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Assets apostam em inovação
Investimentos em tecnologias de ponta, como inteligência artificial e computação quântica, ditarão os rumos do mercado de gestão de recursos

Há dois anos, a consultoria Price Waterhouse Coopers (PwC) apresentou, no relatório “Asset and wealth revolution: Embrace exponential change”, duas previsões relevantes sobre o segmento global de gestão de recursos – uma auspiciosa, outra preocupante. A primeira referia-se à estimativa de um robusto crescimento de 71,26%, para a casa de US$ 145,4 trilhões, do total de recursos sob a guarda das gestoras entre 2016 e 2025. Já o prognóstico seguinte sinalizava que o montante em questão estaria aos cuidados de um número menor de assets, como resultado de um processo de concentração ditado, sobretudo, por investimentos em tecnologia capazes de viabilizar sensíveis reduções nos custos operacionais das instituições. “A tecnologia será vital em todo o negócio. Dessa forma, a indústria encontrará novas oportunidades para criar alfa e restaurar as suas margens”, vaticinou a PwC.
Não por acaso, portanto, a inovação e os profissionais com experiência nessa área estão em alta entre as gigantes do setor. Em dezembro último, a norte-americana BlackRock, a maior gestora do planeta, anunciou uma parceria com a Microsoft para o desenvolvimento de produtos de previdência. Um mês antes, a Fidelity Investments havia nomeadoSteve Neff, ex-titular da área de tecnologia e serviços globais, como sucessor de Charlie Morrison no comando da divisão de asset management. A gestora de Boston seguiu, dessa forma, o exemplo do Santander, que há um ano indicou Mariano Belinky, ex-chefe do Santander InnoVentures, fundo de venture capital lastreado em participações em fintechs de ponta, para o posto de CEO global da sua asset.
“O mercado internacional de gestão de recursos vai mudar radicalmente nos próximos dez anos, assim como o perfil dos profissionais da área. Os analistas estrangeiros, por exemplo, já incorporam a inteligência artificial às suas rotinas de trabalho”, comenta Guilherme Horn, líder de inovação da consultoria Accenture e mentor, em 2011, do Órama, o primeiro banco brasileiro 100% digital.
Durante sete meses, na virada da década, Horn frequentou o Fidelity Labs, o centro de inovação da asset homônima, que soma, ao longo de 14 anos de atividades, mais de cem patentes registradas. A experiência, que serviu de inspiração para a criação do Órama, o colocou em contato com duas tecnologias que ditarão rumos no setor: a já mencionada inteligência artificial, que consiste em máquinas e sistemas capazes de assimilar conhecimentos, e a sofisticada computação quântica, contraindicada para a solução de problemas simples, mas ideal para o cálculo quase instantâneo de probabilidades em patamares elevadíssimos.
No Brasil, segundo Horn, a transição tecnológica das gestoras será mais lenta, em razão da menor escala do mercado local. “As assets dos grandes bancos locais, no entanto, já estão atentas a essas tendências, até porque contam, em suas organizações, com técnicos e executivos que conhecem inteligência artificial”, diz o consultor. “Já as independentes terão de se mexer rapidamente, se quiserem permanecer no mercado a médio prazo. Um bom exemplo nesse grupo é o da Trilha Investimentos, uma das raras gestoras do país que já utilizam inteligência artificial em produtos.”
A Bradesco Asset Management (Bram), a maior gestora privada do país, com R$ 687,33 bilhões under management em outubro, se preparou para o desafio. Além de dispor da estrutura do Grupo Bradesco em tecnologia e inovação, a instituição conta, já há três anos, com uma equipe exclusiva de pesquisa e desenvolvimento (P&D) formada por quatro profissionais com mestrados na área de ciências exatas e que já reuniam, anteriormente, alguma experiência nos mercados financeiro e de capitais. O quarteto foi o responsável, entre outros projetos, pelo desenvolvimento dos algoritmos utilizados pela linha Alocação, composta por três fundos de investimento multimercados lançados no ano passado. “Teremos novidades em breve na família Alocação. Há outro multimercado no forno”, diz o head de produtos Ricardo Eleutério.
Ancoradas em longas séries históricas de diversos ativos, as “fórmulas digitais” criadas pelo time de P&D da Bram permitem cálculos mais precisos e balanceados do retorno de cada classe de investimento. A redução da interferência humana no processo, como observa o gestor de renda variável Marcelo Nantes, resulta em um nível menor de oscilação nas carteiras. “Fundos que seguem esse padrão dificilmente superam o CDI por larga margem. Em compensação, apresentam índices de volatilidade inferiores aos de produtos convencionais”, explica.
A rotina da equipe de P&D e dos executivos da casa inclui o acompanhamento constante de inovações na seara internacional. No momento, as suas atenções estão centradas em uma vertente explorada já há algum tempo no exterior, em especial nos Estados Unidos, mas ainda incipiente no Brasil. São os fundos quantitativos, que identificam padrões de ganhos e perdas e executam, de forma ininterrupta, ordens de compra e venda em frações de segundo. “Já estamos trabalhando em produtos do gênero; alguns estão mais avançados, outros ainda se encontram em estágio embrionário. Não há, no entanto, previsões de lançamento traçadas.”
