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O ano em que IPOs sumiram
O ano de 2022, ao contrário de 2020 e 2021, está sendo um deserto de IPOs, com o fluxo de investimentos buscando os fundos de renda fixa

Edição 346

Em virtude de turbulências do mercado e da alta acelerada da Selic, que saiu de 2% em janeiro de 2021 para 12,75% em maio deste ano, praticamente desapareceu neste ano o espaço para o lançamento de ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês). Muitas empresas que vieram a público na safra 2020/2021, surfando na alta liquidez do mercado de então, se deparam agora com suas ações cotadas abaixo dos valores alcançados nos IPOs.
O caso mais emblemático é o da Nubank, que fez IPO na bolsa de Nova York em dezembro do ano passado e chegou a ser cotada a US$11,85 naquela ocasião, derretendo para menos de US$ 3,50 no final de maio. Mas além do banco lançado há dez anos pelo colombiano David Vélez e que acumula queda de mais de dois terços da sua máxima, outros IPOs como TC Traders Club, Neogrid, Multilaser, Modalmais, Estapar, Oncoclínicas, Dotz, Brisanet, Enjoei, Getninjas, Westwing e Mobly, para citar só alguns, exibiam no final de maio cotações que representavam menos de 50% do valor do lançamento.
Por outro lado, a demanda por fundos de renda fixa disparou. Entre o final de 2021 e o final de abril deste ano, os fundos de renda fixa tiveram captação líquida de R$ 211,70 bilhões, passando de R$ 2,55 trilhões para R$ 2,76 trilhões segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Em contrapartida, as ofertas públicas iniciais de ações (IPOs na sigla em inglês) estão paradas.
Gestoras de private equity optaram por adiar as operações de abertura de capital das suas empresas investidas. É o caso dos fundos administrados pela Spectra, Treecorp e Stratus. Segundo essas empresas, o momento é ruim para captação, já que juros altos historicamente desestimulam alocação de recursos em ativos de risco. Porém, há boas oportunidades de investimento em novas empresas do mercado privado.

O melhor investimento ainda é ter ações de boas empresas. A boa empresa não vai precificar agora, mas daqui a dois anos o retorno será superior ao dos juros. Não fazer IPO não significa perda de valor, aliás, muitas vezes a saída um pouco mais tarde significa valorização de ativo e a possibilidade de trabalhar melhor a empresa para um momento de compradores dispostos a pagar mais caro. Turbulências conjunturais têm pouco efeito. O valor e o retorno para o investidor é fruto de trabalho de vários anos, diz Álvaro Gonçalves, diretor executivo do Stratus, grupo que administra R$ 1,4 bilhão em fundos de private equity. “É o momento de gestão intensiva de portfólios e de contemplar variáveis que há dois anos não eram previsíveis e hoje são reais”, disse. De fato, nenhuma projeção em 2020 apontava para uma Selic beirando 13% este ano.
No ano passado, a Stratus suspendeu duas operações de IPOs, as da BBM Logística e da Maestro Frotas, previstas para ocorrerem em 2021. A opção recaiu sobre recapitalizar as empresas e mantê-las em carteira até que o mercado apresente condições mais favoráveis, com menos volatilidade. Gonçalves reconhece que não é o ideal para investidor, mas a decisão priorizou a proteção do valor do ativo. A gestora, aliás, tinha desinvestimentos previstos para 2021 e 2022, que provavelmente só ocorrerão em 2023 e 2024. O último IPO realizado pelo Stratus foi em 2016, relativo à empresa Sinqia, com valor de mercado de quase R$ 2 bilhões atualmente.
Gestores de fundos de private equity são unânimes em afirmar que a redução de fluxos de saídas não afeta o retorno do investimento, mas sim sua liquidez. Como retorno, risco e liquidez são variáveis independentes, períodos de escassez de dinheiro no mercado não implica em menor retorno adiante. Ao contrário, dizem. É o momento em que o foco busca os fundamentos das companhias a fim de assegurar retorno efetivo à frente. O fundo do Stratus que adiou as duas operações de IPO, iniciado em 2014, por exemplo, acumulava retorno de cerca 30% no início de 2021, mas agora está perto de 17%. “Daqui a pouco retornará”, disse o gestor.
Oscilações fazem parte do jogo. A rentabilidade do fundo nos últimos três anos é superior a 25% ao ano, segundo ele, mas nos últimos seis meses está negativa. “Provavelmente fará uma curva e continuará negativa nos próximos dois trimestres, mas voltará a subir no seguinte. O importante é não vender nesse momento. Um outro fundo da gestora, mais recente, está no zero a zero, porque ainda está construindo a carteira”, disse o gestor. Ao contrário dos fundos de ação, que compram e vende todos os dias, o de private equity só dá retorno no final.

