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Gestoras reservam lugar na fila dos IPOs
Com apetite por papéis de novas empresas, investidores absorvem bem os IPOs de gestoras locais nas bolsas do Brasil e Estados Unidos e aguardam definições sobre planos das assets da Caixa e Banco do Brasil

Edição 339

Há dois anos, quando o presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), Pedro Duarte Guimarães, foi dar uma palestra na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, mencionou sua intenção em abrir o capital da gestora de recursos do banco. Na plateia, a novidade foi um verdadeiro insight para um dos alunos de mestrado da instituição que viu ali o tema para sua dissertação – “Por que as gestoras de fundos de investimento não abrem o capital?: Um estudo de caso da indústria de fundos no Brasil”. O então acadêmico Luiz Gustavo Alves Pelli partiu para entrevistas com as principais casas do mercado. Identificou um emaranhado de fatores que afastavam o interesse das assets em fazer uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). “Não há, até o momento, desde a sua criação, nenhuma gestora de ativos de fundos líquidos listada (na B3), o que causa perplexidade em virtude da contribuição potencial que uma abertura de capital poderia oferecer”, escreveu, na época, Pelli.
Dois anos depois, o cenário parece estar mudando. A Captalys Asset, focada em crédito privado, prepara sua estreia na B3, neste segundo semestre, estimada entre R$ 750 milhões e R$ 1 bilhão. Pátria Investimentos e Vinci Partners listaram suas ações na Nasdaq no início de 2021, levantando, respectivamente, US$ 625 milhões e US$ 250 milhões. A Caixa Asset anunciou que está toda estruturada para o IPO em 2022, apenas aguardando o aval do Banco Central. A maior asset no país, a BB DTVM, com R$ 1,3 trilhão de ativos sob gestão, também sinalizou que deve abrir seu capital.
“O IPO de assets está sendo cada vez mais discutido. Achamos que faz total sentido. Isso já aconteceu e acontece, recorrentemente, em outros países. Mas estamos, assim como o mercado de capitais de forma geral no Brasil, atrasados”, diz Vítor Saraiva, head de Equity Capital Markets da XP Inc.
Nos Estados Unidos e na Europa, os papéis de gestoras são negociados em bolsa há um bom tempo. A gigante nova-iorquina BlackRock abriu seu capital em 1999, sendo seguida, posteriormente, por outras assets. “Quem sai na frente vira um ícone de referência para o resto do mercado, pois vai ter trilhado o caminho das pedras. É desafiador”, comenta Saraiva.
Mas não basta sair na frente, tem que ter uma boa história para contar, como diz Guilherme Valle, sócio da PwC, uma das maiores empresas de consultoria e auditoria do mundo, que publica, anualmente, o Global IPO Watch. Para ele, o movimento de abertura de capital por parte das gestoras brasileiras ainda é “incipiente”, mas há “potencial para acontecer”.
“É preciso ter um leque de diversidade para ser atrativo. Se alguém tiver só renda fixa ou renda variável, por exemplo, a atratividade fica um pouco mais restrita. Tem que ter um case histórico de diversidade e de sucesso para mostrar a razão da necessidade desse capital e onde vai investir”, ressalta Valle.
Saraiva, da XP, adiciona que, ao observar as listagens de assets nos Estados Unidos e na Europa, é possível notar que tendem a negociar melhor aquelas que têm mais produtos. É exatamente à procura dessa diversificação e também de uma estrutura mais robusta que as gestoras no Brasil surfam uma onda de aquisições. O atual momento é de uma verdadeira ebulição. A indústria de R$ 6,4 trilhões, conforme dados da Anbima, conta com cerca de 750 casas, sendo que 450 delas operam com menos de R$ 1 bilhão sob gestão. Com a chegada das plataformas digitais e a desbancarização do setor, o ritmo ficou ainda mais frenético.

