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Análise sob medida
Começa a tomar forma um mercado formado por empresas independentes voltadas a oferecer research ao mercado de investidores profissionais

A incorporação da Consultoria Lopes Filho pela Eleven Financial Research, na segunda semana de abril, lança uma luz sobre o crescimento dessas casas de análises dedicadas à prestar serviços ao mercado de investimentos. A incorporação aumentou o portfólio da Eleven de 70 clientes institucionais para 228, consolidando a casa como a maior do segmento.
Outras casas, como a novata InvestMind e a veterana XP Investimentos, que recentemente passou a contar com um departamento específico de research, também estão traçando planos para crescer no mercado de institucionais e estão concentrando seus esforços em compor equipes especializadas.
Segundo o estrategista-chefe da Eleven, Adeodato Volpi Netto, o processo de negociação com a Lopes Filho durou cerca de nove meses. O casamento foi natural, uma vez que ambas as casas tem foco no cliente institucional. “A Eleven vinha crescendo em fundos de pensão, que é o coração da operação da Lopes Filho. A decisão foi tomada porque vimos a demanda pulsar nesse mercado”, explicou Volpi Netto.
Segundo ele, com a queda dos juros internos o mercado de clientes institucionais está sendo forçado a tomar riscos adicionais a fim de cumprir as metas atuariais, demandando mais serviços de análises sobre estratégias alternativas que possam trazer os retornos esperados.
Andréa Jurse, diretora comercial da Eleven, observa que embora algumas casas já atuem com investidores institucionais, o mercado de research independente ainda é embrionário no Brasil. Os grandes investidores institucionais brasileiros ainda contam com os researchs de bancos, serviços que, em geral, não são individualmente cobrados, mas fazem parte de um pacote mais amplo de produtos e serviços pagos pelos clientes (já para os de menor porte, o acesso é mais restrito).
Nos Estados Unidos e países europeus ocorre o contrário, cerca de 70% da receita das casas de análise provém de investidores institucionais. “Lá, o mercado é muito consolidado”, diz Andrea. Há razões recentes para isso. Uma dela é uma nova diretiva da União Europeia para os mercados financeiros, conhecida pela sigla em inglês MiFID II. Adotada em 2018, a nova norma proíbe a distribuição gratuita de relatórios de análise feitos por bancos e corretoras aos seus clientes que utilizam os demais serviços. Na prática, a decisão acirrou a concorrência com as casas de análise independentes, uma vez que os clientes passaram a ter que pagar pelos researchs.
“Era uma estrutura remunerada por outras estruturas dos bancos de investimentos, uma prática que gerava muito viés de análise”, diz Andrea. Ela observa que, no mercado internacional, o crescimento de researchs independentes já é uma realidade e vem ganhando terreno junto aos investidores institucionais.
Criada em 2015, a Eleven acompanha hoje cerca de 130 empresas e tem mais de 200 no radar, mesmo aquelas com menor liquidez e porte. Também está autorizada pela Comissão de Valores Mobilários (CVM) a emitir parecer sobre IPOs, já que não participa de ofertas públicas. A empresa produz análises sobre renda fixa, variável, fundos de investimentos e imobiliários, além de relatórios sobre conjuntura econômica nacional e internacional. A interlocução com os clientes é multimídia, incluindo relatórios, call, vídeo, palestras, reuniões.

Plataforma – A InvestMind, surgiu no ano passado como a primeira plataforma de conteúdo da América Latina exclusivamente para investidores institucionais. “Como somos uma plataforma, não competimos com as demais casas do mercado. Se elas quiserem publicar seus researchs na nossa plataforma, não tem o menor problema”, disse Roberto Attuch Jr, CEO e criador da InvestMind.
O modelo é simples. A plataforma tem analistas cadastrados que oferecem relatórios de forma independente. Os temas são escolhidos pelos profissionais ou demandados pelos clientes, que são exclusivamente investidores institucionais. Em linhas gerais, os profissionais são remunerados pelo que vendem e os clientes pagam pelo que compram.
“Nosso negócio é conteúdo. Somos como a Netflix. Temos produção própria, mas oferecemos também a produção de terceiros. As demais casas e corretoras podem utilizar nossa plataforma”, disse Attuch, que traz no currículo a experiência de executivo do banco Garantia e de quase duas décadas atuando na área de pesquisa em bancos estrangeiros como Credit Suisse e Barclay’s. Ele também atua como curador de conteúdo da plataforma, definindo as regras de edição e avaliando os relatórios e a performance dos profissionais.
A política de edição contempla a obrigatoriedade de se separar opinião de fato, uso de linguagem ponderada e detalhamento da metodologia usada na análise. Um ponto importante: é proibido prometer retorno dos investimentos. Não há leitura prévia dos relatórios divulgados, mas a política de edição prevê sanções para quem não cumpre as regras determinadas. “Todos os meus clientes avaliam o que é publicado com uma nota de um a cinco”, diz.
Segundo ele, a facilidade de acesso e a multiplicidade de avaliações são os pontos positivos, sobretudo para os clientes de menor porte que não contam com equipes de analistas. Entre as principais demandas recentes, estão estudos sobre o mercado de cartões e de meios de pagamentos.
Para Attuch, qualquer pessoa com conhecimento de qualidade pode incluir seus researchs na plataforma, passando pelo crivo de compliance. “Hoje, cerca de 90%, ou até mais, do conhecimento gerado no mercado financeiro está num raio de menos de 1 km na Faria Lima. É gente que pensa exatamente igual. Será que não tem gente no Rio de Janeiro, em Cuiabá, Porto Alegre, em Paris, Cidade do México, Londres que possa trazer seu conhecimento, sua visão?
Há dois tipos de contratos, um de assinatura mensal, onde o cliente tem acesso a todo o conteúdo da plataforma, e outro de produção sob demanda, tailor made. A InvestMind conta com um time de mais de 40 analistas, nacionais e no exterior, que produzem relatórios macroeconômicos, de commodities (grãos, café, petróleo, açúcar, etanol), agenda de indicadores, renda variável, renda fixa, fundos, análise política e internacional, além de relatórios sobre empresas.

