Março de 2020 foi o segundo pior mês da história do Ibovespa

A crise econômica instaurada por conta da disseminação do novo coronavírus fez com que março de 2020 entrasse para a história como o 2º pior mês do Ibovespa (ver listagem abaixo). É o que aponta um levantamento realizado pelo buscador de investimentos Yubb. No último mês, a bolsa de valores teve seis circuit breakers, sendo o último em 16/03, quando o Ibovespa chegou a cair 13,92%.
"Março foi o pior mês desde 1998, superando até o pior momento da crise de 2008: bateu o recorde de circuit breakers em um único mês e nenhuma ação do Ibovespa fechou no positivo", comenta Bernardo Pascowitch, fundador do Yubb. "Apesar do mês negativo, no recorte das semanas houve uma curva de recuperação, os últimos dias de março não foram os piores do mês. E a gente tende a viver este período de volatilidade, principalmente enquanto não houver uma vacina ou um tratamento que contenha a pandemia do coronavírus".

Ranking dos piores meses do Ibovespa:
1º- Ago/1998: Crise russa (-39,55%)
2º- Mar/2020: Coronavírus (-29,90%)
3º- Out/2008: Crise do subprime (-24,80%)
4º- Out/1997: Crise asiática (-23,83%)
5º- Dez/1998: Crise russa (-21,40%)
6º- Ago/1997: Crise asiática (-17,58%)
7º- Set/2001: Ataques terroristas (-17,17%)
8º- Set/2002: Crise argentina (-16,95%)
9º- Fev/1995: Crise mexicana (-15,81%)

Na contramão da crise, Comgás valoriza 24,94% no 1º trimestre

As ações da Comgás encerraram o primeiro trimestre de 2020 com uma valorização de 24,94%, a maior dentre as 281 empresas da bolsa. A performance pode ser considerada uma façanha tendo em vista a queda de 36,86% do Ibovespa no período, a maior já registrada em um período de três meses desde 1968. Até então a maior queda (-36,25%) havia sido no terceiro trimestre de 1986. Apenas no mês de março, a desvalorização do benchmark foi de 29,91%, a quarta maior da série histórica. A maior baixa mensal do índice, de 56,17%, foi em março de 1990.

Além da Comgás, somente outras três ações encerraram o primeiro trimestre do ano em campo positivo - Telefônica (5,11%), Biosev (2,47%) e João Fortes (1,89%). A Economatica considerou apenas as ações com volume médio diário de negociação superior a R$ 1 milhão. Na outra ponta, as ações da Dommo, com um tombo de 78,84%, lideram as perdas da bolsa nos três primeiros meses de 2020. Em seguida aparecem as ações da PPLA (-78,50%), do IRB (-75,15%) e da CVC (-74,66%).

Já o dólar, cotado a R$ 5,1987, teve uma apreciação frente ao real de 28,98% no primeiro trimestre do ano, a terceira maior alta triemstral desde o início do Plano Real - a maior foi no primeiro trimestre de 1999, quando a moeda americana disparou 42,47%.

Valor de mercado - As empresas brasileiras de capital aberto tiveram uma perda de valor de mercado da ordem de R$ 1,56 trilhão de janeiro a março, o que corresponde a cerca de 1/3 do total do volume de aproximadamente R$ 4,5 trilhões das companhias com ações na bolsa local, segundo o levantamento da Economatica. A maior parte das perdas se concentrou no mês de março (R$ 1,18 trilhão).

Com uma baixa de R$ 223,6 bilhões, para R$ 183,6 bilhões, a Petrobras liderou as perdas de valor de mercado na Bovespa. Na sequência aparece o Bradesco, com uma redução de R$ 123,1 bilhões em seu valor de mercado, para R$ 158,9 bilhões e o Itaú, que perde R$ 116,2 bilhões no período, passando a valer R$ 220 bilhões.

