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Processo de mudanças já começou
Gestores globais avaliam que o processo de adoção de estratégias ESG nos portfólios dos fundos de pensão brasileiros já começou, e é irreversível

Edição 342

As seis diferentes estratégias ESG dos BDRs de ETFs presentes na plataforma BlackRock já representavam, até novembro, 43% do patrimônio líquido total da gestora nesses produtos, que é de R$ 5,5 bilhões. “Queremos ampliar ainda mais porque percebemos que há um avanço grande para acontecer entre os fundos de pensão brasileiros daqui para a frente. À medida que os primeiros começam a incorporar o processo e outros vão se seguindo, é o início de uma mudança em que as fundações vão abraçar o ESG”, avalia Paula Salamonde, diretora da área de investidores institucionais.
As estratégias são diferenciadas do ponto de vista temático. Há BDRs de ETFs ESG para desenvolvimento de emergentes e para energias limpas, por exemplo, mas o leque deve crescer com novas opções. Além disso, a casa mantém ainda um fundo ESG para mercados desenvolvidos, que segue o MSCI World e foi criado originalmente para a Funepp, entidade de previdência complementar da Nestlé no Brasil, interessada em incorporar o ESG. É um fundo aberto, de gestão passiva, e seu patrimônio líquido já está com R$ 250 milhões. “É uma estratégia relevante para quem não quer entrar diretamente no mercado e temos conversado com pelo menos duas outras fundações interessadas mas a maior demanda por ESG tem sido mesmo por meio dos BDRs de ETFs”, explica.
Há também a opção de investir em estratégias de gestão ativa, “com ESG para todos os sabores e interesses”, diz a diretora. São bonds de renda fixa global, ativos de renda variável global e multi assets. Os fundos de renda variável e multi assets são de impacto sendo que o primeiro usa os 17 Objetivos de Desenvolvimento Social (ODS) da ONU como critério de impacto social e aloca em empresas que tenham impacto positivo sobre a energia verde.
No multi asset, o impacto exclui empresas não aderentes ao ESG, como as de armas, carvão, bebidas alcoólicas, apostas, energia nuclear, energia térmica e tabaco. A gestora desenvolveu um sistema próprio de monitoramento de dados dos portfolios e a plataforma mapeia as empresas com energia limpa. “Também nos posicionamos como acionistas para direcioná-las ao ESG.
“Os fundos de impacto olham estratégias globais porque seria mais difícil buscar apenas ativos locais. Lá fora o universo é muito grande e as estratégias podem ser bem sucedidas e gerar alfa sem fugir aos objetivos traçados”, detalha. A mitigação de risco acaba levando a montar carteiras com empresas de maior qualidade. Todas elas têm se comportado muito bem, ajudadas pelo fato de que a pandemia separou o joio do trigo nesse aspecto.
As empresas que se beneficiaram foram as mais alinhadas ao ESG”, constata. Salamonde lembra que 88% dos índices ESG em 2020 tiveram performances superiores aos demais, até 94% superiores no auge da crise da covid, no primeiro trimetre daquele ano. E isso se repete no exame de outras crises, como a de 2015/2016.
Já ficou comprovado que no longo prazo os fundos sustentáveis são mais resilientes do que os demais em tempos de crise e sofrem menor efeito da volatilidade, avalia Carlos Takahashi, o chairman da BlackRock no Brasil. Ele observa que as soluções globais de ESG já são experimentadas e estão em linha com o mercado brasileiro. “Os fundos de impacto que trazemos abrem o leque e fazem um screening global para investir em empresas com vários temas, como a inclusão financeira na Índia ou no Japão, entre outros”, observa. A casa diz estar cada vez mais engajada, globalmente, com as empresas investidas para descarbonizar portfolios, inclusive nas emissões de bonds nos fundos de renda fixa.

A Covid catalisou o ESG e a tendência é a de haver exigências cada vez maiores dos investidores nesse sentido, o que demanda bases de dados e ferramentas proprietárias compatíveis com a complexidade dessa análise e medição de resultados. Os gestores precisam dispor de ferramentas que permitam medir os impactos de cada empresa, avaliar melhor os riscos e oportunidades que elas representam, até porque as credenciais de ESG são muito altas, acredita Daniel Celano, diretor presidente da Schroders Brasil.
Com R$ 27 bilhões sob gestão no Brasil, em ativos locais e internacionais - a asset tem globalmente US$ 967,5 bilhões sob gestão - e é uma das mais ativas no engajamento ESG lá fora. Aqui, a casa mantém um fundo de ações globais que investe em empresas comprometidas com os pilares de sustentabilidade. Com patrimônio líquido local de R$ 400 milhões, o fundo tem despertado o interesse de fundos de pensão e RPPS, diz Celano. “Essa estratégia performa bem contra o benchmark em dólares e mais ainda em reais, está aqui desde agosto de 2020”, observa.
O fundo de renda variável ESG Melhores Ideias usa as mesmas ferramentas de análise, identifica tendências ESG no mundo e usa 260 data points, fazendo um score a partir da ferramenta proprietária para comparar as empresas sob vários aspectos. São 13 mil papéis cobertos por essa ferramenta, que atribui notas. “Mas há situações em que o analista de investimento, com base nesses dados, dá uma nota super boa para alguns tópicos e o time do ESG discorda dessa nota, então a avaliação funciona como um segundo nível de governança para a tomada de decisões”, diz Celano.
Não basta estar no nível triple A do MSCI, é p reciso quantificar riscos e custos dos impactos corretamente para gerar as melhores ideias de investimento sustentável. Uma das ferramentas proprietárias da asset traduz o impacto social e ambiental em custos financeiros, mede dados da empresa em todos os tópicos e ajuda o gestor a compreender os impactos porque o investidor compra resiliência para o futuro, com menor risco de cauda”, diz.

