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Investidor inclina-se para a renda fixa
Elevação da taxa de juros está levando a resgates de fundos de mais risco, como ações e multimercados, para aplicação em renda fixa

Edição 340

O boletim publicado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) na primeira semana de outubro mostrou que o mercado começou a movimentar-se na direção dos fundos de renda fixa em detrimento de outras classes de ativos. Enquanto os fundos de renda fixa tiveram captação líquida de R$ 34,87 milhões em setembro, os fundos de ações e multimercados perderam R$ 3,01 milhões e R$ 13,40 milhões no mês, respectivamente. É a primeira vez no ano que essa combinação acontece, com a captação de fundos de ações e multimercados caindo e renda fixa subindo, indicando que o investidor, incentivado pelas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) de subir os juros básicos da economia de 2% ao ano em março para 6,25% na última reunião de setembro, está deslocando-se do risco para o conservadorismo.
Na BB DTVM, enquanto os fundos de renda fixa captaram R$ 142 bilhões no acumulado do ano até agosto, uma alta de 31% em relação ao mesmo período de 2020, os multimercados receberam apenas R$ 5,9 bilhões e os fundos de ações registraram resgates de R$ 35,6 bilhões. Flávio Mattos, head de gestão de fundos de renda fixa e cambiais da asset, acredita que esse movimento deve se intensificar nos próximos meses, com novos fluxos vindo para a renda fixa em busca de um rendimento real e atraente.
Até porque o Banco Central, que comanda o Copom, ainda não colocou a Selic num patamar capaz de conter a alta da inflação, que é o objetivo da elevação dos juros iniciada em março. “Não temos uma previsibilidade de quanto será a taxa de juros final, isto é, o processo final de aperto monetário por parte do Banco Central. Acho que estamos em três quartos do fio, ainda falta um quarto de todo o processo”, ressalta Mattos. “Temos três reuniões do Copom com a projeção de três atuações de alta”.
Segundo o executivo da BB DTVM, “quando você analisa todo o histórico de altas e quedas da taxa de juros, o melhor momento para você entrar no pré-fixado é quando o Banco Central está terminando de fazer o ajuste. Você tem um cenário em que, dali para frente, é manutenção e queda. Acredito que isso ocorra mais para o final do ano, talvez em dezembro ou até janeiro”, prevê.

No caso da Bram, a asset do Bradesco, a captação em renda fixa no acumulado do ano até setembro foi de R$ 16,6 bilhões, elevando seu patrimônio líquido em renda fixa para R$ 254,7 bilhões, uma alta de 7,22% em relação ao mesmo período do ano passado. Nesse tempo, as saídas de ações e multimercados na gestora somaram aproximadamente R$ 4 bilhões.
“A guinada para a renda fixa ficou clara no segundo semestre de 2021”, conta Luiz Philipe Biolchini, diretor da Bram. “Os analistas têm projeções de taxa de juros chegando perto de 10%, que é um cenário bem diferente do que a gente tinha no início do ano. Isso, claramente, já se materializou numa captação mais elevada para renda fixa, tanto de dinheiro novo como de realocação. O retorno nominal para os investidores começou a ficar bem mais interessante, tanto nos fundos pós-fixados que investem em títulos públicos quanto naqueles que investem em títulos privados, sejam títulos financeiros ou corporativos”, diz Biolchini.

Também na asset do Itaú a tendência de alta da renda fixa tem sido notada. “Há cerca de um ou dois meses temos observado um crescimento em algumas classes de renda fixa. Não é um crescimento linear, entre todas as possibilidades que essa classe de renda fixa traz. O cliente está vendo de um lado o CDI subindo e, de outro, esses fundos performando acima do CDI, então tem um movimento forte de recursos entrando em fundos de crédito”, afirma o superintendente de Produto de Investimento do Itaú Unibanco, Rogério Januário Calabria.
Segundo o executivo, “é um movimento claro que a gente não observava desde o início do ano, que se exponencializou. O cliente tem procurado diversos instrumentos que lhe garantam um retorno acima da inflação, que está assustando”. No acumulado do ano até setembro, a captação líquida em renda fixa no Itaú já somava R$ 28,16 bilhões, com mais de 50% dos títulos bancários negociados na corretora indexados ao IPCA. Segundo Calabria, nas últimas semanas a asset acrescentou três novos produtos de crédito privado ao seu portfólio.
Ainda de acordo com ele, o grande risco desse direcionamento das alocações para a renda fixa é o processo de alta da taxa dos juros não vir acompanhada de uma redução da inflação nem de aumento do PIB. “Combinar essas tendências traz diversos desafios para os investidores, motivo pelo qual vemos a necessidade de ter uma carteira realmente diversificada”, destaca Calabria.