MPF solicita devolução de R$ 5,3 bilhões à Petros e Funcef no caso do FIP Florestal

A Força-Tarefa Greenfield do Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação de improbidade administrativa contra 16 pessoas e as empresas Millar Importação e Exportação, Ribeiro Tristão Comissaria de Café e JR-M Participações, por fraudes bilionárias contra participantes dos fundos de pensão Funcef e Petros. O MPF pede a condenação por improbidade administrativa e o ressarcimento integral dos danos causados aos fundos de pensão. Além da condenação e da restituição do prejuízo, os procuradores reivindicam o pagamento do triplo dos danos causados, bem como a reparação sobre o valor das propinas envolvidas. Caso condenados, os acusados terão que arcar com quase R$ 5,3 bilhões em multas e reparação de danos. O documento enviado à Justiça conta com algumas informações de colaborações premiadas, entre elas a de Joesley Batista.

Segundo o MPF, o esquema foi articulado entre 2009 e 2015, em meio a aportes de capital dos fundos de pensão no FIP Florestal – cujos principais participantes eram Joesley Batista e Mário Celso Lopes, além das entidades previdenciárias. Posteriormente, houve uma negociação para que a Florestal S/A fosse incorporada pela Eldorado S/A, também pertencente aos dois empresários citados. As manobras foram autorizadas pelos gestores dos fundos, em flagrante benefício a Joesley e Mário Celso, destaca o ministério público.

A força-tarefa relata que os ex-executivos da Petros e da Funcef concordaram que fossem aportadas cifras milionárias no FIP Florestal, sem observarem deveres de diligência e análise de riscos. As medidas adotadas receberam como “incentivos” pagamentos de propinas efetuados por Joesley, aponta o MPF, complementando que foi verificada ainda a utilização de laudos elaborados de forma fraudulenta por empresa diretamente vinculada ao capital da Florestal, superestimando o valor da produtora de celulose. “Tal manobra facilitou a autorização dos investimentos que, à época, ultrapassaram a marca de meio bilhão de reais”.

Os procuradores consideram o processo que culminou com a incorporação da Florestal pela Eldorado – apenas pouco mais de um ano depois dos aportes – ainda mais grave. Os empresários beneficiados arquitetaram a supervalorização da Eldorado (que pertencia só a eles) por meio de nova e fraudulenta avaliação econômica. O processo, que também contou com pagamento de vantagens indevidas, tinha o objetivo de diluir a participação das entidades de previdência após a incorporação. Com isso, os fundos de pensão terminaram, após o processo de reestruturação, com menos ações da companhia do que fariam jus se fosse respeitado o valor justo de mercado.

O esquema proporcionou a Joesley Batista e a Mário Celso “o controle de uma nova grande empresa sem precisar ter realizado o investimento condizente com o valor de tal empreendimento. Com a fusão, foi possível obter, junto ao FGTS e Caixa (entre outros bancos), financiamentos e empréstimos que permitiram alavancar ainda mais o valor da Eldorado, hoje uma das líderes do mercado de celulose no Brasil”.

 

Fundos de investimento têm captação líquida de R$ 11,9 bilhões em março até dia 20

Os fundos de investimento registraram captação líquida de R$ 11,9 bilhões entre os dias 1º e 20 de março, de acordo com estatísticas da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais(Anbima). O destaque é a classe de FIDCs, com ingressos líquidos de R$ 7,5 bilhões, seguida pelas ações, com entradas de R$ 5,8 bilhões. Já os fundos de renda fixa tiveram resgates da ordem de R$ 5,3 bilhões, enquanto os multimercados perderam R$ 3,6 bilhões. No ano, até 20 de março, a captação líquida acumulada da indústria de fundos chega a R$ 49,6 bilhões. Os fundos de ações lideram as entradas com R$ 42,8 bilhões; na ponta contrária aparecem os fundos de renda fixa, com saída de R$ 26,1 bilhões.