Com US$ 1,52 trilhão sob gestão no mundo, a Franklin Templeton tem sob gestão local um total de R$ 8,5 bilhões. A casa passou a seguir os níveis de informação ESG estabelecidos pelo Sustainable Finance Disclosure Regulation (SFDR), de maio deste ano, sendo a obrigação dos gestores informar em que tipo de produtos se enquadram dentro dos diferentes níveis dessa norma, para comparar objetivos ambientais, sociais e de governança, explica Luiz Felipe Assadurian VP sales executive. Ele observa que, como há muita preocupação com o greenwashing, o FSDR permite comparar melhor os objetivos dos fundos ou de ativos financeiros, como bonds, etc.
“A maior parte do que temos disponível no Brasil está no nível oito, produtos para os quais os fatores ESG são importantes mas seus objetivos não são, por exemplo, investir em empresas que vão reduzir suas emissões de gases”. A casa está lançando neste final de ano seu primeiro produto, no nível nove, o mais avançado nessa direção, um fundo de exterior distribuído no Brasil em parceria com uma grande plataforma e elegível para EFPCs e RPPS.
Há também um fundo em parceria com a Vítreo que foca em empresas que tenham pelo menos três mulheres no board, o ESG Women Leadership. E um fundo global lançado em maio do ano passado, que já captou quase R$ 200 milhões. “A demanda aqui tem sido crescente mas ainda é pequena quando comparada à dos mercados internacionais”, admite.

A escandinava Nordea Asset Management, que atua no Brasil com fundos internacionais disponíveis por meio de parcerias com a BB DTVM (desde 2015), e com a XP desde 2020, aposta no ativismo educacional, “quase uma catequização”, junto ao mercado brasileiro. A integração ESG é total em seus portfolios e a gestora é conhecida pelo trabalho de engajamento para despertar a responsabilidade das companhias investidas, lembra Roberto Martinho, chefe de desenvolvimento de negócios na América Latina. “Somos ativistas em questões de sustentabilidade”, pontua.
Com US$ 326 bilhões sob gestão em todo o mundo, a Nordea tem cerca de US$ 2 bilhões sob gestão na América Latina, sendo US$ 1,7 bilhão em feeders locais. Grande parte dos recursos está com os parceiros BB DTVM e XP, distribuídos em fundos espelho que recebem investimentos de vários clientes, incluindo fundos de pensão brasileiros. “Temos feito um esforço para atuar em todas as frentes mas o foco sempre foi o institucional, com um trabalho forte no lado educacional e oferta de cursos voltados ao tema”, observa.
Lá fora, onde as estratégias sustentáveis se multiplicam em diversidade, o fundo Nordea Global Climate and Environment, lançado em 2008, foi transformado num dos queridinhos dos gestores de todo o mundo ao oferecer uma carteira de empresas com soluções para clima e meio ambiente que tem se mostrado resiliente na avaliação dos investidores. No Brasil, sua versão foi constituída em 2018 e oferecida pela BB DTVM como opção de alocação ESG no exterior aos institucionais e captou mais de R$ 1,2 bilhão, com boa demanda dos fundos de pensão. Na carteira, apenas uma empresa brasileira aparece, a Sabesp. “A Sabesp é considerada uma das maiores empresas de saneamento básico do mundo, e contribui ativamente para melhoria do clima e meio ambiente com o avanço na rede de esgoto tratado e na gestão de água”, afirma.
O fundo cresceu tanto que passou por um soft close, para preservar a qualidade de gestão. “Ele fechou para novos clientes institucionais porque atingiu sua capacity mas em compensação trouxemos ao Brasil uma nova estratégia de exterior, em setembro deste ano, a Global Disruption ESG. Esse fundo investe em ações temáticas, de empresas com liderança em inovação e são responsáveis por desenvolver tecnologias que trazem melhorias em várias vertentes do ESG”, informa. Ele espelha fundo da Nordea lançado em 2019 e que tem o MSCI All Country World Index como benchmark e busca empresas que estejam alinhadas com os ODS da ONU.
As duas estratégias são geridas pela mesma equipe da boutique de investimentos sediada em Copenhagen, que também faz a gestão da estratégia Global Stars, oferecida no Brasil por meio da XP. “Tudo o que oferecemos em renda variável tem ESG, inclusive com o apoio do curso que montamos para a XP ministrar, com sete módulos sobre o tema. O curso tem certificação final da Nordea e o objetivo é empoderar profissionais de investimentos com conhecimentos sobre o assunto”, diz.
Na carteira do Emerging Stars ESG há atualmente cinco empresas brasileiras, mas com percentuais de alocação ainda pequenos. São: Itaú Unibanco; BR Properties; Lojas Renner; Hapvida e Raia Drogasil. Todas recebem uma pontuação ESG interna completa para entrarem nesses fundos.