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A volta da velha dama
Com o aumento da Selic, fundos de pensão voltam a se concentrar em oportunidades oferecidas pelos títulos públicos e privados

Edição 341

O aumento das incertezas acerca do cenário político e econômico do país ao longo do ano eleitoral de 2022 tem incentivado alguns fundos de pensão a promover uma redução no risco das suas carteiras de investimento. Isso porque, com taxas de juros reais que passaram dos 5% ao ano nas últimas semanas, por conta da subida da inflação e das discussões acerca da consistência da política fiscal do governo, as NTN-Bs passaram a oferecer uma remuneração que voltou a ser mais do que suficiente para cumprir com a meta atuarial da maior parte das fundações.
Dados da Abrapp (Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar) apontam que a taxa atuarial média dos fundos de pensão para 2021 está ao redor de 4,6% ao ano, além da inflação medida pelo IPCA ou pelo INPC.
Com a combinação de uma rentabilidade novamente atraente na renda fixa e dúvidas sobre o quadro macroeconômico e seu impacto nos lucros das empresas, o fluxo de recursos que nos últimos anos vinha saindo de juros e buscando ativos de mais risco começou a mudar. Agora a tendência é oposta, com os investidores, principalmente os institucionais, deixando ativos de risco e adotando uma postura bem mais conservadora em direção aos títulos do governo.
Exemplo dessa tendência é a decisão da Fundiágua, fundo de pensão dos funcionários da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), que voltou a comprar NTN-Bs. A fundação adquiriu entre os dias 28/10 e 05/11 um total de R$ 102,4 milhões em NTN-B pagando IPCA mais juros semestrais acima do seu atuarial.
A Fundiágua comprou R$ 6,4 milhões para o Plano I (BD) e R$ 96 milhões para o Plano II (Saldado), com uma taxa média de IPCA + 5,43% e IPCA + 5,38%, respectivamente. As duas operações ficaram acima da meta atuarial da fundação, a primeira 0,43 pp acima da meta do Plano I e a segunda 0,54 pp acima do plano II.

Na Fundação Viva de Previdência, o diretor de administração e finanças Marcello Furlanetto Gomes afirma que a entidade está na fase inicial de estruturação de um fundo exclusivo, cuja carteira será composta majoritariamente por NTN-Bs a serem carregadas até seu vencimento.
A previsão inicial é de que o novo fundo tenha entre R$ 200 milhões e R$ 500 milhões de patrimônio. “Agora é o momento para montar uma carteira de NTN-Bs. Tem muito prêmio nos títulos e quem tem liquidez está aproveitando”, diz Gomes.
Ele afirma que a volatilidade nos juros futuros causada pelo sentimento de maior aversão ao risco provocou severas distorções no mercado. Títulos com vencimentos relativamente curtos, para 2024 e 2026, estão com remuneração próxima à oferecida por papéis bem mais longos, para 2055, por exemplo.
“Os vértices mais curtos têm uma volatilidade bem menor, e é até por conta dessa distorção no mercado que avaliamos que há uma boa oportunidade de fazer a alocação na renda fixa neste momento”, afirma o diretor da Fundação Viva.
Além dos títulos públicos, com o incremento do retorno na renda fixa de forma geral, Gomes diz que as emissões de crédito privado, que oferecem algum prêmio em relação aos papéis do Tesouro, também passam a entrar no radar.

Outra fundação que deve ampliar suas alocações em crédito privado é a Postalis, dos funcionários dos Correios. “Esperamos que algumas empresas que já conseguiram mostrar recuperação depois da pandemia, com negócios resilientes e que até se adaptaram à nova realidade, devem buscar crédito no mercado no ano que vem”, diz o diretor de investimentos do Postalis, Pedro Pedrosa. Segundo ele,a fundação tem avaliado o investimento em emissões de crédito privado, com o foco em empresas já bem estabelecidas em seus respectivos nichos de atuação e em busca de recursos para financiar a expansão de seus negócios.
Com a mesma expectativa positiva em relação ao segmento, o diretor de investimentos da Funpresp, Tiago Dahdah, diz que está em curso processo para selecionar gestores que ficarão responsáveis por dois fundos exclusivos de crédito privado com cerca de R$ 150 milhões cada. “Diminuímos a destinação de recursos para segmentos mais arriscados, como na Bolsa e exterior, e no ano que vem passaremos a alocar mais na renda fixa, combinando entre títulos públicos e privados”, afirma o diretor.
De modo a capturar os prêmios polpudos ofertados pela renda fixa, Dahdah diz que o espaço do portfólio da Funpresp destinado às ações deve sair dos atuais 11% para algo em torno de 9,5% até o final do ano que vem. Já o investimento no exterior deve passar de 6% para cerca de 3,5%. “Existem fatores de incerteza para 2022, e isso implica em certo tipo de conservadorismo que temos de adotar”, diz o diretor da Funpresp.