Ex-diretor do BC projeta queda de 1% no PIB deste ano e 4% em 2021

Reinaldo LeGrazieCompleta incerteza e uma enorme falta de liquidez, no Brasil e no mundo, são os principais motivos pelos quais as bolsas de valores desabaram nos últimos dois meses, desde que a pandemia do coronavirus começou a ganhar corpo na China. Ao final de janeiro o Ibovespa estava em 119 mil pontos, levando os investidores mais otimistas a falarem que a barreira dos 120 mil pontos seria rompida facilmente e que o mercado iria testar então a barreira os 130 mil.

A realidade mostrou-se bem diferente, com o Ibovespa mergulhando desde então e atingindo a marca de 63,5 mil pontos em 23/03, ganhando alguma tração a partir dai (fechou em 69,7 mil pontos em 24/4/03) mas ainda longe de sinalizar uma tendência clara de recuperação. Segundo o ex-diretor de política monetária do Banco Central e sócio da gestora Panambi, Reinaldo Le Grazie, os dois elementos que fizeram as bolsas caírem, que são a incerteza e a absoluta falta de liquidez, se mantém em cena.

O ex-diretor do BC projeta um Produto Interno Bruto (PIB) negativo para este ano, na faixa de menos 1%, que deverá ser compensado com um crescimento de 4% a 5% em 2021. Segundo le Grazie, o crescimento do ano que vem é meramente estatístico, explicando que o que deixa de ser entregue neste ano por conta da crise será entregue no ano que vem. Ele avalia que os segmentos mais afetados pela queda do PIB neste ano serão, principalmente, o comércio e a atividade imobiliária. Mas esses dois segmentos serão, também, os primeiros a se recuperarem em 2021.

A falta de liquidez que prejudica as bolsas também está afetando o mercado de títulos, que passa a oferecer taxas mais interessantes tanto em títulos privados quanto públicos. O problema é que poucos investidores possuem hoje liquidez para aproveitar essas oportunidades. “Tem alguns fundos de crédito comprando, mas não muito pois eles também foram pressionados por movimentos de resgate”, explica o ex-diretor do BC.

Em relação ao câmbio, que bateu em R$ 5,10 por dólar em 24/03 e operava em baixa na manhã de hoje (25/03), le Grazie avalia que acima de R$ 5,00 por dólar o câmbio está barato e haverá demanda. Segundo ele, aversão ao risco e conta corrente ruim são os dois motivos que explicam a escalada do câmbio e a ultrapassagem da barreira dos R$ 5,00.

Anbima altera composição do IMA-B com redução da duration

acessando mercados1A carteira teórica do IMA-B, índice de títulos públicos atrelados à inflação calculado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, reduziu a participação dos papéis de prazos mais longos em seu rebalanceamento na semana passada. O indicador e seus subíndices passam por ajustes mensais das carteiras, incorporando as alterações de estoque da dívida pública interna, para garantir suas representatividades.

Segundo a associação, a diminuição do peso dos papéis de maiores prazos nas carteiras resulta, em grande parte, das oscilações recentes nos retornos desses títulos. Em março, até o dia 16, o IMA-B 5, que acompanha os papéis até cinco anos, apresentou queda de 1,22%, enquanto o IMA-B 5+, que reflete os títulos com vencimentos acima de cinco anos, perdeu 9,84%.

Como o rebalanceamento leva em conta a quantidade de cada tipo de papel no mercado e seu preço, em março, todos aqueles com vencimentos a partir de 2035 perderam peso no índice, na comparação a fevereiro, com destaque para a NTN-B 2050, que teve sua parcela reduzida em 1,65%. Já a NTN-B com vencimento em 2025 representou o maior aumento de peso dos índices IMA-B 5 e IMA-B 5 P2 (que também reflete os ativos até cinco anos, porém com controle de prazo).

Como consequência das alterações, a duration do IMA-B sofreu redução, passando de 8,83 anos, em 18 de fevereiro de 2020, primeiro dia de vigência da carteira teórica do mês anterior, para 7,97 anos em 17 de março.

