventures 2. “Começamos a avaliar alocações em venture capital, em conjunto com a TAG, há dois anos. Quando a Domo lançou seu novo fundo resolvemos participar”, diz diretor de investimentos Rodrigo Daier Anderson. “A locação inicial não foi expressiva, mas poderemos realizar novos aportes, dependendo, claro, dos resultados.”
A Previ Novartis segue a mesma trilha da diversificação. Com ativos totais de R$ 1,22 bilhão, a entidade reduziu a renda fixa em 13 pp, para 78,07%, e aumentou a renda variável em 10,5 pontos percentuais, para 15,33%. E além de participar do Ventures 2, a fundação também passou a alocar num fundo exclusivo de crédito privado com gestão da Augme Capitall e prepara aportes em fundos imobiliários ainda neste primeiro semestre.

Com juros baixos, não dá mais para colocar todos os ovos em uma mesma cesta. O sistema precisa aproveitar as novas e boas opções que estão surgindo, como o venture capital”, diz Renata Desiderio, diretora-presidente da Previ Novartis. “Iniciamos no Venture 2 com um montante reduzido, semelhante aos volumes que aplicamos em fundos no exterior, mas o venture capital tende, a médio prazo, a ganhar volume na carteira.”
As duas entidades patrocinadas por laboratórios farmacêuticos seguem, assim, os passos da E-invest, que detém cotas de 17 FIPs. As aplicações começaram em 2011 e representam hoje 5,66% e 4,34% dos dois maiores planos da casa, o Básico e o Suplementar, com patrimônios de R$ 1,21 bilhão e R$ 331,18 milhões, rspectivamente. A aposta começou com os FIPs florestais e ganhou diversidade ao longo dos anos com alocações em fundos multiestratégia, fundos de infraestrutura, imobiliários, agrícolas, de energias renováveis e tecnologias.
“Há três anos, abrimos espaço nessa carteira de estruturados para um fundo de venture capital ancorado em empresas de tecnologia da informação, principal ramo de atividade de nossos patrocinadores, o Invest Tech VC”, assinala o diretor-superintendente Rogério Tatulli. “Assumimos o compromisso de alocar R$ 5 milhões, dos quais já desembolsamos cerca de 25%.”
Em razão da crise gerada pela pandemia da Covid-19, os FIPs não garantiram bons resultados à E-invest em 2020. A rentabilidade foi de 0,57% e 2,88% para os planos Suplementar e Básico, na contramão do Invest Tech, que proporcionou ganhos de 9,38% para ambos. Por conta disso, a entidade se dedica no momento à avaliação dos desempenhos dos gestores na área e já decidiu elevar as aplicações em venture capital.
“Estamos conversando com gestores especializados em fundos de startups do agronegócio, as agritechs. As alocações em dois ou até três fundos do gênero deverão ter início no segundo semestre”, diz Tatulli. “Nossos investimentos em venture capital tendem a crescer de forma contínua nos próximos anos. É uma opção que apresenta mais riscos, mas temos o dever de explorar esse segmento que apresenta potencial de crescimento robusto.”

A Basf Previdência é outra que analisa investimentos em fundos de startups. Assim como a E-invest, a entidade realizou suas primeiras incursões em FIPs florestais em 2016. Há dois anos, a carteira foi reforçada com produtos de private equity e correspondeu às expectativas, apurando retornos de 16,97% em 2019 e 27,22% em 2020. “Buscamos referências sobre private equity com os colegas do fundo de pensão da matriz de nossa patrocinadora, na Alemanha, com os quais mantemos contatos regulares. Alguns anos antes, fomos nós que os orientamos sobre aplicações em fundos florestais, que eram uma completa novidade para eles”, diz o diretor de investimentos Antônio José D’Aguiar.
Com R$ 1,5 bilhão de patrimônio, a Basf Previdência prepara-se para pequenos aportes na carteira de private equity, que já representa 1,95% dos ativos totais. “Venture capital também está em nosso radar, mas preferimos estratégias híbridas: private equity convencional com participações em empresas nascentes. Estamos atentos, por sinal, aos preparativos de lançamento de um fundo com esse desenho por uma grande asset”, diz D’Aguiar.
Atentas à demanda das EFPCs por venture capital, gestores especializados ajustam os produtos das prateleiras. A Inves Tech, com quatro fundações de previdência como cotistas de seus fundos (duas nacionais e duas estrangeiras), prepara o lançamento, até junho, de um novo fundo com viés digital.
Já a KPTL, surgida com a fusão, em dezembro de 2019, da paulista A5 Capital e da mineira Inseed Investimentos, vem registrando consultas de fundos de pensão em proporções acima da média dos últimos anos em relação a três novos fundos lastreados em participações em startups dos ramos de saúde, agronegócio e do chamado govtech. “Já temos contatos avançados com seis entidades, uma delas de grande porte. Programamos uma série de eventos de apresentação com organizações do sistema, como a Abrapp”, diz o CEO Renato Ramalho. “Com juros negativos, o que antes era só conversa de botequim se tornou muito coisa séria.”