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Gestão incorpora novos ventos
Antigamente restritos a fundos carimbados de sustentáveis, os fatores ESG começam a ser usados em muitas outras estratégias das gestoras

Edição 342

As diretrizes sustentáveis da Santander Asset tem suas raízes no fundo Ethical, um FIA sustentável criado em 2001 no antigo banco ABN Amro, um pioneiro do tema no Brasil, e remodelado em 2020. Com o tempo, o ESG passou a penetrar mais na gestão dos fundos, aponta Raquel Diniz, chefe de renda variável. O total de ativos sob gestão nos dois fundos que carregam esse carimbo na casa é de R$ 1,1 bilhão, com a maior parte dos recursos na estratégia global de ações, que tem cerca de R$ 1 bilhão, e o restante no Ethical.
Ambos são fundos específicos ESG mas o conceito já está incorporado em todos os processos de análise de ativos e, na classe de crédito privado, ele é tão importante quanto a avaliação financeira. Os fundos de investimento imobiliário também fazem parte da seleção de sustentabilidade ainda que isso não esteja em seus nomes. “Uma diferença essencial é que, quando o ESG faz parte da denominação da carteira esses critérios podem chegar ao ponto de estabelecer veto a determinados ativos, enquanto nos demais fundos isso não acontece”, explica Diniz.
“A beleza é que as coisas vão convergindo porque se há um problema de governança numa empresa de um dos portfolios ESG, não se quer ter esse ativo nos demais fundos, então a gestão como um todo acaba incorporando isso na prática porque as empresas boas no longo prazo acabam sendo sempre as melhores em ESG”, pondera.
Há uma metodologia própria da asset para medir a sustentabilidade das empresas. Cada empresa investida segue essa metodologia, com 84 indicadores. São 25 indicadores ambientais que incluem as emissões de carbono, gestão de resíduos e outros quesitos. Além disso há 34 indicadores sociais e outros 25 indicadores de governança para avaliar práticas éticas e conselhos independentes, por exemplo. A metodologia virou global ao ser adotada pelo Santander lá fora.
Nos fundos de crédito privado que consideram a metodologia ESG, há R$ 70 bilhões sendo R$ 43 bilhões em ativos de crédito e o restante roda em caixa. “O ranking nos permite saber quais são as melhores empresas e como evoluíram, para ir subindo a barra. No fundo Ethical, esse ranking funciona de forma restritiva e quem não for do primeiro ou do segundo quartil não entra na carteira.

Desde 2007, quando lançou seu primeiro fundo de sustentabilidade empresarial, uma estratégia de ações, a Bradesco Asset Management (Bram) ampliou iniciativas ESG, criou metodologia própria (em 2012) e em 2021 registra a marca de 99,5% dos ativos investidos ranqueados de acordo com esses critérios. A metodologia dá ponderações diferentes num rating de zero a cem que orienta as decisões de investimento. “Um ponto fundamental para nós é o engajamento com as companhias e abrimos o rating para mostrar a elas os seus pontos positivos e negativos. Assim não ficamos limitados aos seus reports, mesmo porque a indústria só agora está começando a relatar melhor suas iniciativas nessa área”, ressalta Rodrigo Santoro Geraldes, superintendente da Bram.
O ESG permeia tudo – renda variável local e global, crédito e Fofs. Os fundos que são focados em ESG são um pouco mais radicais, seja em renda variável ou renda fixa. Na renda variável há dois produtos específicos de ESG, um local e outro global, com uso de muitos ETFs ligados a empresas sustentáveis. No crédito também há uma parte em fundo de empresas locais e uma parte em ETFs de green bonds, além de um fundo de fundos (FoF) ESG. O fundo de ações sustentabilidade empresarial, o mais antigo, tem R$ 300 milhões atualmente.
Uma das diretrizes principais é nunca tomar decisões com base num tema único, como o valuation de uma companhia. “Porque aprendemos que o valuation barato muitas vezes é explicado pelo ESG fraco”, afirma. No Brasil, Geraldes lembra que há um histórico relevante de destruição de valor, especialmente na governança das empresas. Embora a asset não use filtros negativos, muitas companhias deixam de ser investidas. Nos portfolios focados, a nota da empresa tem que ficar acima da média da bolsa.
A metodologia utilizada parra os fundos de crédito é semelhante à da renda variável, até porque até recentemente não havia emissões focadas em ESG. “Agora, numa emissão de LF de um banco, por exemplo, vamos avaliar o seu rating ESG comparado ao dos best in class do setor”, explica. Com uma captação líquida de R$ 30 bilhões em crédito em 2021, essa exposição é muito relevante e a gestora olha cada emissão que vem a mercado. “Exercemos engajamento mesmo nas estratégias passivas, nas assembléias. Encontramos empresas bem geridas em ESG nas emissões, então é importante aplicar a metodologia porque não há ativos de crédito com selo ESG”, afirma.
A Bram tem participado da elaboração das regras da Anbima, conta. “Ainda não estão liberadas todas as medidas mas para nós não haverá ruptura, estamos bem aderentes. A idéia dessa regulação é criar selos e certificação para produtos ESG, ajudar a ter uma rotulação dos fundos”, diz. Mas é fundamental padronizar informações nas divulgações das companhias e os padrões globais precisam ser aprimorados. “Houve uma melhora de 2020 para cá no engajamento e nas respostas das empresas. Até dois anos atrás éramos ignorados mas agora entrou na agenda delas, até pelas oportunidades que o ESG representa”.
Um exemplo, aponta Geraldes, é o da Raízen, do grupo Cosan, que produz etanol de segunda geração e viu aumentar a demanda internacional por esse produto a partir da COP 26. “Isso afeta o valor da companhia e nos permite entender se eles estão preparados para a transição energética”.