A tempestade após a bonança | Mercado acionário passa por maior realização da década. Gestores tentam manter a calma e algum otimismo diante das incertezas sobre o coronavírus

Maio de 2017 tinha sido, até a recente crise do coronavírus, a última vez em que a bolsa brasileira havia acionado o ‘circuit breaker’, que é quando as negociações são paralisadas temporariamente após uma queda do Ibovespa superior aos 10%, em uma tentativa de acalmar os ânimos gerais. O motivo do pânico na ocasião foi o episódio envolvendo o então presidente Michel Temer flagrado em conversas pouco republicanas com o sócio da JBS, Joesley Baptista, nos porões do Palácio do Jaburu.
Na época, os investidores chegaram a ficar temerosos quanto à prometida agenda de reformas caso outro presidente da República sofresse impeachment em menos de um ano. Aos trancos e barrancos Temer manteve-se no posto e fez o que pode para avançar com a reforma liberal na economia, mantida e acelerada no governo Bolsonaro.
Diante da percepção positiva do mercado em relação às mudanças promovidas e prometidas na economia, mesmo com um PIB não crescendo muito mais do que 1% ao ano, até meados de janeiro deste ano a bolsa vinha a cada dia renovando seus recordes e alcançando novas máximas históricas. No dia 23 de janeiro de 2020, o Ibovespa atingiu a sua maior pontuação, de 119,5 mil pontos, o que corresponde a uma alta de 106,4% em relação aos patamares dos 57,9 mil pontos de agosto de 2016, quando do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.
Nesse período de forte valorização a bolsa amealhou uma série de novos investidores, que ficaram órfãos da renda fixa ao ver a taxa Selic desmoronar de 14,25% em outubro de 2016 para 4,25% em fevereiro de 2020. Em outubro do ano passado, eram 1,5 milhão de CPFs inscritos na bolsa, uma alta de 95% em bases anuais.

Com o surgimento e rápida disseminação do coronavírus, e diante das incertezas sobre seu impacto na sociedade e na economia, em um intervalo de uma semana a bolsa teve quatro ‘circuit breakers’, o que nunca havia ocorrido na história do mercado local, sendo dois no mesmo dia, algo só visto antes na crise do ‘subprime’ em 2008. Do patamar máximo alcançado em janeiro de 2020, o Ibovespa teve em pouco mais de um mês uma queda superior aos 40%, voltando para a casa dos 70 mil pontos.
Boa parte dos investidores em bolsa, seja da leva recente que entrou nos últimos meses ou não, ainda não havia presenciado uma realização em magnitude tão intensa. E embora ninguém saiba ainda ao certo como será o país e o mundo quando a nova doença se debelar, gestores profissionais tentam no momento fazer uma leitura otimista do cenário e enxergar o copo meio cheio.
“Nossa leitura atual é de que o coronavírus, além de ser um problema temporário, não irá se alastrar com tanta força no hemisfério sul dada as condições climáticas menos propícias para sua disseminação na região”, diz Pablo Riveroll, gestor responsável pela renda variável na América Latina da Schroders, que fica baseado em Londres.
Por conta dessa leitura relativamente tranquilizadora para o Brasil, a asset tem aumentado sua exposição em ativos de empresas brasileiras de boa qualidade que considera que ficaram baratos após a sangria recente. “Empresas mais voltadas ao exterior, como exportadoras de commodities e companhias aéreas tendem a sofrer mais”, diz Riveroll. “Já as empresas mais voltadas à economia doméstica, dos setores de energia e educação por exemplo, além do varejo eletrônico, tendem a sentir menos o impacto da desaceleração como reflexo do coronavírus”, prevê o gestor, que diz ainda que conta também a favor da compra de ações brasileiras, sob a ótica de um estrangeiro, a forte desvalorização do Real, que já chegou a ultrapassar a marca dos R$ 5. “Por muito tempo o nível do câmbio, e consequentemente dos preços dos ativos no Brasil eram considerados caros por investidores fora do país, mas hoje essa situação mudou”, diz o especialista.
Riveroll ressalta, contudo, que é preciso fazer uma análise apurada para separar o joio do trigo em meio à liquidação de preços. “Na onda de IPOs na bolsa brasileira, por conta do excesso de liquidez de investidores saindo da renda fixa em busca de retorno, tivemos uma série de empresas boas vindo a mercado, mas também algumas não tão boas assim, principalmente no setor financeiro e imobiliário”, afirma o gestor da Schroders.

