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Engajamento ainda é baixo
Segundo a gerente de finanças sustentáveis da Sitawi, Tatiana Assali, ainda é pequena a adesão dos investidores brasileiros às teses de carbono net zero

Edição 341

Apesar da grande repercussão global que os temas debatidos durante duas semanas por representantes de 197 países na 26ª Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas – COP 26, evento realizado entre os dias 1º e 13 de novembro na cidade portuária de Glasgow, na Escócia, o envolvimento do mundo financeiro brasileiro ficou um tom abaixo do esperado. “Temos visto muita atitude por parte dos investidores globais, mas pouco engajamento por parte dos investidores locais em relação às mudanças climáticas”, afirmou a gerente de programas em finanças sustentáveis da Sitawi Finanças do Bem, Tatiana Assali.
Um documento preparado pela empresa, com o título de “Declaração dos Investidores em Apoio a Políticas de Transição Resiliente e de Baixo Carbono”, foi assinado por apenas 18 empresas das 35 que compõem o grupo Investidores pelo Clima – IPC, liderado pela Sitawi. Outras duas empresas que não fazem parte do IPC também assinaram a declaração, que totalizou 20 signarários. Segundo o seu diretor executivo do Sitawi, Gustavo Pimentel, os desfalques ocorreram por diferentes motivos, que vão desde uma adesão ainda recente ao IPC até a falta de tempo hábil, nas grandes empresas, para submeter os termos da declaração à aprovação de instâncias de governança superiores. Ele reconhece que o documento contém um teor político mais forte do que o habitual, cobrando diretamente das autoridades um posicionamento em relação à políticas públicas para questões climáticas e de descarbonização. A declaração defende os seguintes pontos:
• Apoio ao desenvolvimento de mercados globais e regulados de carbono, por meio do artigo 6 do Acordo de Paris;
• Fortalececimento da estrutura de fiscalização ambiental para eliminar o desmatamento ilegal e buscar redução imediata das taxas de desmatamento;
• Redesenho dos instrumentos econômicos e fiscais de forma que se estimule o investimento privado sustentável e de baixo carbono;
• Regular mecanismos domésticos de precificação de carbono em outros setores da economia, utilizando os aprendizados da implementação do RenovaBio, por exemplo;
• Comprometer-se com a implementação de metas net zero até 2050, com objetivos claros e ambiciosos e metas intermediárias, com a devida transparência para aprimoramento da comunicação com o mercado nacional e internacional;
• Desenhar e implementar um plano de recuperação pós-pandemia da COVID-19 que dê suporte à transição para uma economia de baixo carbono aliada à resiliência climática (sustainable recovery), evidenciando as oportunidades que representa para o Brasil.
Segundo Pimentel, é a primeira vez que um grupo de investidores brasileiros se posiciona, de forma clara e incisiva, sobre questões climáticas e de descarbonização. “A declaração é um pedido do investidor para que o governo crie um ambiente de negócios propício à transição para uma economia de baixo carbono”, diz. Para isso, o governo deve, entre outras coisas, criar um mercado de carbono, definir mecanismos de preços claros para esse mercado e fiscalizar de forma eficiente os desmatamentos. “É mais difícil para o investidor se descarbonizar se não tem uma economia se descarbonizando”.

