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Carteiras refletem o engajamento
A escolha dos papéis que compõe a carteiras dos fundos reflete o compromisso das assets com uma econonomia eficiente em carbono

Edição 342

A mudança climática em curso, seus reflexos negativos sobre a vida no planeta e a necessária transição para uma economia de baixo carbono ganharam espaço ainda maior este ano nos relatórios de organismos multilaterais e tendem a ser os temas centrais nas teses de investimento sustentável também em 2022, com base nos critérios ESG.
Distante do tema por muito tempo, o mercado financeiro tratava o ESG como um debate quase interditado, que jogava as pessoas “na caixinha dos comunistas”, lembra Fábio Alperowitch, da Fama Investimentos. Há dois anos e meio isso mudou, rapidamente virou um modismo e assunto principal. “O que criou um problema porque as questões envolvidas são densas e complexas e os investidores institucionais tiveram que sair do nada para um ambiente em que esse assunto passou a ser quase obrigatório”, diz o gestor.
A guinada produz uma falsa sensação de conforto enquanto o debate nem chega a arranhar a superfície. Alperowitch avalia que poucas gestoras no Brasil vão além da superfície, enquanto dezenas de outros se apropriam do assunto de modo superficial. “O grande medo é que não haja uma inflexão com autocrítica e continuemos no status atual, gerando problemas sociais, ambientais e de ética”, receia.
As gestoras Fama e JGP são, até o momento, as únicas signatárias brasileiras da Net-Zero Asset Management Initiative, que exige o compromisso de descarbonizar totalmente os portfólios até 2040. “Eles colocam essa restrição e por isso nós não podemos investir em empresas poluentes, o que é uma amarra importante”, informa.
Segundo Alperowitch, a casa é pioneira no mercado de investimentos sustentáveis, tendo lançado o seu fundo ESG, um FIC FIA atualmente com R$ 2,7 bilhões de patrimônio, em 1993. Como o portfólio, composto por 16 companhias, já é 100% carbono negativo, sua atenção está mais focada em outros fatores. Além de não investir em petróleo, ele exclui empresas que utilizem trabalho análogo ao escravo ou infantil ou que desrespeitem a ética em saúde, além de companhias de tabaco e mineradoras. Em bens de consumo, há um olhar positivo para ativos da economia circular, entre outros.
Para cumprir o compromisso do carbono zero a gestora combina duas estratégias. Na primeira, escolhe ativos que sequestram mais carbono da atmosfera do que emitem, e na segunda engaja-se num esforço para as empresas investidas reduzam suas emissões. “No nosso fundo investimos em Klabin e Duratex, que são mais sequestradoras de carbono do que emissoras e, nas demais empresas, temos nos engajado para que reduzam emissões”, conta.
Ele lembra que o mercado segue ignorando questões ligadas ao carbono na precificação das companhias, assim como vários outros fatores ESG que ainda não se refletiram nos preços. Petrobrás é um exemplo. “O investidor olha a companhia e não vê o problema. Alguns até entenderam, mas empurram com a barriga porque são empresas muito líquidas. Até o dia em que o mercado mude essa dinâmica”, reflete.
Segundo Alperowitch, um dos novos desafios que o mercado enfrenta é separar teses realmente ESG do greenwashing, que as vezes é voluntário, feito por empresas que tentam enganar o mercado mostrando algum lado bom enquanto esconde diversas outras ações, e outras vezes é involuntário. “No involuntário, a empresa faz uma doação para uma escola, por exemplo, e acredita que isso é tudo que pode fazer”, diz. “Ela está no caminho errado sem saber”.

