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Aposta no crédito
Além dos títulos públicos longos e produtos atrelados à inflação, gestoras apostam no crescimento de fundos de crédito junto aos institucionais

Edição 347

Os fundos de pensão ficaram mais conservadores em suas decisões de alocação, até porque a alta do juro fez com que o CDI afetasse a relação risco/retorno (fronteira eficiente) dos investimentos, analisa Pedro Boainain, líder de gestão de fundos de crédito e soluções institucionais globais da Itaú Asset Management. “A fronteira foi deslocada para cima e ficou menos inclinada, com mais CDI enquanto os ativos de maior risco tiveram seu risco aumentado”, afirma. Nos ilíquidos, ele observa que a rentabilidade potencial varia muito pouco com a alta do juro, então essa relação ficou pior, ou seja, é mais difícil encontrar investimentos que capturem prêmios hoje. “Para as fundações, já há um ativo que atende suas necessidades, então os recursos serão geridos mais de acordo com o seu perfil de risco”, diz.
Como resultado, a bola da vez é a renda fixa, a classe que mais capta no mercado, mas isso não acontece apenas por conta do CDI, opina o gestor. “Hoje, mesmo na renda fixa mais conservadora precisamos entregar coisas diferenciadas, como o crédito privado”, acrescenta.
A casa aposta na vantagem de sua gestão competitiva em crédito, com um time dedicado de 20 pessoas e capacidade inclusive para criar soluções específicas, uma vez que o Itaú já detém 25% do mercado de fundos de crédito. “É preciso identificar as oportunidades e mitigar riscos, o que significa que não é só comprar e manter os ativos, mas gerar alfa o tempo todo e mesmo os produtos de liquidez d+zero aqui têm rendido 110% do CDI”, comenta Boainain.

A captação da asset em crédito cresceu 40% na margem entre o primeiro semestre deste ano em comparação ao segundo semestre de 2021 e chegou a R$ 5 bilhões ao mês, originada principalmente no varejo de alta renda, mas em maio a captação ficou zerada pelo movimento de pessoas obrigadas a resgatar dinheiro para consumo. Entre os fundos de pensão, o crédito ainda é pouco usado, admite o gestor. Soluções de gestão ativa, seja para atender necessidades de caixa, de ALM ou de asset alocation, entre outros, são montadas como “peças de lego”, para levar em conta os períodos que vão de hoje até o dia do pagamento de benefícios, diz Boainain. “Não se pode ficar como crianças pequenas que só usam as peças grandes do lego, mas os fundos de pensão ainda estão devagar em crédito, eles oscilam entre as NTN-Bs e o outro extremo, como Fundos de Investimento em Participações. A verdade é que a renda fixa melhorou, mas não dá para ficar só nisso”, observa.
Para contornar uma das dificuldades do investidor institucional no mercado de crédito hoje, que é encontrar emissões referenciadas em IPCA, a casa lançou um fundo com duration longa com retorno de 1% a 1,5% acima do IPCA. “É um fundo que corre risco de crédito de modo profissional e usa o risco de mercado para fazer hedge; ele é devidamente enquadrado à 4.661 e tem uma versão em CDI para quem precisa gerenciar seu caixa, mas quer um retorno adicional”, afirma. A estratégia responde à preocupação das entidades frente ao IPCA pressionado e faz a gestão da liquidez por camadas desde o d+zero até d+30, com maior spread e maior retorno. “Hoje operamos 15 vezes mais no secundário de crédito do que fazíamos há dois anos. Incluímos uma camada adicional de alfa pela escala da casa e pela gestão ativa, que tem captado bem a despeito das preocupações com a qualidade de crédito das empresas no atual cenário”, diz Boainain.
Os multimercados são outra opção em ambiente de juros altos e de muita incerteza, pois têm alto grau de liberdade para gerar alfa. “A ideia é enxergar os multimercados como instrumento para diversificar risco, até porque ter esses fundos em perfil de pouco risco não faz sentido já que é um produto que custa caro”, explica. Há cerca de R$ 40 bilhões sob gestão na asset em multimercados e um de seus fundos, da família Global Dinâmico, rendeu 200% do CDI em uma das janelas mais recentes por conta de sua atuação offshore “ao operar taxas de juros versus inflação nos EUA ainda melhor do que os americanos, que não estavam habituados a isso”, ironiza.
A asset acaba de criar uma versão de mais risco desse fundo, que usa a mesma estratégia, porém “dobra a aposta” e corre o dobro do risco. “Temos trabalhado em veículos de maior risco que ajudam a ajustar a relação risco/retorno porque a questão é nos adaptarmos à realidade do juro alto e da inflação, com o temor de que ela continue alta e haja ainda muita volatilidade pela frente”, afirma Boainain. Nessa linha, a ordem é agregar fórmulas que permitam comprar o que está barato, mas com proteções.
No mercado de ações, por exemplo, uma das alternativas são os fundos “bond like”, que se parecem com renda fixa porque investem em ativos de companhias que têm fluxo de caixa estável, como as concessionárias de energia, de saneamento e até mesmo os shopping centers. “No longo prazo, são fundos que funcionam como uma NTN-B com prêmio de IPCA mais 12%, este é o momento para fazer isso”, diz.

A captação na ARX Investimentos está mais concentrada atualmente em renda fixa, enquanto os resgates seguem maiores nos ativos de risco. “Temos fundos de equities, renda fixa high grade e multimercados, não há urgência de reter fluxos e sofremos menos do que outras casas neste momento”, ressalta Pierre Jadoul, gestor de fundos de renda fixa. A casa não criou instrumentos específicos em razão da alta do juro e tem visto crescimento forte da renda fixa no pós-pandemia, tanto que metade de seus fundos está fechada atualmente por terem crescido demais. Para as fundações, foi aberta uma estrutura nova de crédito privado, um fundo exclusivo que tem visto demanda.
Ao todo, a gestora tem R$ 19 bilhões em crédito privado sob gestão, informa Monica Marchevsky, responsável pela área de relacionamento com investidores institucionais. Entre as estratégias para as fundações, há um produto aberto e fundos exclusivos com indexadores de inflação. O uso do IMA-B5 e a transferência de CDI para IPCA via derivativos trazem risco de crédito e de mercado, com gestão ativa da curva de juros.
Os spreads de crédito já mudaram de patamar desde a crise da pandemia e estão mais justos, mas no segmento de debêntures de infraestrutura eles ainda estão “amassados”, diz o gestor. Independente dos spreads fecharem ou não, a volatilidade em equities e nos demais ativos de risco tende a continuar e, no atual patamar de juros, os alocadores têm pouco interesse a passar para o risco, então segue a migração da caixa de equities e multimercados para a renda fixa. A taxa Selic deverá ter mais uma alta, permanecer inalterada até meados de 2023 para só depois começar a sofrer cortes, estima o gestor.
“O cenário atual de esfriamento da economia e juros altos tem efeito negativo sobre as receitas e despesas financeiras das empresas. Elas têm os seus custos pressionados porque o consumidor tem seu poder aquisitivo corroído e isso dificulta o repasse de preços na ponta do consumo, dependendo do setor, o que significa margens piores”, avalia Jadoul.
Os fundos de crédito da asset, porém, atuam apenas no risco high grade, com empresas dominantes e que podem ter oportunidade de ganhar market share por meio de operações de consolidação em seu setor. A médio e longo prazos isso pode trazer vantagens competitivas relevantes.