Time de research – A XP Investimentos, que no ano passado recebeu o aval do Banco Central para se tornar um banco múltiplo, recentemente investiu em um time de research voltado, também, para subsidiar decisões de gestores de institucionais. Tendo à frente Karel Luketic, estrategista que traz no currículo 10 anos no Bank of America Merrill Lynch, o time da XP é composto por profissionais vindos de grandes bancos. Sua entrada no jogo acirrou a competição no mercado que vem sendo ocupado pelas casas independentes.
“A XP se destacou por meio de seu time especializado em macroeconomia e política. Temos um time diferente que se esforça por pensar fora da caixa e que entende a demanda do cliente, porque o valor vem por meio da geração de ideias. Focamos nas melhores ideias do momento e trabalhamos com grandes estratégias.”, diz Luketic. Ou seja, dado um determinado cenário econômico e político, os relatórios apontam setores e ações que potencialmente serão mais beneficiadas. Mas nesse mundo digital e multimídia, há também espaço para uma conversa entre clientes e analistas, por meio de um morning call diário com um resumo dos acontecimentos no mundo. “O objetivo é trazer uma visão assertiva que serve de base para decisões de investimento”, diz Luketic.
Em um cenário de queda da cotação das ações na Bolsa de Valores, a demanda por inteligência em renda variável, no mercado como um todo, passou por uma redução gradual. Hoje, no entanto, o cenário é outro. Atualmente, 40 ações representam 83% do Ibovespa em valor de mercado, número que, na sua avaliação, chegará a 60 no primeiro semestre do ano. Mas são as análises políticas, segundo o estrategista, um dos pontos fortes do grupo da XP, que, aliás, estão entre os mais demandados.

A polêmica Bettina – O recente vídeo da Empiricus (empresa de relatórios que inaugurou o mercado no Brasil), com a jovem investidora Bettina garantindo ter ganho R$ 1 milhão em três anos, trouxe à tona a questão da propaganda enganosa. O caso uniu as demais casas contra a prática da Empiricus, aplaudindo a nova regulação da CVM sobre esse mercado. A autarquia, diante do crescimento do setor, editou em 2018 a Instruçao 598 que tornou obrigatório o registro das casas de análise.
Segundo a analista da CVM Vera Simões, o marco regulatório visa garantir aos clientes prestação de serviços à altura. “Vemos marketings muito agressivos na divulgação dessas empresas. A linguagem precisa ser serena e moderada”, diz Vera. Segundo ela, a 598 torna passível de punição tal prática.
No texto, a CVM “reitera que o investidor deve estar sempre atento às informações que são divulgadas pelas casas de análise. “Deve, ainda, abster-se de tomar decisões baseado exclusivamente em opiniões manifestadas na Internet, em redes sociais, blogs, chats etc., e de acreditar em ofertas de investimentos por meio de sites, normalmente acompanhadas de promessas de ganho rápido ou sem risco”.

O ativo que elas vendem é conteúdo

O mercado brasileiro voltado para investidores institucionais viu surgir, nos últimos dois anos, um novo tipo de negócio voltado à produção de análises e conteúdos destinados aos gestores de investimentos. São researchs sobre temas variados, produzidos por profissionais especializados, muitos egressos de bancos e corretoras, que incluem desde conjuntura econômica, companhias abertas, setores industriais e de serviços, renda fixa, commodities, fundos, conjuntura política e internacional.O mercado brasileiro voltado para investidores institucionais viu surgir, nos últimos dois anos, um novo tipo de negócio voltado à produção de análises e conteúdos destinados aos gestores de investimentos. São researchs sobre temas variados, produzidos por profissionais especializados, muitos egressos de bancos e corretoras, que incluem desde conjuntura econômica, companhias abertas, setores industriais e de serviços, renda fixa, commodities, fundos, conjuntura política e internacional.
Essas casas de análise, como o próprio nome revela, não vendem papéis, ações ou fundos, apenas conteúdo voltados para gestores de fundos e demais clientes institucionais. A cada dia, semana, quinzena, os clientes têm acesso ao material disponível em suas plataformas digitais mediante assinatura mensal, a um custo variável de acordo com o tipo de demanda, partindo de pouco menos de R$ 100,00 a mais de R$ 2 mil. O valor depende do modelo contratado.
Há desde relatórios com cobertura geral e análises mais sucintas até produtos com maior nível de detalhamento e de avaliações setoriais customizadas, voltados para a gestão de uma carteira de investimentos. Nesses casos, o relacionamento com os analistas são mais estreitos e constantes, tanto on line, quanto por meio de vídeos, palestras, reuniões, call, áudios.
Elas cresceram na esteira da tendência de enxugamento dos departamentos de research dos grandes bancos, aumento da demanda por análises das casas independentes e consolidação no mercado internacional. O atual cenário econômico, de queda na taxa de juros e busca de ativos mais rentáveis para cobrir a meta atuarial das fundações, tende a favorecer tal movimento. Em 2018, dos mais de R$ 900 bilhões de patrimônio dos fundos fechados de previdência, apenas cerca de 20% estavam alocados em renda variável, enquanto os investimentos em renda fixa respondiam por 73% do total, conforme dados da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp).
Os juros baixos tendem a aumentar a atratividade da renda variável, mas as decisões nessa área demandam informações de qualidade por parte dos gestores institucionais.