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Garde sob novo comando
Processo de mudanças na asset leva o CIO, Carlos Calabresi, a acumular o cargo de CEO que, nos últimos nove anos, foi exercido por Marcelo Giufrida

Edição 347

Fundada em meados de 2013 por executivos egressos do banco BNP Paribas, a gestora de recursos Garde Asset Management passou recentemente por mudanças importantes em seu quadro societário. O sócio fundador e CEO, Marcelo Giufrida deixou o cargo que ocupava desde o início das operações da gestora, passando a atuar como “senior business advisor” desde fevereiro deste ano.
Com a decisão de Giufrida de se dedicar a outros projetos, o também sócio fundador e CIO Carlos Calabresi passou a acumular também as funções de CEO da gestora, com cerca de R$ 2,5 bilhões em ativos sob gestão em maio, de acordo com dados da plataforma TC/Economática.
Segundo Calabresi, a saída de Giufrida do dia a dia da Garde culminou em algumas mudanças dentro da rotina dos demais sócios da gestora. Uma das funções do ex-CEO, de realizar encontros periódicos de relacionamentos com clientes e potenciais novos investidores, passou a ser exercida pelo economista-chefe Daniel Weeks.
“A gente queria estar mais próximo dos clientes, no sentido de a conversa ser mais focada em cenários e nos mercados, e menos institucional, que era no que o Giufrida focava mais”, diz Calabresi. “Nossa percepção era de que, depois de algumas visitas, as reuniões acabavam se tornando pouco interessantes, já que as coisas não mudam tanto do ponto de vista da empresa”, acrescenta.
No que diz respeito à gestão administrativa da operação, o executivo Felipe Bastos, que já atuava como braço direito de Giufrida no tocante ao operacional do negócio desde a época de BNP Paribas, foi alçado ao posto de COO, em um desdobramento visto como natural na evolução da gestora.
Com a redistribuição de funções, Calabresi diz que segue mais voltado às atividades como CIO. “O importante mesmo em uma gestora é a função de CIO, porque, no final, o negócio é fazer a gestão dos ativos.” Ele ressalta, contudo, que estar à frente da operação de forma mais ampla não é uma novidade. Antes de fundar a Garde, o gestor foi o CEO da unidade do BNP Paribas na Colômbia.
Calabresi diz ainda que a saída de Giufrida coincidiu com uma importante reestruturação das operações da Garde iniciada ainda em 2018. Naquele ano, com a taxa Selic na então mínima histórica de 6,5%, o gestor reconhece que os fundos da Garde apresentaram desempenho bem abaixo das expectativas –carro-chefe da casa, o multimercado macro D’Artagnan teve rentabilidade positiva de apenas 1,78%, já descontada as despesas, o que correspondeu a cerca de 27,8% do CDI, que foi de 6,42% no intervalo.
“2018 foi um ano fora da curva do ponto de vista de performance, muito abaixo do que era nosso histórico até então”, afirma Calabresi, que cita mudanças drásticas na condução da política monetária do Banco Central (BC), comandado na época por Ilan Goldfajn, bem como a volatilidade típica de anos eleitorais, entre as razões para o desempenho ruim.
Levantamento elaborado pela plataforma TC/Economatica mostra que o ano de 2018 foi justamente quando a Garde alcançou seu pico, até aqui, em termos de ativos sob gestão e quantidade de cotistas, com cerca de R$ 8,6 bilhões e 15 mil cotistas. Passados quatro anos, a gestora soma hoje aproximadamente R$ 2,5 bilhões de 4 mil cotistas.