Na Fundação Viva, além do apetite por NTN-Bs existe também a intenção de elevar a alocação em investimentos globais dos atuais 6% para o limite de 10% estipulado pela legislação, com o foco em fundos de renda variável e multimercados. O diretor da entidade multipatrocinada afirma que a descorrelação proporcionada pela alocação internacional pode contribuir para uma maior resiliência do portfólio, frente à volatilidade esperada para 2022 por conta das eleições. “Em função do cenário mais desafiador para o ano que vem, trabalhamos para deixar a política de investimento mais flexível e diversificada e buscando proteção para o portfólio”, afirma Gomes.
Mesmo quem já está com o limite de 10% para exterior completamente ocupado, como é o caso da Fundação de Previdência Complementar do Estado de Santa Catarina (SCPrev), aguarda uma mudança nas regras da Resolução 4.661 de forma a ampliar esse limite. Segundo o diretor de investimentos da SCPrev, Carlos Augusto Alperstedt Neto, a fundação está aguardando uma flexibilização na resolução que rege os investimentos dos fundos de pensão para aumentar a exposição ao mercado internacional.
“Com o ritmo de crescimento econômico e o desemprego alto, o Brasil tem perdido muito de sua competitividade perante o mercado global. Por isso, frente às perspectivas para o país, seria importante ter mais investimentos no exterior, mas infelizmente não é possível”, diz Alperstedt.
Enquanto o normativo não muda, algumas fundações já encontraram uma maneira de contornar o problema, através da alocação em BDR de ETF. É o caso da Vivest, que graças a esse instrumento contabilizado como investimento local já aloca globalmente acima dos 10% estipulados pelo normativo. Casos como esse, entretanto, são uma exceção dentro da indústria.

Apesar das perspectivas mais favoráveis ao crescimento econômico nos países desenvolvidos, o diretor da SCPrev reconhece que a inflação e a alta dos juros nessas economias tendem a gerar algum tipo de reprecificação nas Bolsas internacionais. Um eventual ajuste no exterior, contudo, irá reverberar de forma mais acentuada nos emergentes, que são os mais vulneráveis em momentos de aumento da aversão ao risco global, diz Alperstedt.
Ainda que o viés mais conservador ou internacional venha dando o tom entre as fundações nas discussões para a política de 2022, isso não significa, contudo, que elas não estejam em busca de oportunidades em classes que podem representar bons pontos de entrada nos preços atuais.
O segmento de fundos imobiliários é um deles. Com uma desvalorização de aproximadamente 9% do índice de fundos imobiliários (Ifix) da B3 em 2021, até 12 de outubro, após queda 10,2% no ano passado, o segmento tem despertado interesse crescente entre algumas entidades.
Dahdah, da Funpresp, diz que embora os ciclos de alta da taxa básica de juros sejam tipicamente períodos adversos para o retorno da categoria imobiliária, no caso dos fundos de pensão com visão de longuíssimo prazo, o cenário pode representar a oportunidade de comprar ativos de qualidade a preços bastante descontados. “É preciso adotar um viés contrário ao consenso de mercado para entrar em um momento adequado”, afirma Dahdah.
Ele acrescenta estar prevista para um pouco mais à frente a seleção de gestores de fundos imobiliários para a carteira da entidade. Segundo o dirigente, as discussões em torno da reforma tributária e a volatilidade causada nos preços dos ativos acabaram atrasando um avanço mais célere da fundação dos servidores federais no setor.
Pedrosa, do Postalis, diz também fazer parte do planejamento da fundação para os próximos meses a seleção de gestores de fundos imobiliários. A expectativa, afirma, é aportar algo entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões na categoria em 2022, privilegiando nichos que têm apresentado performance resiliente e com o qual a empresa patrocinadora tenha maior expertise, como é o caso do segmento de galpões logísticos.
O diretor da Postalis acrescenta que fundos multimercados, que têm conseguido apresentar desempenho positivo em termos relativos dentro da carteira, devem receber novos investimentos ao redor de R$ 400 milhões. Em meados de setembro, a entidade de previdência complementar dos Correios aportou cerca de R$ 200 milhões em quatro gestores de fundos multimercados – Vinci Partners, Pandhora, Safra e Gauss–, das estratégias de juros e moedas, quantitativa e long and short neutra e direcional, respectivamente.
Em relação à alocação na Bolsa brasileira, Pedrosa afirma que após investimentos em fundos de ações durante o ano de 2020 principalmente, não faz parte dos planos grandes movimentos, de aumento ou de redução dentro da classe. “Nosso investimento em renda variável é de médio e longo prazo. Sabemos que vão ter oscilações como as que estamos tendo agora, mas que este não é um momento para realizar o prejuízo”, diz o diretor do Postalis.

Gomes, da Fundação Viva, afirma que a alocação em ações está próxima do mínimo estabelecido em política, ao redor de 11% do total da carteira. Para o ano que vem, a opção foi retirar o limite mínimo previsto, de modo a dar maior flexibilidade para a gestão em uma eventual queda generalizada da Bolsa.
“O cenário de inflação elevada reduz o poder de compra da população e afeta o varejo, enquanto os juros mais altos aumentam o custo de capital das empresas e impactam os investimentos”, afirma o diretor da Fundação Viva.

NTN-Bs em alta na Real Grandeza
Para Sérgio Wilson Fontes, diretor da área de investimentos da Abrapp e presidente da Fundação Real Grandeza, as eleições que tipicamente já trazem maior volatilidade aos mercados, somadas ao ambiente de crescimento baixo e inflação elevada, devem fazer de 2022 um dos anos mais desafiadores dos últimos tempos do ponto de vista da gestão de recursos para os fundos de pensão.
Nesse sentido, a oportunidade que se apresenta na renda fixa livre de risco por meio de títulos públicos indexados à inflação não pode e nem deve ser desperdiçada pelas fundações, assinala o dirigente. Na Real Grandeza, ele diz que desde meados de agosto já foram encarteiradas cerca de R$ 500 milhões em NTN-Bs de médio e longo prazo, com juros reais por volta de 5,5% ao ano, com um novo aporte de volume parecido já no radar.
“Depois de um bom tempo esquecidas pelos fundos de pensão, as NTN-Bs voltaram a oferecer cupons maiores do que as metas atuariais e passaram a ser uma forte concorrente para a Bolsa”, afirma o dirigente.