Na BB DTVM, cerca de 94% a 95% dos ativos sob gestão já são avaliados pelos critérios ESG e a intenção é ampliar isso para chegar ao final de 2022 com 100% dos ativos cobertos. “Em novembro havia 22 fundos de investimentos especificamente dedicados a estratégias de sustentabilidade e, para a nossa alegria, eles vêm crescendo. Em janeiro eram R$ 3,7 bilhões em ativos vinculados a essas estratégias, número que subiu para R$ 6,5 bilhões em novembro”, comemora Daphne Breyer, analista especializada em ESG.
O carro-chefe é o fundo de ações globais ESG BDR, que saiu de R$ 700 milhões em janeiro para atingir R$ 2,3 bilhões no final de novembro. É um fundo que investe em empresas com os melhores ratings de integração nos três pilares ESG.
O fundo global BB Asset Nordea Climate and Environment também foi um dos que mais contribuíram para esse crescimento, avalia Breyer.“Começamos o ano com R$ 360 milhões e fechamos novembro perto de R$ 1,2 bilhão, quase quadruplicou o volume nesse fundo que é focado em aspectos climáticos”, observa a analista. A estratégia está disponível para investidores de plataformas digitais. Já o fundo da Nordea voltado para empresas disruptivas, recém-lançado, traz inovação alinhada aos ODS, com a preocupação de enfrentar os desafios tecnológicos da transição para uma nova economia.
“A agenda ESG chegou para ficar e o mercado de capitais identificou que há um volume considerável de recursos nas mãos de investidores dispostos a alocar nesse tipo de estratégia”, afirma Marcelo Farias, gerente de alocação, crédito, equities e macroeconomia. Ele explica que a análise usa filtros negativos e positivos, além da comparação com os best in class, por meio de ranking próprio. Nos títulos corporativos, o ranking influencia o volume de recursos que será aplicado. Na renda variável, leva o gestor a ponderar os pesos diferenciados para os ativos.
A asset está preparando a revisãode todos os quesitos ESG que compõem o seu banco de dados, informa Farias. “Devemos expandir o número atual de 20 quesitos para dar maior profundidade porque a temática precisa ter mais materialidade e disclosure sobre as práticas internas das empresas, esse é um movimento natural do mercado à medida que as empresas amadurecem e aumentam o volume de informações disponíveis”, afirma.
Apesar dos avanços obtidos de três ou quatro anos para cá, o calcanhar de Aquiles do ESG ainda é a dificuldade para conseguir informações das empresas. “Por mais que elas sejam signatárias do PRI ou tenham questionários e relatórios, ainda são muito textuais e os gestores precisam garimpar dados históricos e evidências”, conclui Farias.