Calabresi diz que, nesse meio tempo, mudanças importantes de rota aconteceram na gestão da empresa. Ele recorda que identificou, na ocasião, uma deficiência no quadro de funcionários por conta da saída constante de profissionais, motivada, na avaliação da própria gestora, pelo modelo de incentivo dado aos empregados.
Isso porque, quando um gestor fechava o ano com perdas na estratégia da qual era responsável, ele as carregava para o ano seguinte, e só passava a ter direito ao recebimento de bônus quando conseguisse zerar essas perdas. “Percebemos que um critério que havia sido criado para tentar gerar proteção para o negócio, na verdade incentivava o gestor que teve um ano ruim a mudar de emprego”, explica Calabresi.
No novo modelo, a prática foi abandonada, mas foram impostos limites individuais mais rígidos para cada gestor, que se dividem em duas fases. Em um primeiro nível de perda, o gestor reduz as suas posições e, em um segundo nível, ele zera as posições e leva uma nova estratégia para o comitê de investimentos. “Poucas vezes atingimos esse segundo nível e, com isso, conseguimos evitar perdas concentradas em uma única estratégia”, conta.
Além disso, até 2018, quando o fundo estava tendo um desempenho ruim, ordens de “stop loss”, para evitar que as perdas prosseguissem, eram estabelecidas para as estratégias de forma generalizada dentro da carteira. “Foi um ponto que atrapalhou muito em 2018, porque ‘stopamos’ o fundo e demoramos cerca de dois meses para voltar ao jogo. Só que perdemos boa parte da recuperação do mercado nesses dois meses, e depois foi difícil recuperar”, afirma o gestor da Garde, acrescentando que a casa passou a adotar como prática fazer o “stop loss” por estratégia, e não mais para o fundo como um todo.
Calabresi diz ainda que um nível maior de diversificação das estratégias de investimento dos fundos passou a ser implementada ao longo dos últimos anos, com alocações no mercado internacional e modelos sistemáticos, por exemplo, adicionando novas camadas de gestão para a operação.
Segundo o gestor da Garde, as novas estratégias têm mostrado bons resultados, com os ganhos dos fundos neste ano oriundos em boa parte da dinâmica global de alta dos juros e queda das Bolsas internacionais.
O alto retorno da renda fixa local também contribui para a rentabilidade positiva –o multimercado D’Artagnan acumula valorização de 11,40% em 2022, até maio, contra 4,34% do CDI no mesmo período. “Passamos a ter uma atuação mais diversificada e, portanto, os fundos trabalham de maneira mais equilibrada.”
Calabresi acrescenta que a gestora tem aproveitado os novos fronts de atuação para expandir a grade de produtos. Em setembro do ano passado, a Garde lançou o multimercado Pascal, fundo dedicado exclusivamente ao modelo sistemático, e, em maio deste ano, o fundo previdenciário Paris Icatu.
Com base na reestruturação que foi feita, e considerando pares comparáveis, o gestor diz que a intenção é alcançar em uma perspectiva de médio prazo uma base de ativos sob gestão da ordem de R$ 10 bilhões.

Maturidade da empresa trouxe conforto para decisão, diz Giufrida
Segundo Marcelo Giufrida, não houve algum motivo específico que mais o tenha motivado a deixar o dia a dia da operação da Garde. Ele diz que a evolução da gestora ao longo dos últimos nove anos, com a ascensão de novos sócios e das estruturas de governança, o deixou bastante confortável para tomar a decisão.
“A Garde está tendo um ano muito bom, é uma casa sólida, com sócios seniores de reputação no mercado e fico tranquilo de deixar a gestora seguir seu caminho e continuo torcendo pela empresa. Além de ter amigos lá, tem clientes que são amigos também e não tenho dúvida de que estão em ótimas mãos.”
O agora “senior advisor” fez o anúncio sobre o desejo de deixar a função à frente da gestora aos demais sócios na virada do ano, quando tradicionalmente a Garde faz reuniões de avaliação dos profissionais e para definir as diretrizes para os próximos 12 meses. “Estava começando a sentir falta de interagir mais com players no mercado internacional, que é algo que fiz em minha carreira anteriormente como diretor em bancos internacionais”, afirma Giufrida. “A Garde é uma empresa local, mais exposta às dinâmicas locais”, acrescenta.
Ele conta que tem reativado contatos no exterior e que planeja fazer viagens para se inteirar a respeito das principais tendências de mercado debatidas globalmente, mas que, por enquanto, não tem planos concretos sobre novas iniciativas profissionais.
“Estamos em um momento nebuloso, com a guerra na Ucrânia, as eleições no Brasil, os Bancos Centrais tentando domar a inflação que veio para níveis recordes. Para quem está no dia a dia da gestora, a função é lidar com essas incertezas e tomar a melhor decisão em nome dos investidores. No meu caso, posso esperar para definir meus caminhos em função dessa neblina que tira um pouco da visibilidade”, afirma Giufrida. “É prudente esperar para definir os próximos passos.”
Ele diz ainda que a transição societária que resultou em sua saída do cargo de CEO da Garde já foi “totalmente consumada”, mas que segue com a maior parte dos recursos investida nos fundos da gestora que ajudou a fundar.
Segundo Calabresi, cerca de 50% da participação da empresa está hoje detida pelos principais sócios –além dele próprio, Marcio Georgetti e Rodrigo Pagnani, todos egressos do BNP Paribas –, com os 50% restantes distribuídos entre os outros sócios da gestora.
O CEO diz que a participação de Giufrida no negócio será redistribuída, conforme os gestores se destaquem e “façam por merecer” novas fatias na empresa ao longo do tempo.