Novatos começam a mostrar serviço
Viabilizados pela CVM há 12 meses, os CRAs ganham espaço no mercado e em plataformas

Ainda em processo de estruturação, o mercado de certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs) já exibe sinais de vigor. Viabilizado há exatos 12 meses pela Instrução 600 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), primeira norma a tratar especificamente de CRAs, o segmento contabilizou um volume de emissões da ordem de R$ 6,69 bilhões nos sete primeiros meses do ano, 11,81% a mais do que nos 12 meses de 2018.
“É uma movimentação expressiva e até certo ponto surpreendente”, comenta Flávia Palácios, coordenadora do grupo de trabalho de certificados de recebíveis de imóveis (CRIs) e CRAs da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). “Nada disso seria possível, entretanto, sem a Instrução 600, que estabeleceu regras claras a respeito do lastro desses títulos e sobre a divulgação de informes mensais pelas securitizadoras.”
O passo seguinte, na avaliação de Flávia, será viabilizar a criação de veículos de investimento baseados em CRAs, proposta que já começa a ser discutida em conjunto pela CVM e a Anbima. A ideia tem como referência os fundos imobiliários (FIIs), que contam em escala crescente com CRIs em seus portfólios, e de infraestrutura (FIs-Infra). “A execução, entretanto, não será fácil. Isto porque a legislação só garante isenção na tributação de rendimentos para os portadores de CRAs e não para cotistas de fundos lastreados nesses papéis, ao contrário do que ocorre com os produtos ancorados em CRIs e em debêntures de infraestrutura”, explica a executiva.
Criada em 2016 pelas irmãs Martha e Vitória de Sá em parceria com a amiga Fernanda Mello, a Vert-Capital é uma das estrelas em ascensão nesse novo nicho do mercado de capitais nativo. De janeiro a julho últimos, o negócio estruturou 12 operações de CRAs no valor total de R$ 3,82 bilhões, 70,60% a mais do que o volume registrado em 2018. “As perspectivas são animadoras, pois os produtores agrícolas, que demandam R$ 280 bilhões a cada ano, terão de buscar opções de financiamento para fazer frente à limitação do crédito rural”, diz Martha.
Os CRAs contam também, na ponta compradora do mercado, com o apoio das plataformas de investimentos, que começam a ofertar esses títulos a preços convidativos para aplicadores de menor porte, a exemplo do que já ocorre com os CRIs. Ao contrário destes, no entanto, os certificados de origem rural ainda são solenemente ignorados pelas fundações de previdência. “As entidades de mercado têm pela frente o desafio de apresentar os CRAs aos investidores institucionais, que cumprirão papel decisivo na consolidação desse nicho”, observa Flávia.
Uma experiência que pode servir de referência na abordagem de aplicadores de maior porte começou a ser desenvolvida há cerca de um mês pela RB Investimentos. A asset paulista criou, em sua mesa de operações de renda fixa, um serviço de call de CRAs e CRIs com foco no mercado secundário que vem atraindo de forma crescente o interesse de outras gestoras.
“Até há pouco, as assets compravam CRAs e CRIs e entesouravam os títulos”, comenta o estrategista Daniel Linger. “Agora as próprias gestoras estão interessadas no call para fazer movimentações no mercado secundário. É uma liquidez que, assim que ganhar escala, tende a tornar esses papéis muito mais interessantes aos olhos dos investidores nas emissões.”