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Em busca de métricas eficientes
Entidades discutem controles mais efetivos, indo de limites ao aumento de temperatura que empresas podem causar até análises cada vez mais críticas

Edição 342

O programa de sustentabilidade dos investimentos da Vivest ganhará em 2022 uma metodologia específica para a análise de clima. “Nos filiamos agora ao CDP - Carbon Disclosure Project – e vamos introduzir essa metodologia, que segue na linha do PRI (Princípios de Investimentos Responsáveis), do qual já somos signatários desde 2011”, conta Paulo de Sá, gerente executivo de investimentos em renda variável e ativos imobiliários da fundação.
A Vivest ainda vai definir o caminho a seguir com base nessa mudança e precisará reestruturar sua carteira ESG de modo a incorporar o conceito climático. Uma das maneiras é usar o método de medição da temperatura que as empresas irão acrescentar ao ambiente de acordo com a sua operação. Nesse caso, é aceitável que a operação acrescente, no máximo, até 1,5 grau celsius.
Outra opção é eliminar empresas a partir do nível de suas emissões de carbono, dentro do conceito de descarbonização. “Vamos definir qual delas adotaremos e se vai fazer sentido, porque boa parte das companhias do Ibovespa tem problemas com isso”, pondera Sá. A entidade não aplica filtros negativos mas faz uma análise fundamentalista dos ativos e depois utiliza o rating ESG para balancear suas posições. A Vivest já conseguiu ter uma carteira com rating ESG melhor do que o do Ibovespa e do IBX.
O trabalho conta com estudos fornecidos pela consultoria Resultante abrangendo todas as empresas do Ibovespa. “É um trabalho importante e que nos permitiu, nos IPOs, ter estudos prévios de sustentabilidade e, dentro do possível, usamos essa rating para elevar ou reduzir as exposições indicadas pela análise fundamentalista”, observa.
A exclusão setorial nem sempre funciona bem, acredita Sá. Na última reunião do PRI, por exemplo, a Shell apresentou uma política forte de investimentos futuros em energia renovável, em parceria com o grupo Cosan. Isso significa que a Shell terá um rating ESG melhor e poderá ter temperatura melhor, então não é o fato de ser de um setor ruim que vai definir a exclusão das empresas. É mais importante saber o que ela vai fazer para compensar.
Dos seus fundos de investimento em renda variável no exterior, que somam R$ 1,5 bilhão ou quase 10% dos ativos totais, a Vivest mantém R$ 300 milhões aplicados na estratégia ESG BB Asset Nordea Global Climate. Há também R$ 1,1 bilhão em BDRs de ETFs, que não entram no limite de 10% e dos quais uma parte é direcionada para estratégias ESG. Do total de R$ 2,5 bilhões alocados em exterior, portanto, há R$ 830 milhões em ativos ESG.
Tanto o engajamento como a política de votos precisam ser bem incorporados pela entidade e isso demanda tempo e mão de obra para quem tem uma equipe enxuta. “Temos feito muito mas ainda é menos do que gostaríamos, esperamos poder fazer mais em 2022 e fortalecer os engajamentos coletivos”, diz.
Depois de participar de engajamento do PRI com as empresas para que elas fizessem relatórios de sustentabilidade, a entidade esteve também com as corretoras sell side. “No caso das corretoras, até hoje não conseguimos que elas incluíssem a sustentabilidade, o que é o cúmulo”, afirma.