Estudo do Morgan Stanley, publicado em 2020, indicava que o faturamento das plataformas de investimento deve atingir R$ 160 bilhões até 2025, mais do que o dobro registrado em 2019. Pelos cálculos do banco, R$ 91 bilhões em recursos devem migrar dos bancos para as plataformas nos próximos cinco anos. Para abocanhar um pedaço desse mercado, XP e BTG Pactual, dois dos principais players, travam uma verdadeira batalha para agregar mais agentes autônomos e gestoras. Falar em abertura de capital dessas assets, no entanto, ainda é tabu. Há quem prefira a discrição, nesse momento, para não assustar os investidores. Falar em listagem na bolsa só lá na frente.
“Já temos assets no Brasil com tamanho suficiente para abrir capital. Não apenas assets do modelo tradicional, mas escritórios de agentes autônomos também”, diz Thalles Franco, sócio e gestor de carteiras da RPS Capital. Mas existem alguns pré-requisitos para isso acontecer, ele acrescenta. Em primeiro lugar, a indústria precisa continuar crescendo, o que depende da estabilização dos juros no Brasil. “Se voltarmos a um nível de juros acima dos 10%, acho que esse movimento cessa. Mas acredito que, se ficarmos em torno de 7% a 8% na Selic, esse movimento de financial deepening continua, talvez apenas desacelere do ritmo dos últimos anos”, prevê Franco.
O gestor lembra que, durante muito tempo, vivemos com juros altos no país. “Não existia incentivo para boa parte dos investidores, principalmente pessoa física, varejo, procurarem outras alternativas de investimento. A renda fixa sempre imperou, porém, de dois a três anos para cá, isso mudou drasticamente. O fato dos juros caírem incentivou os investidores a buscar outras alternativas de investimento que oferecessem um retorno um pouco melhor na sua carteira. Casou, no mesmo momento, em que essas plataformas ‘disruptaram’ o canal de distribuição”, afirma.
Alguns gestores apontam, ainda, que o mercado vem enfrentando margens de lucro mais comprimidas ante uma nova realidade em que não cabem mais a cobrança de taxas elevadas em produtos de renda fixa e de baixa complexidade de gestão.
Soma-se a esse cenário o recorde de IPOs nesse ano, com o maior número de empresas brasileiras fazendo sua estreia na B3 desde 2007 – claro que ainda longe do patamar de um mercado maduro como o norte-americano. Se aqui temos menos de 500, lá são mais de 5 mil companhias com ações negociadas em bolsa.

Diferentemente de outras indústrias, como de saúde ou varejo, em que o aporte de capital pode ser utilizado para investimento em tecnologia ou aquisição de novas lojas, as gestoras de ativos de fundos líquidos não têm a “necessidade” da listagem em bolsa. Por não serem empresas de capital intensivo, é um setor “menos trivial”, como descreve Saraiva. “A principal vantagem seria a fonte de um capital permanente. É o principal benefício. Pode ser também liquidez para eventuais acionistas atuais. As assets, com o IPO, ainda conseguiriam usar suas ações como moeda de troca para M&As (fusões e aquisições)”, exemplifica.
Para Franco, da RPS Capital, a listagem de ações de assets em bolsa faz sentido por três razões. “É uma oportunidade para os sócios monetizarem a parcela da sociedade deles. Em relação ao business em si, eles podem captar dinheiro primário com o objetivo de fazer o seed para produtos novos. Também é possível fazer investimentos na própria empresa, investindo em tecnologia ou em equipe. No mercado financeiro a mão de obra é relativamente cara, então é importante a empresa estar bem capitalizada”, diz.
Mas como será a demanda na outra ponta? Afinal, temos um perfil de investidor no Brasil que é receoso em relação ao mercado de ações, embora isso esteja mudando. Ainda mais se tratando de um setor relativamente desconhecido. “No exterior há liquidez, porque as pessoas conhecem mais esse tipo de atividade das assets. Dá mais liquidez ao papel”, afirma Valle, da PwC. Na Nasdaq, Vinci que foi listada em janeiro a US$ 18 por ação, fechava a US$ 14,45 em 27 de agosto. Patria, cuja estreia havia sido a US$ 16,89 também em janeiro, encerrava o mesmo dia a US$ 16,25. “Está muito cedo para falar, porque as operações são muito recentes. Mas acho que esse histórico, mesmo lá fora, pode ajudar a ter novas operações pela frente” observa Valle.
Por aqui, os primeiros serão testados pois não há referências comparativas relevantes. Serão essas gestoras desbravadoras que abrirão o caminho para quem desejar seguir seus passos.