Na SRM, asset especializada em fundos de investimentos creditórios (FDICs) que contabiliza ativos de R$ 1,6 bilhão, os algoritmos vêm sendo utilizados de forma ainda mais intensiva. Baseada nessa tecnologia, a gestora lançou, em novembro de 2017, a plataforma digital TrustHub, que garante crédito a micro e pequenos tomadores em prazos de duas horas. “São cerca de 300 novos cadastros a cada dia. Seria simplesmente impossível fazer frente a essa demanda sem recursos digitais de ponta”, assinala o diretor Fábio Ohara.
A tarefa foi cumprida com a decisiva ajuda da equipe de ciências de dados da SRM, composta por 15 especialistas. As metodologias de análise desenvolvidas sob medida para a TrustHub dão origem a uma série de relatórios e informações que são, inclusive, conferidos atentamente pela área de fundos da asset. “Graças a esse trabalho, conseguimos antecipar tendências de alta e baixa em praticamente todos os setores da economia”, comenta Ohara. “Em maio do ano passado, por exemplo, detectamos com boa antecedência os efeitos recessivos causados pela greve nacional dos caminhoneiros. Um dos principais indicadores que nos chamaram a atenção à época foi o rápido e expressivo crescimento de duplicatas em atraso.”
Criada há dois anos, a Trust, responsável pela operação da plataforma digital de crédito, proporcionou outros ganhos, e não apenas para a sua controladora. Contrariando a tese de que todo e qualquer investimento em automação de processos causa corte de empregos, a fintech gerou 350 postos de trabalho ao viabilizar a exploração de um novo nicho de negócios. De quebra, vem abastecendo os FDICs da casa – que operam exclusivamente com títulos gerados por outras operações de financiamento próprias – com um fluxo constante de novos papéis. “Já estamos pensando até em criar fundos lastreados em títulos emitidos por profissionais liberais, cabeleireiros e outros micro e pequenos empresários”, diz Ohara, que considera improvável a hipótese de desemprego em massa no ramo de investimentos devido à introdução de tecnologias de ponta. “Fundos quantitativos, tudo indica, são uma das tendências irreversíveis, mas muitos investidores torcem o nariz para essas opções. Pessoalmente, não acredito que robôs sejam capazes de ganhar mais dinheiro do que mentes brilhantes.”

Automatização total – Já a Mauá Capital, com ativos de R$ 6,5 bilhões, bebeu diretamente em fontes do Vale do Silício, o maior polo de inovação do planeta, para guiar seus passos na área. Há pouco mais de três anos, Luiz Fernando Figueiredo, sócio-fundador e CEO da asset, participou, nos Estados Unidos, de um extenso seminário (na Singularity University, ONG californiana patrocinada por Google, IBM e SAP, entre outros gigantes da tecnologia). “O evento foi um choque disruptivo. Ao final de quatro jornadas, com programações diárias de 16 horas, percebi que, a menos que me mexesse, a Mauá ficaria obsoleta em alguns anos”, diz ele.
Em busca de mais subsídios para redesenhar o seu negócio, Figueiredo embarcou, tempos depois, para Nova York. Lá, o empresário assistiu a um seminário promovido pelo JP Morgan para CEOs de assets internacionais e teve ainda a oportunidade conferir as tendências do setor no mercado norte-americano em visitas a 20 gestoras de atuação global. “Depois dessas andanças e outras tantas pesquisas, apresentei, no segundo semestre de 2017, uma proposta de ação aos meus sócios. O objetivo era impedir a obsolescência da Mauá”, conta o CEO.
O carro-chefe do projeto é o Mauá Lab, formado por cinco experts em ciência da computação chefiados pelo físico Alexsander Jacob, ex-Itaú-BBA, que antes de ser contratado pela Mauá estava prestes a se tornar professor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Ele e a sua equipe têm como missão prioritária aperfeiçoar todas as rotinas de trabalho e a infraestrutura da empresa, leque que contempla de controles internos e procedimentos de formatação de preços à otimização do uso de softwares e hardwares. “Não queremos reinventar a roda. A meta estabelecida para o Mauá Lab é permitir que tudo seja feito em nossa instituição da forma a mais eficiente possível, com a utilização de tecnologias digitais”, diz Figueiredo.
No dia a dia, o time de Jacob já contribuiu, entre outras novidades, com o Boletador Mauá, uma ferramenta de controle de confirmação de ordens do mercado de balcão de operações de câmbio (FX) e com títulos públicos federais (TPF), e o BPM Mauá, que mapeia, acompanha e controla processos de forma automatizada. O primeiro proporcionou uma redução de mais 50% no tempo gasto nas operações, além de uma sensível redução de erros processuais. Já o BPM, ainda em implantação, vem contribuindo para a uniformização das atividades, sinalizando com ganhos de escala em processos antes executados de forma 100% manual.
“Neste ano, pretendemos automatizar todas as nossas atividades, inclusive modelagens de ativos e análises de risco, e dar sequência à colocação de nossos bancos de dados na nuvem”, relata o CEO, que descarta enxugamentos no quadro de pessoal da asset com o avanço da informatização no plano interno. “Não pretendemos cortar empregos, e sim permitir que nosso pessoal faça mais e se dedique a outras atividades de maior valor agregado. A equipe de gestão de riscos, por exemplo, terá de dedicar 50% de seu tempo de trabalho à inteligência de riscos”, comenta Figueiredo, referindo-se à detecção e prevenção de potenciais ameaças.