O apetite pelo tema da sustentabilidade é crescente não só do ponto de vista do risco nas variáveis ESG mas também pela oportunidade de incorporar essa análise ao processo de investimentos”, acredita Renato Eid, superintendente de estratégias beta e integração ESG da Itaú Asset Management. Com isso, o diálogo entre empresas, investidores e gestores ganha cada vez maior fluidez. A asset tem 15 anos de atuação nesse tema mas considera que ainda está longe de onde quer chegar. “Nosso modelo é pragmático e traz elementos que nos ajudam a visualizar o que se passa nesse mercado; a cobertura ESG está em quase 100% das empresas investidas e procuramos analisar o que faz sentido ou não, o que é material ou não”, afirma.
A “turma de ESG” da casa, com seis pessoas (um profissional foi adicionado este ano) tem presença constante em todos os comitês de crédito da casa, com poder de veto, além de ter atuação nas mesas de renda variável. O modelo não usa notas mas uma valoração das ações sociais e ambientais, em linha com o trabalho de engajamento, o que permite traçar a evolução de várias questões e ter um processo bem estabelecido.
“As companhias passam a ser analisadas não só por seu posicionamento mas por sua durabilidade e o investidor cobra do gestor maior engajamento com as empresas para avaliar isso em profundidade”, observa. “Aquelas que não estiverem alinhadas começam a ser questionadas sobre a duração de seus negócios e a tendência regulatória em diversas geografias”, diz.
No Brasil, as novas regras de classificação de fundos trazidas pela Anbima foram motivadas pela necessidade de estruturar a indústria para ter produtos transparentes. “Mas isso não foi feito de forma prescritiva, a regulação veio para organizar a conversa”, observa. Há atualmente mais de 80 fundos que se denominam ESG no Brasil, diz Eid, mas é preciso passar por um processo educacional e as regras vêm nesse sentido.
Enquanto reguladores discutem, as assets vão multiplicando sua oferta. Na Itaú, a prateleira continua a crescer e foram lançados há seis meses dois ETFs ligados ao tema, com estratégias internacionais. Um deles busca empresas engajadas na transição para a economia verde e o outro é voltado especificamente ao novo mercado de hidrogênio, que está em forte expansão no mundo. A casa também acaba de lançar um fundo de crédito ESG com papéis de empresas que têm impacto positivo em educação, saúde e saneamento. “Mas é importante sair de uma visão de produto para a de objetivos de investimentos, o que abre espaço para várias estratégias”, diz.
No que diz respeito à questão climática, a pegada de carbono é o que mais preocupa, constata Eid, e 2021 trouxe um divisor de águas com o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), de agosto, que confirmou a influência da atividade humana no aquecimento global. “Antes disso já havia um movimento importante de países e empresas preocupados com suas pegadas de carbono, mas a Covid ampliou a consciência das questões sociais”, explica
No radar estão as mudanças climáticas ligadas ao carbono. Há dois grandes grupos, um de investimentos temáticos ligados ao carbono e suas ramificações, como as energias renováveis além da eólica e da solar, o que inclui o hidrogênio global, setor que deve receber recursos para pesquisa. Daí o lançamento de um ETF de renda variável de de hidrogênio. “O foco são empresas com tecnologias inovadoras em combustíveis e transportes, economia circular e outras que tendem a se beneficiar”, diz.
No segundo grupo é possível olhar também para as empresas superavitárias ou deficitárias em carbono. O desenho do mercado de carbono regulado e a maneira de precificar empresas em atividades muito intensivas de transição para o baixo carbono, no entanto, ainda é um dos grandes debates em andamento. “O nosso último white paper traz estudos sobre essa precificação. É essencial ter produtos para precificar empresas que atuem em atividades muito intensivas de transição de carbono”, afirma.

Foi apenas em2020 que a Quasar oficializou sua política de responsabilidade ambiental nos investimentos e tem avançado nesse processo para mapear até 2023 tudo o que há nos portfolios dos seus 18 fundos em várias classes que somam R$ 3,5 bilhões. Em todos eles é possível incorporar o ESG, não são estratégias com o escopo de impacto mas que têm essa análise em todos os seus ativos. “Essa já era uma preocupação nossa há algum tempo, até porque todos viemos de bancos estrangeiros e o conceito de sustentabilidade sempre foi algo muito próximo”, diz Bruno Bacchin, responsável pela estratégia ESG da casa. A decisão foi fruto também de demanda dos investidores.
O mapeamento permitirá compreender melhor o contexto das empresas uma vez que há fundos mais líquidos e outros mais estruturados e as carteiras incluem companhias de capital aberto e também fechadas, de middle market. “Precisaremos adaptar os nossos processos a esses dois perfis e criamos um questionário de due diligence para quem não faz ainda o report ESG, o que foi uma maneira de ajudá-las a se familiarizarem com isso”, conta Bacchin. São 70 perguntas a partir das quais foi montada uma matriz de risco e a classificação é feita pelos times de gestão das diversas famílias de fundos, seguindo o rating com várias escalas de risco.
Nas companhias abertas são utilizados os seus reports e informações obtidas em contatos diretos com as áreas de RI e visitas às empresas. O objetivo é identificar o que cada uma delas faz, o que diz que faz e o que quer fazer, verificar aspectos aceitáveis ou não de risco. Na política da asset há a previsão de utilizar filtros negativos mas isso será detalhado depois que o mapeamento estiver 100% concluído, pondera Bacchin. “Por enquanto, deixamos de entrar em ativos ligados à indústria do tabaco e termoelétricas a carvão”, conta.