Segundo Paola Bonoldi, gestora de renda variável do Plural, um fator que pode fazer com que os novos investidores que entraram na bolsa há pouco tempo não se vejam tentados a sair após a forte queda é o simples fato deles não terem mais o refúgio de outrora nos juros com prêmios satisfatórios. “O investidor pessoa física, que começou a comprar ações recentemente, não está acostumado com uma queda tão forte, já que os últimos anos foram de alta da bolsa, e ele precisa tomar muito cuidado para não vender no momento errado”, diz Paola.
Magali Bim, que também atua na gestão de ações do Plural, afirma que a queda do mercado não é condizente com a piora observada, pelo menos até o momento, nos fundamentos das empresas. “Já tivemos outras crises e acredito que vamos superar essa também”, diz ela. “Em ocasiões passadas enfrentamos vírus que até então eram desconhecidos e se tornaram conhecidos, e entendo que o mesmo vai ocorrer com o coronavírus”, afirma a gestora do Plural. Dada a visão otimista, a especialista avalia a queda como uma oportunidade para os fundos de pensão aumentarem seu posicionamento em renda variável.
De toda forma, diante da forte volatilidade que tem dominado os pregões, Magali afirma que fundos de dividendos, pelas características das companhias, que geralmente gozam de um fluxo de caixa mais estável, podem ser uma boa alternativa para o investidor que busca algum tipo de proteção mas não quer sair completamente da bolsa. “No entanto, assim como os fundos de dividendos caem menos que os mercados em ciclos de baixa, nos momentos de alta eles tendem a ficar para trás”, diz a especialista. Para ela, se a onda de IPOs prosseguir aquecida como vinha até antes da eclosão da pandemia, ela servirá como um teste para avaliar o comportamento do investidor pessoa física. “No ano passado, o investidor local sustentou a maior parte das ofertas de ações no mercado, que não teve uma presença relevante dos estrangeiros”, afirma Magali. “Precisamos acompanhar para ver se neste momento o investidor local seguirá comprando as novas ações que vierem a ser lançadas”.
Já o economista Álvaro Frasson, do BTG Pactual digital, adota um tom um pouco mais cauteloso. Segundo ele, tendo em vista a baixa visibilidade do horizonte à frente, o melhor a fazer é aguardar sem grandes movimentações. “No meio de uma tempestade em alto mar não há muitas alternativas ao timoneiro senão esperar a tormenta passar”, escreveu Frasson, em relatório. Ele lembra que o H1N1 em 2009, também conhecido como gripe suína, foi considerada uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde, causou aproximadamente duas mil mortes no Brasil e, mesmo assim, o Ibovespa se recuperou entre três a seis meses. “É compreensível a apreensão dos investidores de primeira viagem, mas vale entender que o mercado financeiro é feito, além de volatilidade, de paciência”, afirma o especialista no relatório do banco, que termina dizendo que passamos por um momento de aprendizado, e que “mar calmo nunca fez bom marinheiro”.

Papéis sob pressão na Bolsa | Juros nas mínimas e o aumento da competição com a chegada das fintechs coloca ações das instituições financeiras sob pressão na Bolsa

