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Fazendo a escolha certa
As EFPCs precisam avaliar, entre os produtos de investimentos no exterior disponíveis, aqueles que mais combinam com o seu portfólio específico

Edição 343

A oferta de estratégias globais de investimentos, tanto em produtos exclusivos quanto de prateleira, têm atendido amplamente a demanda dos fundos de pensão brasileiros, avalia o presidente da Schroders no Brasil, Daniel Celano. Segundo ele, mesmo com a elevação da Selic desde março do ano passado, a demanda das fundações permanece firme. “A diversificação internacional é sempre importante, em qualquer cenário, mesmo neste ano quando há preocupação com o patamar dos juros americanos e desconfianças, no Brasil, em relação à inflação e às eleições”, afirma.
Celano cita também a desconfiança com o câmbio, com o real depreciado em relação à sua média histórica. “O câmbio é apenas uma das fontes na diversificação de investimentos e, dependendo do perfil do investidor, ele pode fazer isso em etapas”, reforça. As EFPC que ainda não foram para o exterior e pensam no assunto discutem, por exemplo, se devem fazer hedge cambial da metade do portfólio. “Fazer a proteção de apenas uma parte da carteira é uma alternativa com menor margem e que custa menos, sem precisar abrir mão da diversificação em moeda”, detalha.
A exposição cambial ainda faz sentido, mas quem está para entrar nesse mercado deve ter maior cuidado ao definir as proteções. “Eu me preocuparia em definir a melhor estratégia mas não em fugir do câmbio, até porque o dólar ainda tem uma banda ampla para transitar entre R$ 5 e R$ 6”, diz. É preciso lembrar ainda o carry positivo do juro, que já garante uma largada com 60% a 80% do CDI mesmo que o investimento renda zero”, pondera.
As fundações, na avaliação da Schroders, já começam a combinar um pouco mais as alternativas e a identificar os motivos pelos quais é importante ter um tipo de produto ou outro. “A gama de oferta de fundos no mercado aumentou muito e as entidades agora precisam compreender não apenas se uma determinada tese é boa em retorno, sharpe, etc, mas também os motivos pelos quais ela deve entrar no seu portfolio ou não”, afirma. Os fundos multimercados estruturados e os BDRs oferecem alguma diversificação no exterior, mas Celano defende a importância de ter uma gestão 100% internacional porque um portfólio global hedgeado diversifica muito mais.
A casa incluiu em sua grade um novo fundo de exterior, com estratégia long & short e foco em empresas de tecnologia, conta Celano. Ele não replica os índices de tecnologia mas combina long& short para gerar um excesso de retorno com beta baixo, quase neutro. A volatilidade é mais alta, entre 10% e 12%, mas a carteira não fica comprada em beta e o universo de ativos ligados aos setores de mídia e telecomunicações é muito vasto. A elevação do juro exige maior atenção às empresas cuja gestão demonstre habilidade e que tenham capacidade de gerar mais caixa. “A Covid acelerou muito as tendências digitais e isso vai continuar no longo prazo mas a volatilidade do mercado também será maior”, aponta.
A Schroders tinha, em janeiro, R$ 1,3 bilhão já aplicados em fundos sob medida de nove entidades fechadas de previdência complementar e estima que mais R$ 200 milhões devem entrar nesses mandatos no segundo trimestre. “Fechamos dois mandatos novos com fundações em dezembro e outro está a caminho”.
Para os fundos globais de prateleira, a casa tem conversado com os distribuidores que têm as EFPC como alvo para trazer mais uma estratégia multimercado hedgeada. Com isso, sairá das atuais cinco fundos para chegar a oito ou nove, incluindo os que oferece diretamente e os de distribuidores. Entre as cinco estratégias estão, por exemplo, um fundo global com o BB, que existe desde 2013, tem patrimônio de R$ 1,5 bilhão e captou R$ 600 milhões no ano passado e um FIA global sustentável que captou R$ 240 milhões, ficando com R$ 360 milhões de patrimônio. O FoF tocado pelo time de investment solutions, ainda com um patrimônio pequeno, R$ 30 milhões, deu retorno de 7% com volatilidade de 4% no ano passado.

A variável chave para os fundos de investimento internacionais este ano será a inflação global. Esta é a pergunta que está conduzindo o mercado global, a pergunta que vale trilhões de dólares, até porque há um consenso de que não se trata de um choque temporário e a inflação tenha também um componente de demanda, avalia Paulo Clini, chief investment officer da Western Asset Management no Brasil.
O temor dos mercados e dos bancos centrais é de que a inflação contamine as expectativas de médio prazo, levando o Fed a acelerar o ritmo de alta do juro. O risco disso para as bolsas, moedas e para o crédito global preocupa e a perspectiva é de que o juro passe por três ou quatro altas este ano e mais três ou quatro em 2023. “Especula-se ainda sobre a possibilidade de o Fed parar de comprar títulos agora em março para começar a subir juros e passar a vender papéis do Tesouro em meados deste ano para reduzir sua carteira e apertar mais a política monetária”, explica.
A visão dominante é de um Fed atrasado, correndo atrás do prejuízo seja pela alta do juro ou pela redução do seu balanço, o que afetaria fortemente as variáveis de crédito e a precificação de todos os ativos, mas o cenário com que a asset trabalha “vai mais devagar com o andor”, diz Clini. “A inflação baixa anterior à pandemia tinha alguns componentes que ainda estão presentes e é preciso cuidado antes de concluir que ela agora passou a ser permanente”, pondera. Ele lembra que não haverá boom de demanda na Europa e nos EUA este ano, e também não é líquido e certo que todo o aperto monetário previsto pelo mercado seja concretizado.
“Na nossa visão, o cenário ainda é propício para os ativos de risco porque acreditamos que o Fed subirá o juro em março mas não na medida que o mercado espera. Se a taxa nominal ficar em 2%, o juro não matará a economia porque o juro real de equilíbrio ainda será baixo, uma visão que é essencial para as decisões de investimento”, afirma.
Com uma gama grande de fundos no exterior, que inclui desde renda fixa até equities mais agressivos, algumas estratégias mais localizadas e small caps, entre outras, a casa está lançando agora um fundo ESG. Ao todo são mais de R$ 9 bilhões sob gestão em exterior, com veículos locais e feeders. “Essa grade tem sido ampliada de maneira consistente a cada dois ou três meses. Os fundos com hedge cambial predominam mas tendemos a oferecer as duas opções em diversas estratégias embora o ideal seja ter exposição cambial para garantir correlação negativa”, diz.
A gestora também ampliou o leque na renda fixa, com ênfase para os fundos de crédito. O seu estoque é mais ligado ao mercado americano mas tem adicionado também fundos globais. “A palavra de ordem é buscar produtos que tragam diversificação e o exterior é o que traz mais atrativos nessa direção, diz Maurício Lima, superintendente de produtos da asset. Ele cita o fundo multimercado macro de retorno absoluto, que tem R$ 1 bilhão aqui e US$ 15 bilhões lá fora, e um fundo de BDRs que tem R$ 4,5 bilhões e busca variação cambial mais 4,5% ao ano, com 100% de exposição cambial.
A diversidade setorial é capturada pelas estratégias, diz Lima, com destaque para as empresas de tecnologia. “A equipe procura sub-segmentar a análise das empresas para não ficar limitada às gigantes desse setor”. Empresas como a Texas Instruments e a NVidia, que produz chips para videogames e veículos autônomos, são alguns dos papéis interessantes para a carteira, assim como a Microsoft que está entrando na área de assinatura de serviços os cases de indústrias farmacêuticas que estão desenvolvendo patentes de longo prazo.