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O apetite é grande, mas...
Mercado aposta num retorno intenso do capital estrangeiro ao Brasil, desde que as reformas propostas pelo governo sejam efetivadas

A volta do fluxo de capital estrangeiro para o Brasil é uma das grandes apostas dos analistas e agentes de mercado para 2019 e 2020. É consenso que os estrangeiros estão de olho no potencial de retorno brasileiro, mas apesar do grande interesse os investidores observam se o governo vai fazer a sua parte nas reformas que garantiriam crescimento econômico, a começar pela Previdência. 
Relatório da agência de classificação de risco Moody’s, sobre conjuntura econômica nos países emergentes, divulgado no final de março, aponta Colômbia, África do Sul e Brasil com os melhores desempenhos no quesito transparência em relação às contas fiscais e dívida, crucial para a análise de ratings. A Duff & Phelps, consultoria norte-americana de investimentos e finanças corporativas, em seu relatório referente ao primeiro trimestre deste ano, também destaca o Brasil entre os principais mercados emergentes que impulsionarão a economia global nos próximos anos. “O Brasil provavelmente se moverá em direção à globalização, ao livre comércio, aumento da competitividade nacional e redução da burocracia e do alto nível do desemprego”, aponta o documento.
Alexandre Pierantoni, diretor da Duff & Phelps no Brasil, acredita na implementação das diversas mudanças que foram propostas pelo novo governo, tanto a reforma da previdência, como as privatizações. No entanto, o prazo para acontecerem é fundamental para aumentar a confiança do investidor estrangeiro. “Os primeiros passos nas concessões realizadas no primeiro trimestre do ano estão dando credibilidade ao governo Bolsonaro”, afirma. “Há um ambiente e uma expectativa muito positiva nesse sentido. Mas o prazo em que as mudanças acontecerão poderá mudar essa expectativa. O quanto antes acontecerem melhor. O governo tem que ser pragmático.” Ele ressalta que o investidor estrangeiros ainda está cauteloso.
Essa cautela também é apontada por Andrea Cattaneo, diretor da área de custódia do BNP Paribas. “Os investidores estão aguardando, como uma quarentena, para tomada de decisão de aportes. A volta do fluxo de estrangeiros no mercado de capitais brasileiro depende da aprovação das reformas”, afirma. “O Brasil possui boas oportunidades de investimento, mas a entrada efetiva de recursos depende da estabilidade política. As empresas listadas [em bolsa de valores] são atrativas mas o investidor precisa de sentir mais seguro para alocações de longo prazo no País.” Cattaneo também destaca as concessões em infraestrutura, com os leilões de portos, aeroportos, ferrovias e campos de petróleo como os principais atrativos em 2019 e 2020.
O relatório da Duff & Phelps ressalta que o acesso das empresas ao mercado de capitais está profundamente relacionado com as perspectivas econômicas nos próximos anos. Investidores estrangeiros continuam mantendo o Brasil sob observação para alocar seus recursos, buscando as melhores relações de risco/retorno. O documento lembra que, no segundo mandato de Dilma Rousseff, entre 2014 e 2016, houve uma redução considerável de IPOs na B3 devido à incerteza político- econômica. O movimento se recuperou após o impeachment de Dilma, em meados de 2016, mas sofreu nova desaceleração em 2018 com a expectativa provocada pela eleição nesse ano. Após a vitória de Bolsonaro, o mercado começou a mostrar sinais de recuperação e especialistas passaram a prever um grande número de ofertas iniciais de ações este ano.
No entanto, existem algumas condicionantes que vão além das reformas previstas no ambiente doméstico que podem alterar os rumos do dinheiro internacional. “Não é só a dinâmica do Brasil que influencia. Qualquer mudança na política monetária dos Estados Unidos pode aumentar ou diminuir o fluxo de capital no Brasil”, ressalta Cattaneo. Luiz Fernando Pedrinha, diretor da Templeton, lembra que as taxas de juros baixas nos países desenvolvidos demonstram que o crescimento econômico mundial ainda está comprometido. “Não temos sinais de recessão, mas há uma desaceleração do crescimento da economia no mundo.”
Um tom mais “pacifista” do Federal Reserve nos EUA aliviou a aversão dos investidores em relação a mercados emergentes nos últimos meses, segundo avaliação da agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P), publicada no final de março. Além disso, um diálogo “construtivo” entre os EUA e a China sobre disputas comerciais aumentou a esperança de que eles poderiam chegar a um acordo em breve. A eleição de Bolsonaro, por sua vez, também aumentou a confiança do investidor, de acordo com a S&P. No entanto, o País tem uma dívida pública alta e um balanço fiscal fraco que a reforma da Previdência, sozinha, pode ser insuficiente para resolver. Para a agência, Bolsonaro ainda precisa mostrar que é capaz de lidar com um Congresso fragmentado e indeciso quanto a aprovar as reformas necessárias para melhorar as finanças do governo.