Nos últimos anos as ações dos quatro grandes bancos (Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil) foram as meninas dos olhos dos investidores. A alta concentração do mercado nas mãos dessas instituições financeiras – em dezembro de 2018 os quatro, junto com a Caixa, detinham 84,8% das operações de crédito no país – e, até por conta disso, os juros em patamares elevados formavam uma combinação difícil de ser batida. Na última década, foram raras as ocasiões em que as ações de ao menos um desses bancos tenha apresentado um desempenho inferior ao do Ibovespa. Em 2019, no entanto, a coisa começou a mudar de figura – nenhum dos quatro papéis conseguiu fazer frente ao principal benchmark da bolsa [vide a tabela ao lado].
São dois os fatores cruciais que explicam a má performance desses ativos no ano passado e que, tudo indica, deve persistir em 2020; em primeiro lugar, a redução da taxa básica de juros para patamares inéditos, com a Selic atualmente em 4,25% e com apostas no mercado de que pode cair ainda mais um pouco, o que fatalmente irá puxar para baixo também a receita dos bancos oriunda da concessão de crédito aos clientes. Além disso, o surgimento das fintechs e dos bancos digitais com serviços financeiros gratuitos ou de baixo custo, que embora sejam modelos de negócio que ainda precisam se provar, estão colocando em xeque o monopólio bancário que perdurou ao longo das últimas décadas.
Com as perspectivas mais desafiadoras daqui em diante, grandes gestoras de recursos focadas no segmento de renda variável, como Pacífico e Apex Capital, que somam mais de R$ 10 bilhões investidos em ações, optaram por zerar ou reduzir drasticamente sua exposição aos papéis dos bancos. “Estamos com a menor exposição que já tivemos em bancos desde a criação da asset em 2011”, afirma Paulo Weickert, sócio-fundador da Apex. 
Já na Pacífico, a visão é ainda mais cautelosa para o setor. “Tendo em vista as opções que a bolsa apresenta, não vemos motivos para apostar no segmento”, diz o gestor Leonardo Rufino. A Pacífico teve por muito tempo exposição a ativos financeiros, como por meio do Bradesco, Banco do Brasil e Itaúsa, sendo esta terceira a que perdurou por mais tempo no portfólio da casa, de 2012 até abril do ano passado, tendo sido a última ação do segmento na carteira da asset até o momento. “Já fomos muito mais otimistas com o setor”, afirma Rufino. “Com a Selic nas mínimas e o trabalho que o Banco Central (BC) tem desenvolvido para reduzir os juros ao consumidor final, não enxergo a possibilidade dos spreads não caírem, o que inclusive já está ocorrendo”, complementa o especialista.
Para fazer com que a redução da taxa Selic tenha reflexos ao público geral, em novembro do ano passado a autoridade monetária estabeleceu um limite aos juros do cheque especial, que não poderão ultrapassar a faixa de 8% mensais. De acordo com dados do BC, em outubro de 2019 a taxa média do cheque especial alcançou estratosféricos 305,9% ao ano, o que corresponde a 12% ao mês. Com a medida, o juro máximo da modalidade deve ficar ao redor de 150% ao ano.
Diante da atuação do órgão regulador e do surgimento das fintechs, é difícil imaginar que o aumento da competição no setor venha a se reduzir nos próximos anos, diz Rufino. “O ambiente competitivo tende a ficar igual ou pior do que está para os bancos”, afirma. Dentro do setor financeiro, lembra o gestor da Pacífico, não são apenas as ações dos bancos que têm sofrido com o aumento da concorrência frente às novas tecnologias. Os papéis da adquirente Cielo, que em dezembro de 2017 valiam R$ 23,52, desabaram para R$ 8,37 no fim de 2019, um tombo de 64,4%. A empresa se viu pressionada pela chegada de novos players que vieram com fome para disputar espaço nos balcões do varejo com suas maquininhas de pagamento, antes restritas quase que unicamente às da Cielo e da Rede. Dentre as ações do segmento financeiro na bolsa, o gestor da Pacífico aponta as ações da Porto Seguro e da B3 como suas preferidas no momento.