A Previ prepara a revisão e alinhamento de sua estratégia de sustentabilidade para organizar as diversas frentes abertas e fazer uma relação entre os grandes temas. O objetivo é otimizar todo o trabalho nessa área, que inclui um plano diretor de sustentabilidade, vários comitês, documentos e colegiados, incluindo uma agenda robusta de debates e engajamentos junto ao PRI. “Há muitas frentes e a proposta é ter uma estratégia que integre todas elas”, diz Denísio Liberato, diretor de participações da fundação.
Entre as iniciativas está a revisão do código de melhores práticas de governança, que irá pautar o relacionamento com empresas investidas e será uma base de discussão institucional na entidade. Em outra frente, a Previ tem conversado com a Bloomberg, que está atualizando a taxonomia européia para padronizar informações das companhias no próprio terminal. “Pensamos em trazer a taxonomia europeia e fazer ajustes nas taxonomias locais, isso é importante para melhorar o valuation das empresas já que a transição energética custa caro”, observa. “Sabe-se que se o mundo continuar na atual toada vai explodir, então é preciso ter mais informações e gerar ratings com maior amplitude para colocar isso no preço e saber qual é o potencial das empresas lá na frente”, detalha.
Em 2021 a fundação também alterou seu questionário anual, que era originalmente muito calcado no G de governança e foi repaginado. “Isso mudou porque não dá mais para olhar apenas para a letra G, então damos um zoom na parte de integridade e incluímos mais aspectos ambientais e sociais”, conta. Além disso, o questionário utilizava uma métrica qualitativa, com respostas binárias e agora, embora tenha mantido a parte qualitativa, desenvolveu também a parte quantitativa.
“Se há empresas dizendo que serão neutras em emissões de carbono até 2040 ou 2050, é preciso avaliar se a curva histórica de suas emissões é compatível com isso e se há inovação que permita atingir essas metas”, lembra. Entram nessa avaliação todas as empresas do IBX -100 assim como as novas companhias, em abertura de capital, e aquelas que estão na carteira de participações da fundação – entre 30 e 40 sendo que a maioria destas está também no IBX 100.
De dois anos para cá, a entidade notou uma tendência à redução de notas, em função de uma mudança no nível de conhecimento dos seus analistas. “Eles vêm adquirindo mais conhecimento e fazem análises cada vez mais críticas, então subimos a régua da sustentabilidade e a partir dessa nota identificamos os gaps para montar os planos de ação, os engajamentos individuais ou coletivos”, pontua.
Uma preocupação é a questão da divulgação da remuneração variável dos executivos, que é essencial para mostrar se a direção da companhia está comprometida com a sustentabilidade. “Temos pedido mais transparência dessa informação às empresas”, ressalta.
Com um plano de benefícios maduro, que já tem uma carteira de renda variável robusta, não é viável sair de determinados papéis do dia para a noite e a solução é engajar as companhias com as melhorias. “Já nos investimentos em IPO inicial podemos selecionar setores que nascem dentro do conceito da nova economia e aplicar o rating ESG junto com os demais indicadores”. O rating é insumo de análise crítica tanto no engajamento quanto na seleção de ativos, utilizado na carteira de participações, em boa parte da carteira de gestão passiva e na renda fixa privada.
Embora tenha apenas R$ 1 bilhão em investimentos terceirizados -uma parcela pequena diante dos ativos totais que em outubro somavam R$ 230,24 bilhões -, a Previ começa agora a construir um modelo para aplicar critérios sustentáveis também a esses mandatos, tanto locais quanto internacionais. “Sempre buscamos usar os critérios ESG na parcela terceirizada mas agora vamos construir um desenho específico para isso porque hoje há um caminhão de fundos de investimento ESG no mercado mas muitos deles não fazem nada”, conta.
O modelo deverá estar pronto até o início de 2022 para crescer no tempo e selecionar casas gestoras que complementem a gestão interna. A ideia é encontrar gestores focados em temas específicos, como as inovações da medicina, por exemplo, incluindo novidades inspiradas pela pandemia em termos de cirurgias remotas, tecnologia de RNA mensageiro e suas aplicações na medicina, etc.

Os investidores institucionais têm papel fundamental no fomento de ações concretas voltadas ao ESG e seus propósitos devem refletir esse compromisso, avalia Bruno Dias, presidente da Petros. Para ele, essas ações não são apenas uma questão de boas práticas mas elemento imprescindível do dever fiduciário dos fundos de pensão, como critério no processo de decisão de investimentos.
“Como investidores institucionais de grande porte, acabamos expostos a praticamente todos os Objetivos de Desenvolvimento Social (ODS) da ONU, uma vez que nosso impacto se dá pela alocação ou não do capital da fundação nos ativos”, sublinha. Além disso, ele lembra que há uma agenda de processos internos, na qual a entidade está firmemente engajada com o ODS16, no que diz respeito à governança e à ética.
A fundação usa metodologia de uma consultoria especializada no tema e tem como referência o Código Brasileiro de Governança Corporativa – Companhias Abertas, do IBGC, além do Código de Stewardship da Amec para acompanhar e engajar as empresas.
As decisões estão ancoradas no score de avaliação e classificação ESG que incorpora indicadores de sustentabilidade econômico–financeira, de gestão das companhias (processos) e histórico negativo de multas e incidentes nas três esferas analisadas. O score classifica e pondera os aspectos ESG em paralelo à análise econômico-financeira, o que impacta as estratégias de todos os investimentos.
Para os gestores externos, inclusive nos fundos de exterior, as notas são atribuídas durante as análises de due diligence, considerando a maneira como as casas englobam os critérios ESG nas discussões de seus processos de investimentos. A nota para este atributo específico impacta diretamente na nota final dos gestores, sendo fator para recomendação de sua habilitação. São avaliadas suas diretrizes e os compromissos com o tema, além da representatividade da estratégia ESG em relação ao patrimônio do gestor, entre outros aspectos.
O processo acontece por meio de conversas prévias com as casas mas também em reuniões técnicas em que a Petros participa de comitês internos para identificar as práticas adotadas. Além disso, os gestores e fundos, depois de passar por análises qualitativas e quantitativas, são avaliados do ponto de vista reputacional e em relação a seus critérios de compliance, controles internos e riscos.
A maior dificuldade, admite Dias, é ter uma régua que consiga separar quem integra ou não os aspectos ESG, além de avaliar a transparência das gestoras sobre o tema. “A Anbima tem avançado bastante, com a recente criação de regras para categorizar os fundos e esperamos que estas dificuldades sejam dirimidas num futuro próximo”, diz.
O resultado das análises tem sido reportado pela fundação às empresas desde 2019, acompanhado pela orientação sobre os pontos que precisam ser aprimorados. “Nosso objetivo não é excluir empresas, mas gerar engajamento estratégico, cobrando práticas e metas”, assegura. Ele diz que desde 2020 foi percebida uma melhora nas práticas de report ESG das empresas. “Entretanto, na média, esse movimento ainda é incipiente”, observa.
Preocupada em fortelecer suas práticas de governança, compliance e integridade, a Petros contratou uma consultoria global que revisou toda a estrutura de governança de investimentos e gestão de riscos. “Adotamos as melhores prátidas, sobretudo as dos grandes fundos canadenses, que são referência mundial em termos de governança e de gestão de riscos”.