OCDE e investment grade – O flerte do Brasil com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) já dura algum tempo. Um possível apoio dos Estados Unidos, sinalizado pelo presidente Donald Trump a Bolsonaro, pode finalmente render um compromisso mais sério. O mesmo não pode-se dizer sobre o grau de investimento atribuído pelas agência internacionais de classificação de risco. O País perdeu o selo em 2015 e voltou ao patamar de 2005, como grau especulativo.
“Sem grau de investimento, os investidores estrangeiros ficam muito mais cautelosos e precisam de informações bem mais robustas para uma tomada de decisão para alocação de seus recursos”, afirma Pedrinha, da Templeton. “O percentual de Brasil ficou menor na carteira de grandes investidores internacionais após o País perder o grau de investimento”, afirma. “Entrar na OCDE ajuda mas para ter de volta o grau de investimento, o País precisa fazer o dever de casa.”
Cattaneo, do BNP Paribas, também acredita que o ingresso na OCDE ajudaria a atrair o investimento estrangeiro, mas esse movimento não será suficiente. “OCDE ajuda, mas o grau de investimento tem um peso maior”, afirma. “A combinação de ambos os aspectos são condições importantes para abrir as portas para os recursos estrangeiros, mas são aspectos desvinculados. O grau de investimento não será atribuído novamente porque o Brasil entrou para a OCDE e vice versa.”
Ele ressalta que, dependendo da agência de rating, o Brasil está a duas ou três notas abaixo do grau de investimento. “Há uma tendência positiva com o novo governo, mas a revisão dos ratings depende da realização das reformas, especialmente a da Previdência, que são chaves para controlar a dívida pública e melhorar a relação dívida/PIB”, afirma Cattaneo. “As agências já deixaram claro que o controle da dívida pública é fundamental para recuperar o grau de investimento.”
Outro aspecto considerado pelos investidores é a presença do Estado na cadeia produtiva. O relatório da Duff&Phelps aponta que, quando comparado aos 36 membros da OCDE, o Brasil ocupa o primeiro lugar no número de estatais. São 418 empresas, 138 das quais são de controle federal, que contribuem para os déficits recorrentes do governo, de acordo com o documento.

IED versus IPOs – Também é consenso entre os executivos que os IPOs não concorrem com o IED, o investimento direto, pelos recursos internacionais. “A opção entre investimento direto ou mercado de capitais é definida pelo perfil de cada investidor”, esclarece Pedrinha. “Investimentos diretos envolvem projetos de longo prazo, com diferentes níveis de maturação.”
Segundo o relatório da Duff&Phelps, o Brasil ocupa a quarta posição mundial em investimento direto estrangeiro e tem se mostrado como o mais atraente da América Latina. Além disso, as perspectivas econômicas positivas da agenda favorável ao mercado, como as privatizações, delineadas pelo governo, pode aumentar as perspectivas de retorno e, potencialmente, trazer mais recursos estratégicos para o mercado brasileiro.
De acordo com informações divulgadas pelo governo federal, serão realizados 25 leilões de concessão em 2019, por meio do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), com previsão de R$ 62,7 bilhões em investimentos. Desde que foi criado, em 2017, o PPI qualificou 193 projetos de concessão, dos quais 140 foram concluídos, com R$ 257 bilhões em investimentos contratados e arrecadação de R$ 49 bilhões em outorgas. No primeiro trimestre deste ano, já foram leiloados 12 aeroportos, quatro terminais portuários e a Ferrovia Norte-Sul, arrecadando R$ 5,32 bilhões para os cofres públicos.
Por sua vez, os IPOs de empresas brasileiras na B3 estão estimados entre 20 a 30, contados desde o final do ano passado. “Este será um ano de expansão do mercado de capitais, a partir das reformas propostas pelo governo”, afirma Felipe Paiva, diretor da B3. “O presidente da Caixa e do Banco do Brasil já anunciaram intenção de IPOs de algumas subsidiárias e esses projetos nem são considerados na estimativa de 30 novas ofertas”, afirma, acrescentando que “a taxa de juros de um dígito leva o investidor a buscar opções de maior retorno, mesmo com maior risco”. Segundo Paiva, o capital estrangeiros tem entre 50% e 70% de participação nos IPOs. No entanto, ele não confirma quais empresas, nem quando, realizarão suas ofertas. “Há diversos setores no pipeline. Ano passado, o destaque ficou com o setor de saúde, com captações expressivas.” Para Pierantoni, da Duff & Phelps, os setores de destaque nas ofertas iniciais de ações deverão ser produtos de consumo e serviços financeiros de forma geral. “São mais atrativos em termos de demanda.”
Para Pedrinha, no entanto, o total de 30 IPOs será difícil de acontecer, embora num cenário de juros baixos os ativos de risco sejam muito atrativos. “O primeiro trimestre do ano foi morno, com o investidor aguardando”, afirma. De maio a dezembro, são 34 semanas restantes. “Um ou mais IPOs por semana seria um movimento ousado.”
Os prospectos da Vamos, braço da JSL, e da Centauro já estão arquivados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A rede de drogarias PagueMenos, a rede de restaurantes Madero, o Banco Votorantim e a Tok&Stok são algumas as empresas que vislumbram abertura de capital. A XP Investimentos também estava no radar, mas adiou para o próximo ano.