O gestor de renda variável da ARX Investimentos, Alexandre Sant´Anna, aponta ainda mais um fator que não favorece o desempenho das ações bancárias – a saída dos estrangeiros da bolsa brasileira, que até o dia 4 de março já tinham levado embora R$ 44,8 bilhões, o maior valor já registrado em um ano, superando em pouco mais de dois meses todo o montante resgatado em 2019, quando os saques somaram R$ 44,5 bilhões. “Muitos estrangeiros entram no mercado brasileiro através dos benchmarks como o Ibovespa, no qual os bancos ainda têm uma parcela relevante próxima de 30%”, afirma Sant´Anna. “Com essas saídas que temos observado, os papéis com participação importante nos índices acabam sofrendo mais”. Em anos anteriores a ARX chegou a ter uma exposição ao setor bancário superior aos 30% do índice de referência. Hoje, embora não tenha zerado, a posição da gestora em bancos está abaixo do benchmark, próxima de 10% do portfólio, com posições em Itaú, BB e Pan.
E não são apenas as gestoras independentes privadas que estão se desfazendo das ações do setor bancário. A gestão da carteira de renda variável da Caixa mostra que o próprio banco está mais reticente com o desempenho dos pares. No ano passado, esses papéis estiveram entre as principais apostas do banco para tentar tirar proveito da esperada retomada do crescimento econômico. Para 2020, contudo, os bancos perderam espaço no portfólio do banco público, que para este ano tem privilegiado ações relacionadas ao setor de infraestrutura, junto com as de consumo e construção que permaneceram do ano anterior, conta Fabiano Zimmermann, CIO da Caixa.

Weickert da Apex e Sant´Anna da ARX, contudo, compartilham da visão de que embora as perspectivas sejam mais desafiadoras, diante do desempenho recente e caso continuem em queda, logo as ações das instituições financeiras podem voltar a representar uma oportunidade de compra. “É verdade que hoje o investidor enxerga o valor dessas ações sob uma ótica diferente do que via há alguns anos e exige valuations mais atrativos para entrar, mas os bancos ainda são grandes geradores de lucros muito bem administrados e pagam altos dividendos”, diz o sócio da Apex.
Em 2019 os quatro bancos lucraram conjuntamente R$ 81,5 bilhões, o maior valor da história que correspondeu a uma alta de 18% ante 2018. Além disso, eles pagaram no ano passado aproximadamente R$ 58 bilhões aos cotistas a título de dividendos e juros sobre capital próprio, o maior valor da série histórica iniciada em 2008 e um crescimento de 56,5% na comparação com 2018. Ou seja, embora o cenário não seja mais tão positivo como outrora, eles mostram que ainda tem bastante lenha para queimar.
Sinal da força das instituições financeiras para enfrentar os novos tempos veio com a compra, em maio de 2017, de uma fatia de 49,9% da XP pelo Itaú por R$ 5,7 bilhões. No entanto, ao tentar costurar um acordo para elevar sua fatia e assumir o controle da corretora, o banco viu suas intenções serem podadas pelo Banco Central. “Conforme as novas casas do setor financeiro comecem a ganhar escala, se tornando players relevantes do mercado, é cada vez mais provável que o órgão regulador impeça a consolidação por parte dos grandes bancos”, afirma Weickert.

CDI com os dias contados | Com a Selic no piso histórico, o tradicional índice de referência para fundos de renda fixa e multimercados deve começar a perder espaço