Ao enviar o seu representante à COP 26, respondendo a convite do governo do Reino Unido, a JGP, gestora que já incorpora 100% o conceito ESG em seus fundos de ações e de crédito, avançou mais um passo no processo interno de comprometimento com o tema. Durante o encontro em Glasgow, aderiu ao pacto assumido por um grupo de gestores globais contra o desmatamento oriundo das commodities, com a meta de zerar essa prática nas empresas de seu portfólio até 2025.
A casa mantém o engajamento com empresas e governos de vários países entre as suas principais diretrizes de atuação ESG. “Nosso time de análise cresceu mais de 30% e contratamos novos analistas, alguns deles focados exclusivamente em ESG; também decidimos montar nossa própria base de dados para ficar mais coerente com o nosso sistema de análise fundamentalista e temos reuniões semanais sobre ESG que envolvem de 30 a 50 pessoas”, detalha Marcio Correia, sócio e gestor de fundos de ações.
A gestora trabalha junto a empresas e governos para que as empresas façam seus lobbies na direção correta, de modo que os seus processos tenham maior impacto dentro de dez, 20 ou 30 anos. Embora o Brasil ainda tenha um percentual pequeno de ativos ESG, esses números explodiram lá fora, o que torna as empresas mais receptivas a essa discussão, avalia.
A ambição da JGP é fazer um engajamento parecido com o do CalPers, fundo de pensão público da Califórnia, ao montar mapas de governança e dar publicidade a eles.”Temos dados agregados para fazer isso e queremos dar publicidade de modo organizado. A remuneração dos executivos que esteja muito acima da mediana na remuneração dos funcionários é um exemplo de informação que precisa ser divulgada”, afirma.
O compromisso assumido pela JGP com a Net-Zero é a meta de carbono zero até 2040, mas essa redução terá que atingir 50% já em 2030. E é preciso demonstrar que a casa tem tecnologia para calcular as emissões de sua própria operação e principalmente dos seus investimentos totais. “Começamos pelos portfólios ESG e agora estamos trazendo isso para dentro dos nosso sistema para ter automaticamente o cálculo da pegada de carbono de todas as empresas investidas”, informa o sócio Guilherme Bragança.
A lista de fundos, que inclui multimercados, ações e crédito, passou a ter também Fiagro e real estate. No Fiagro, a maior parte é direcionada para ações de agricultura e agropecuária regenerativas e estão em estudos projetos de reflorestamento. Nos multimercados há um debate mundial sobre como incorporar esses critérios, explica Bragança, porque falta um padrão para calcular as emissões de carbono nas operações com derivativos, por exemplo. “Nos fundos de ações e de crédito há sempre informações sobre a pegada de carbono das atividades-fim das companhias e qualquer posição que montamos aqui com ações ou crédito já passou pela análise ESG”, conta.
Empresas como Vale e Petrobras não estão nos portfólios dos fundos ESG da casa e ocupam posições pequenas nos demais fundos. “Tentamos compensar isso com a busca de empresas inovadoras”, afirma. Tanto nos fundos de ações quanto nos de crédito privado, a primeira fase é a de exclusão de ativos mas isso tem pouco impacto, admite Marcio Correia, uma vez que no Brasil não há muito o que excluir.
São barradas na JGP empresas ligadas a jogos de azar, cigarro e material bélico, mas ainda é inviável excluir totalmente os setores de mineração e siderurgia, por exemplo. “Não há como exclui-los porque a própria transição energética para uma matriz sustentável depende desses setores”, ressalta. Na prática, a transição é mais agressiva e uma única torre eólica, por exemplo, demanda 550 toneladas de aço longo. “Mas essas empresas precisam ser responsáveis com as comunidades, ter cuidado com o uso de água doce e investir na questão social, gerando prosperidade; nosso engajamento para isso é intenso”, pontua.
Correia frisa que é possível obter bom retorno ajustado ao risco. “O nosso fundo ESG de ações é mais restritivo e foi o que teve melhor retorno em dois anos e meio de vida sem nunca ter investido em Vale ou em Petrobras, neste segundo caso pela falta de uma política clara de transição energética”, detalha.
A Vale, analisa o gestor, avançou recentemente em governança mas os acidentes (Marina e Brumadinho) refletem uma questão cultural ruim deles. “Gastamos muito tempo com a Vale mas não é uma empresa moderna, ela é do passado e isso inexoravelmente leva a erros. Do ponto de vista social tem impacto negativo, parece que acordou agora e melhorou um pouco em governança mas a interlocução com os afetados pelos acidentes ainda deixa a desejar”, analisa.
A carteira compensou a ausência dessas empresas ao alocar em ativos como o lítio sustentável. O destaque é a canadense Sigma Lithium, mineradora que fornece lítio sustentável extraído do Vale do Jequitinhonha, utilizado nas baterias de carros elétricos. Outro papel relevante é o da finlandesa Spinnova, associada à Suzano, que pretende transformar o setor têxtil graças à produção de tecido à base de celulose.
O fundo, que até setembro de 2019 era exclusivo, foi transformado em feeder master ESG, tem ficado acima da média da indústria e seu histórico tinha um nível de emissões baixo, inferior a 1% da carteira do Ibovespa. “Isso aumentou depois que começou a investir em Gerdau, que é uma posição importante, embora a empresa seja bem ranqueada e emita menos do que a média. Mas investimos também em ativos que são sequestradores de carbono, como compensação”, diz Correia. E os fundos de crédito permitem à gestora compensar o balanço das emissões graças ao financiamento de soluções para o desmatamento, o que tende a capturar carbono.

