Oportunidade em infra e agro
Regina Nunes, após 20 anos na S&P, se une às executivas Renata Lotfi e Thays Jorge para criar uma consultoria especializada em estrutura de capital

Após 30 anos de atuação no mercado financeiro, dos quais 20 anos ocupando posições de comando na agência de classificação de risco Standard&Poors (deixou a S&P em março do ano passado, como head dos escritórios do Brasil e Argentina), a executiva Regina Nunes resolveu mudar o rumo da carreira e criar o seu próprio negócio. Vencida a quarentena de um ano estabelecida no seu distrato com a S&P, ela convidou duas outras executivas para criar a RNA Capital, uma consultoria com foco em operações estruturadas, reestruturação de capital e fusões e aquisições nas áreas de infraestrutura e agronegócio.
Uma das executivas, Maria Renata Lotfi, estava na própria S&P e ocupava a diretoria de corporate ratings para os mercados do Brasil, Chile e Argentina. A segunda, Thays Jorge, era executiva sênior da área contábil/financeira com atuação em empresas globais de telecomunicações, indústria e agropecuária. No dia seguinte ao fim da quarentena ela ligou para Maria Renata e Thays e convidou-as, dando início ao processo de criação da RNA Capital.
Com quatro meses de funcionamento, a RNA Capital já conta com “os maiores clientes que poderíamos querer”, afirma Regina, sem citar nomes em função da confidencialidade das operações. “São empresas de capital aberto em busca de novas estruturas de capital para projetos de concessões de ferrovias, rodovias e aeroportos que vão se financiar apenas no mercado privado, seja interno ou externo”, detalha. “O Brasil vive o melhor momento para consultoria e advisory em infraestrutura e agronegócio, setores com grande potencial de trabalho”, explica Regina.
Ela conta que decidiu empreender a partir da análise de uma conjuntura político-econômica atual, muito semelhante à que o País viveu no segundo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, quando as privatizações e concessões federais deram um salto e transformaram a realidade brasileira, principalmente no setor de telecomunicações. “Naquela época, eu modelava concessões ou representava alguém que queria comprar e fazia o projeto”, relembra. “O Brasil foi muito bem nas suas concessões e privatizações. O que não foi tão bem assim foram as formas de financiamento. E é essa oportunidade que temos hoje, desenvolvendo projetos financeiros robustos especialmente em infraestrutura e agronegócio.”
Para ela, o que limita o crescimento do Brasil é a falta de produtividade, de geração de energia e de logística e transporte. “Se realizarmos todos os investimentos necessários em infraestrutura, mudamos o País em três anos. Infra gera muita arrecadação de impostos e muitos empregos”, ressalta. “Pode acontecer aqui o que já aconteceu na China e na Coreia.”

Talento – De acordo com a sócia Thays, “a soja do Cerrado chega no porto, por caminhão, a um preço competitivo no mercado internacional”. Se isso já é possível hoje, mesmo com a ineficiência da área de infraestrutura, “imagina se tivéssemos melhor infraestrutura de transporte e de armazenagem”, conclui.
“O agronegócio é o talento do Brasil”, reforça Regina. “Podemos fazer parte do mundo desenvolvido mesmo sendo um país agrícola, porque o mundo precisa comer. Produção agrícola e de commodities de alta qualidade requer investimentos. Já temos o melhor minério de ferro, a celulose e o açúcar, onde se investiu em tecnologia e produtividade”. Para ela, o cenário de baixo crescimento da atividade industrial não deve ser visto como um empecilho para o desenvolvimento econômico do País.
“O que acabou com a indústria nacional não foi o agronegócio ou a mineração, foi o protecionismo, que não criou competitividade e produtividade e um arcabouço jurídico e tributário que a fizesse sobreviver”, aponta Regina. “A própria indústria não construiu o seu caminho. O agronegócio construiu o seu caminho apesar de não ter a infraestrutura mínima para se desenvolver.” Além disso, ela ressalta que há várias indústrias conectadas ao campo, seja na agricultura ou na pecuária.

Importância do crédito – Apesar de terem tido carreiras distintas, as três sócias da RNA Capital compartilham da mesma crença atualmente: a importância do crédito para o desenvolvimento econômico e a democratização dos recursos financeiros. “Acreditamos que o crédito é a coisa mais positiva que existe”, afirma Regina. “Não existe país estável sem crédito. Não há uma sociedade bem desenvolvida e economicamente forte, com democracia, com uma classe média grande, com boa educação e saúde, que não tenha muito crédito e poupança.”
Para Thays, “a forma como a empresa se financia é um diferencial competitivo tal qual o produto que ela desenvolve”. Segundo ela, “o formato do crédito viabiliza o investimento, seja em tecnologia, ampliação de produção ou a cisão de uma unidade madura. É o ajuste fino do passivo do balanço para que se possa investir e aumentar o negócio com rentabilidade.”
Regina observa, no entanto, que no Brasil o crédito é muito criticado porque as taxas de juros são muito altas. “As pessoas não entendem que as taxas são maiores porque temos maiores riscos, porque estamos mais no curto prazo, porque a poupança não é de longo prazo, porque o investidor tem uma visão de retorno muito rápida, e porque tivemos experiências complexas no passado, como a hiperinflação”, avalia. “Mas precisamos pensar que o Brasil tem apenas 500 anos e com essa pouca idade até temos uma sociedade com pilares bem fortes e estruturados.”

Insegurança jurídica – A terceira sócia, Renata, acrescenta que a discussão na justiça sobre contratos de empréstimo, por exemplo, causam uma insegurança jurídica que resulta em instabilidade no mercado. “É preciso evoluir nas regulações. Uma parte da sociedade não entende que quando alguém não paga sua dívida, poucos terão novos financiamentos. Se o credor ou o investidor não tiver a garantia de retorno no futuro, não vai dispor de recursos agora. E o financiamento de infraestrutura é de longo prazo.”
Ela reconhece que, hoje, o acesso ao crédito está mais democratizado, com incentivos oficiais, como as debêntures incentivadas. “Os incentivos são necessários para desenvolver o mercado de investimento de longo prazo”, avalia Regina, mas é um processo evolutivo. “Garantias que foram dadas há 20 anos, hoje, já não são mais necessárias porque alguns setores já estão maduros suficientemente.”

Veículos de financiamento – A RNA Capital utiliza praticamente todos os veículos de financiamento em seus projetos, desde emissão de ações e debêntures a todos os formatos de fundos (FIP, FII, FIDC etc.) e certificados (CRA, CRI). “Cada um tem seu próprio benefício e risco, depende de cada situação”, pontua Renata.
“Nosso trabalho é explicar qual é o melhor veículos para cada tipo de ativo, principalmente no longo prazo. “Independentemente do ativo, o financiamento tem que ser compatível com a geração de caixa”, esclarece a executiva. “Sem gestão de governança forte, o custo de acesso ao mercado de capitais aumenta e impacta diretamente no negócio.”