Segundo José Perri, da Quasar Asset, a tendência é que com o tempo o mercado brasileiro comece a se aproximar de práticas já estabelecidas em praças mais desenvolvidas, com curvas de juros distintas que levam em conta o rating e o prazoNos últimos meses se tornou comum ouvir gestores e investidores alardeando que conseguiram rentabilizar a carteira em 150%, 200% ou até 300% do CDI. Não se trata, contudo, do surgimento repentino de uma série de gênios das finanças que estão conseguindo auferir retornos fora dos padrões normais de pressão e temperatura. Quando a Selic estava em 14,25%, era difícil, ou inexistente, os casos de retornos em termos percentuais do CDI nesses patamares. Tendo a taxa de juros caído para 4,25%, ficou mais fácil, e conveniente, para os agentes de mercado propagandear esse tipo de retorno.
Essa, no entanto, é uma situação que não deve perdurar por muito tempo. Diante do atual patamar da taxa de juros, especialistas do mercado acreditam que novos benchmarks que não mais o CDI devem começar a surgir para servir como balizadores mais fidedignos do desempenho das carteiras de crédito privado e multimercados.
Segundo José Perri, diretor de riscos da Quasar Asset Management, gestora com o foco exclusivo no mercado de crédito, a tendência é que com o tempo o mercado brasileiro comece a se aproximar de práticas já estabelecidas em praças mais desenvolvidas. “No mercado americano existem curvas de juros distintas que levam em conta o rating e o prazo da emissão, o que facilita bastante na comparação entre ativos com características similares”, afirma Perri, que reconhece que ainda falta profundidade ao mercado local para que tenhamos sofisticações nesse nível.
No mercado brasileiro, a Anbima tem o IDA, índice de referência para o mercado de debêntures, mas que abarca uma gama muito ampla de títulos, colocando no mesmo barco as debêntures tradicionais e aquelas emitidas por empresas de infraestrutura com incentivo tributário. “Isso acaba gerando uma certa distorção da curva de debêntures da Anbima, já que os spreads das debêntures incentivadas via de regra são um pouco menores pelo incentivo tributário”, afirma Perri. Procurada, a Anbima não se manifestou.
O diretor da Quasar tem participado de um grupo de trabalho da B3 que tem discutido a criação de novos benchmarks para o segmento de crédito privado. “A B3 está trabalhando em diversas iniciativas com o objetivo de desenvolver o mercado de renda fixa privada, estimulando a liquidez do mercado secundário”, afirma Fábio Zenaro, diretor de produtos de balcão, commodities e novos negócios da B3. “Uma delas é a criação de uma família de índices de debêntures que, além da possibilidade de se tornarem benchmark, potencialmente poderão referenciar produtos listados como contratos futuros, contratos de opções e ETFs”, diz Zenaro, acrescentando que ainda não há uma previsão sobre o lançamento dos novos índices.
Segundo o diretor da B3, os títulos privados terão papel cada vez mais relevante para financiar o crescimento das empresas no Brasil. “Por isso, iniciativas que estimulem o aumento de negócios neste mercado serão extremamente importantes, tanto para que mais empresas optem por essa forma de financiamento, quanto para que mais investidores escolham a renda fixa privada para diversificar suas carteiras,”, afirma o executivo.
Segundo o consultor da Aditus, Guilherme Benites, emissões que se propõem a entregar um retorno percentual do CDI não estão mais sendo bem aceitas pelos investidores, e em muitos casos sequer tem sucesso em sua colocação no mercado.
“O que tem sido mais comum agora são emissões privadas que oferecem o CDI ou o IPCA mais um percentual de juros”, afirma o especialista. De acordo com o consultor, quando se tratam de títulos com ratings triplo A, os juros oscilam ao redor dos 0,6%. “Ao descer um pouco na qualidade do ativo, essa remuneração pode até dobrar”, afirma Benites.
“Um ponto que pode favorecer com que os gestores de crédito não se vejam forçados a rapidamente ter de adotar novos benchmarks é o fato de a demanda por esses ativos ainda estar muito alta e bem maior do que a oferta”, afirma Ricardo Valente, sócio da Investment One Partners.

Queda do Ibovespa no acumulado de 2020 é a maior desde 1968

A queda de 42,16% do Ibovespa em 2020, até 18 de março, é a maior desde 1968, quando o benchmark registrou um tombo de 44,42%, de acordo com dados compilados pela Economatica. 

Ainda segundo o levantamento, as empresas brasileiras de capital aberto já perderam R$ 1,8 trilhão no ano. Considerado apenas o dia 18 de março, quando o Ibovespa caiu 10,35%, aos 66,8 mil pontos, retornando aos patamares de agosto de 2017, a perda de valor de mercado das empresas foi de R$ 304,4 bilhões, o que corresponde a quarta maior queda nominal em um único dia (as outras três foram todas registradas em março de 2020).

A Petrobras acumula uma queda de R$ 261,7 bilhões no ano de 2020 e lidera as baixas da bolsa no período. Na sequência aparecem Bradesco (R$ 123,9 bilhões) e Itaú (R$ 116,1 bilhões).