Levantamento feito pela Spectra Investments mostra que empresas investidas por fundos de private equity renderam 13% acima do Ibovespa após a listagem em bolsa, contra apenas, 1% para as demais. O número consolida resultados de IPOs realizados entre 2019 e o final de maio deste ano. A Spectra tem, na forma de fundos de fundos, cerca de R$ 5 bilhões em cotas de fundos que investem no Brasil e na América Latina e uma carteira de aproximadamente 450 empresas investidas. Em 2022, diante da maior restrição de liquidez, a gestora decidiu subir a barra em seus critérios de investimentos.
“Como o volume de oportunidades tende a aumentar em momentos como esse, passamos a ser mais seletivos na escolha do portfólio”, disse Renato Abissamra, sócio da Spectra, que investiu cerca de R$ 800 milhões nos últimos 10 meses. O cenário, segundo ele, demanda mais atenção para os investimentos e menos a venda de ativos. “Com a alta dos juros, investidores ficam mais retraídos, mas as empresas continuam precisando de capital. Estamos conseguindo investir em termos melhores e estamos muito focados nisso hoje”, disse. A Spectra aloca cerca de 30% de seu capital por ano, disciplina considerada essencial em sua estratégia.
Já nos anos de 2020 e 2021, o movimento era diferente. A euforia decorrente do excesso de liquidez no mercado brasileiro, assim como no mercado global, levou a processos acelerados de desinvestimento. A gestora realizou 16 IPOs de empresas de seu portfólio, além de operações de vendas estratégicas para outros fundos que permitiram devolver boa soma de capital a seus investidores. No início deste ano, a conta atingiu R$ 1,1 bilhão de capital retornado aos investidores, dos quais cerca de R$ 400 milhões foram reinvestidos por eles na gestora.
Segundo Abissamra, “na ocasião, o momento era de colheita; atualmente é de plantio”. Ainda de acordo com o executivo, “o mercado brasileiro é de liquidez intermitente. As janelas de liquidez são muito curtas. Justamente nessas janelas colhe-se o fruto dos investimentos feitos ao longo dos anos”.

Outra gestora de fundos de private equity, a Treecorp, com cerca de R$ 1 bilhão alocados, está concluindo investimentos em seu terceiro fundo, de cerca de R$ 500 milhões, captados no fim de 2018 e já com cinco empresas no portfólio. No ano passado, a gestora optou por vender duas de suas empresas para outras duas companhias abertas, em transações que envolviam pagamento com ações do comprador. Uma delas, a Zeedog, marca de produtos para cães e gatos, foi adquirida pela Petz, um dos maiores varejistas do setor no Brasil, paga 100% com ações em agosto de 2021. A segunda venda foi da Zul, empresa de mobilidade urbana, para a Estapar, também paga com ações. Com isso, a carteira do fundo da Treecorp passou incluir ações da Petz e da Estapar.
A gestora tem como estratégia investir em empresas de quatro setores – saúde, consumo, tecnologia e serviços – na vertente conhecida como “growth” (companhias com foco em alto crescimento). Hoje, o fundo tem cinco investimentos na vertente “growth e está captando para um novo fundo, de R$ 700 milhões. De acordo com Danilo Just Soares, sócio da Treecorp, “dado o universo em que buscamos investir, o de empresas geradoras de caixa, e dado nosso track record e capacidade de originação, acreditamos ser um momento oportuno para a captação”.
Com a janela fechada para IPOs, Soares reforça o coro dos que apostam na busca de boas empresas no mercado em busca de capital. Segundo ele, se é verdade que a escalada dos juros de 2021 para cá afeta negativamente a economia nacional, é a hora de gestores de fundos de private equity identificarem e investirem em empresas com musculatura e fôlego. “Quando uma companhia cresce mais de 30% ao ano, fica resiliente às dificuldades da conjuntura macro. São bolsões robustos que conseguem desafiar a dificuldade de custo de capital alto e inflação ascendente. O papel da Treecorp é achá-las e capitalizá-las para que os fundadores usem bem o capital ao longo de três a cinco anos”, explica Soares.
A tendência do mercado de capital é oposta, principalmente em momentos de alta das taxas de juros. Ele tende a penalizar empresas cujo caixa não gere lucros, considerando que estão mais distantes da perpetuidade. “Nós, assim como nossos pares, estamos com capital para fazer investimentos”, diz Soares. “É só esperar um pouco mais e veremos uma nova onda de empresas abrindo capital”.