Uma das empresas que assinou a declaração é a JGP, gestora criada em 1998 por André Jakurski e que se mantém até hoje como independente, focada em produtos de risco como fundos de ações, de crédito e multimercados. A gestora tem hoje cerca de quatro dezenas de pessoas envolvidas, direta ou indiretamente, com as temáticas ESG. Segundo o sócio e responsável pelas estratégias de crédito sustentável na gestora, José Pugas, “o compromisso com a sustentabilidade se tornou um pré-requisito para o acesso do Brasil ao capital internacional. Os investidores estrangeiros estão dispostos a financiar a transição do país para a economia de baixo carbono, com investimentos em infraestrutura sustentável, e hoje não temos outro caminho”.
Ainda de acordo com Pugas, “há muita desconfiança em relação ao Brasil. Em alguns países, os fundos de investimentos já estão bloqueando cadeias produtivas que não são 100% rastreadas, impactando até mesmo os maiores frigoríficos do país, que possuem baixa rastreabilidade”. Mas, na sua opinião, “o Brasil tem potencial para se tornar protagonista nesse debate por mudanças climáticas, tanto pelos seus recursos naturais quanto pela sua capacidade de recuperação ambiental e pela sua participação em importantes cadeias produtivas”.
Outra signatária da declaração é a SulAmérica Investimentos, que nos últimos anos vem colocando a temática ESG como linha de frente de sua estratégia de lançamento de produtos. Aderente ao compromisso Principles Responsable Investments (PRI) desde 2009, a gestora tem criado nos últimos anos severos filtros ESG para selecionar as empresas e ativos que entram em seus portfólios, e inclusive feito uma parceria com a consultoria especializada Resultante para ajudar nessa filtragem. Para o vice-presidente de investimentos, vida e previdência da gestora, Marcelo Mello, “os investidores estão sujeitos tanto a perdas de curto prazo decorrentes dos eventos climáticos extremos quanto a perdas de longo prazo decorrentes da transição para a economia de baixo carbono”.
Ainda de acordo com o executivo, “em um cenário de curto prazo, a precificação do carbono poderá criar mais “stranded assets” (ativos irrecuperáveis). Devemos entender como essas práticas influenciam o apetite, os riscos e o retorno dos portfólios de investimentos para apresentar as alternativas mais adequadas aos nossos clientes”.
Outra gestora que ressalta a possibilidade de perda de valor dos ativos na transição para uma economia de baixo carbono é a Rio Bravo, gestora pertencente ao grupo chinês Fosun. Segundo o gerente de investimentos da asset, Victor Tâmega, “a transição para uma economia de baixo carbono envolve a estimativa da perda do valor de alguns ativos, a partir da precificação do carbono no valuation do ativo”.
Segundo ele, o compromisso com práticas ESG ainda é muito baixo no Brasil. “Hoje, cerca de 30% dos ativos globais já se comprometem com práticas ambientais, social e de governança corporativa, mas no Brasil essa proporção ainda é muito pequena”, diz Tâmega. Ele analisa que o cenário de criação de mecanismos de neutralização de carbono ainda está um pouco confuso, mas acredita que em pouco tempo haverá instrumentos eficientes para promover esses cálculos.

A baixa adesão de investidores do IPC à declaração para políticas de baixo carbono é minimizada por Laura Giraldo, head de práticas ESG da Fama Investimentos. “Embora poucas tenham assinado a declaração de transição para uma economia de baixo carbono, a iniciativa é um passo importante para o Brasil recuperar a sua reputação do ponto de vista ambiental”, diz Giraldo. A Fama é conhecida como uma das gestoras que há mais tempo se compromete com temas ESG, assim como é uma das que mais denunciam o uso de greenwash (marketing verde) por parte de empresas e negócios.
Segundo a executiva, “o processo de transição para a economia de baixo carbono é desafiador, mas a eliminação do desmatamento e a redução das emissões de gases de efeito estufa contribuem para melhorar o país como um todo”.
Outra que assinou a declaração foi a Arien Invest. A gestora deve adotar a partir do ano que vem novas métricas para a divulgação de informações financeiras relacionadas a mudanças climáticas. “Além das nossas auditorias ambientais e sociais, passaremos a contar também com benchmarks”, diz o managing partner, Mario Cândido Neto. Segundo ele, o respeito à essas métricas é fundamental. “Já descartamos investimento em empresas excelentes por serem do setor de óleo e gás”, diz.
“Quando investimos em uma empresa, a analisamos com base em critérios de governança corporativa, social e ambiental pré-estabelecidos. Quando a empresa não está bem estruturada, a ajudamos a criar um roteiro e em seguida estabelecemos metas para monitorá-la periodicamente”, complementa Cândido.
Segundo a gerente de programas em finanças sustentáveis da Sitawi Finanças do Bem, Tatiana Assali, a consultoria vem conversando com os investidores sobre a importância do posicionamento do mercado financeiro em relação às mudanças climáticas. “A nossa rede de investidores entende que o apoio do Estado é fundamental para o combate às mudanças climáticas. As empresas não conseguirão, sozinhas, cumprir as metas de redução de emissão de gases de efeito estufa sozinhas, diz. “Políticas públicas que deem esse suporte são essenciais”.