Estimulada pelas diretrizes de sua patrocinadora alemã, a Volkwagen Previdência Privada (VWPP) decidiu este ano ser o “abre-alas” da indústria automobilística no Brasil e criar um fundo exclusivo para ajudar a puxar a fila do investimento sustentável. “As principais multinacionais hoje têm a sustentabilidade como um dos seus grandes drivers e a Volks decidiu seguir por esse caminho ao adotar iniciativas ligadas ao desenvolvimento do carro elétrico, etanol e derivados”, explica Luiz Paulo Brasizza, diretor de investimentos.
Frente às limitações do mercado local, a entidade procurou uma gestora “que já tivesse uma sistemática de trabalho bem estruturada, com um fundo que não fosse ESG só no nome mas que fosse analisado de fato pela vertente sustentável”, conta. E selecionou um fundo exclusivo montado pela XP, gestora que tem também uma atuação educacional junto às empresas investidas. O aporte foi de R$ 200 milhões, ou 7% de seus ativos totais de R$ 3 bilhões, alocados no fundo Taos ESG (batizado em homenagem ao SUV lançado pela patrocinadora), Trata-se de um fundo de fundos (FoF) de renda fixa, que busca rentabilidade de CDI mais 1,5% ao ano.
A intenção é ampliar essa iniciativa e passar inclusive a investir em ativos específicos do setor de infraestrutura voltados a saneamento. Já há R$ 25 milhões alocados há dois anos num fundo global ESG da BlackRock. “Começamos ali a nos apropriar desse conhecimento porque o objetivo é ter a maior parte ou mesmo a totalidade dos nossos investimentos sustentáveis”, explica. E a fundação investe também em FIPs florestais, com a Lacan. A demanda vem em grande parte dos participantes dos planos de benefícios, especialmente dos mais jovens.
Na avaliação de Brasizza, há um pensamento errado que liga o ESG a baixos retornos, embora diversos estudos e evidências já tenham demonstrado que isso não é verdade. Outro obstáculo é a dificuldade para encontrar vertentes bem definidas de sustentabilidade no mercado. “Isso depende de termos um marco legal mais claro porque as ações promovidas pelas empresas costumam ser difíceis de mensurar; falta uma diretriz que dê um caminho um pouco mais reto ao investidor e que poderia vir da própria Previc”, sugere.

A Real Grandeza, que implantou sua coordenação para a área ESG em 2004 e criou o primeiro manual de sustentabilidade em 2012, faz engajamento por meio de vedações e filtros na carteira própria de investimentos. “Não tínhamos investimento direto tão forte para nos dar assento nos conselhos das companhias, então optamos por fazer esse trabalho por meio de filtros e vedações, excluindo ativos ligados às áreas de armas, bebidas alcoólicas, fumo, jogo, pornografia e qualquer atividade com risco de trabalho infantil ou escravo”, detalha o diretor presidente Sérgio Wilson Ferraz Fontes.
A equipe foi treinada em análise qualitativa para avaliar a aplicação de critérios ESG para cada classe de ativos, além de utilizar informações dos questionários e aplicar peso forte também na seleção de gestores externos. Em 2021 os manuais de seleção de gestores externos da entidade foram unificados num único documento, que reúne regras para todas as classes de ativos, inclusive para os ativos ESG.
“Não vimos necessidade de usar fundos ESG porque nossas blindagens já asseguram carteiras suficientemente comprometidas com esses critérios e os índices que medem o desempenho desses ativos mostram que tem sido um bom negócio”, diz Fontes.
A questão é convencer os participantes dos planos. “A geração millenials está disposta a trocar uma parte da rentabilidade pelos princípios de sustentabilidade, mas eles ainda são minoria no sistema.