O assunto ESG ficou mais tangível de quatro anos para cá mas cresceu principalmente nos últimos dois anos. “A pandemia de coronavírus e o maior conhecimento trazido pela ciência sobre os impactos físicos da mudança climática, da perda de diversidade e de eventos extremos em relação à atividade econômica tornaram mais importante para gestores e investidores conhecer a agenda ESG”, observa Maria Eugênia Buosi, sócia da Resultante, consultoria especializada em sustentabilidade. “No final do dia não é só uma questão de “salvar o planeta” mas há maior risco à continuidade do processo produtivo”, diz.
No Brasil, o impacto sobre a produção agrícola, as quebras de safras e a inflação dos alimentos resultam numa conta salgada. Todas essas variáveis afetam as carteiras de ativos, que também reagem a outro fator que escancara o assunto: “A chegada de uma nova geração aos mercados de consumo, de trabalho e de investimentos, pessoas que já têm essa preocupação desde a infância e agora demandam soluções para os problemas que nós criamos”, afirma.
A Resultante, que atende 18 clientes entre gestoras e EFPC, responsáveis por um total de R$ 1,2 trilhão em ativos, avalia mais de 350 empresas, 200 delas há mais de quatro anos, e vê uma “evolução absurda” da agenda ESG nos últimos anos, com a integração rápida do tema ao mainstream do mercado.
“A tendência é haver agora uma acomodação e mais aplicação de requisitos técnicos. Hoje há muita preocupação da alta direção e dos conselhos com o cálculo de uma pegada de carbono, por exemplo, e os profissionais de investimento também precisarão ter conhecimento para aplicar a cada classe de ativos”, diz. Mas as premissas dessa agenda dependem de cada empresa porque “assim como não há bala de prata no valuation, também não há no ESG”.
Mesmo os críticos mais ferrenhos, como o economista Aswath Damodaran, o “papa do valuation” que este ano detonou o ESG, são bem vindos ao debate, diz Buosi. “É importante ter esse contraponto para que possamos avançar”, acredita.

A falta de regras mais claras é um dos pontos fracos do ESG no mundo todo, observa Luciane Moessa, fundadora da consultoria SIS (Soluções Inclusivas Sustentáveis) e pesquisadora na área de finanças sustentáveis. Isso significa que não basta haver regulação se ela for demasiado genérica porque nesse caso a fiscalização fica sem parâmetros e as regras não irão produzir efeitos.“O mercado é heterogêneo em qualquer parte do mundo: há aqueles mais avançados, que não precisariam de uma regulação, há os que seguem o comportamento de rebanho e existem ainda os “lanterninhas”, aqueles que só vão se mexer se houver normas e fiscalização”, reflete.
No Brasil, ela cita como exemplo o atual esforço da Susep (Superintendência de Seguros Privados) para editar uma nova norma para as entidades abertas de previdência, mais clara, que deverá ter um impacto positivo sobre o setor. Já a Resolução CMN 4.661, que regula as entidades fechadas de previdência, é menos genérica do que a da Susep mas ainda não é suficiente, avalia Moessa. “Na 4.661 há a vantagem de ter sido normatizada por uma instrução normativa e reforçada pelo guia de boas práticas editado pela Previc que inclui o ESG, então isso ajuda”, afirma.
Outro problema é a queixa dos investidores sobre a falta de dados de compliance socioambiental das empresas. “A Cetesb é um exemplo positivo porque é muito boa na publicação de quase todos os dados relevantes para os investidores mas nos 27 estados brasileiros apenas meia dúzia de companhias fornece dados suficientes”. Essas questões estão ligadas também à falta de regulamentação no mercado de capitais, pela CVM, que precisa dizer às empresas o que devem relatar. Moessa sugere que a nova norma, atualmente em elaboração, exija determinados indicadores por setor, considerando as peculiaridades de cada um deles, como no caso do consumo de água.