Brasil na mira dos estrangeiros
Juros negativos nos países desenvolvidos torna Brasil atrativo ao capital externo

Juros negativos na Europa e no Japão costumam ser sinônimo de euforia para investimentos em países emergentes. E com o Brasil não é diferente. Apesar da perda do selo de grau de investimento e da atividade econômica fraca, o país pode capturar parte dos US$ 17 trilhões que hoje estão alocados em títulos de dívida pública de países com juros negativos e que buscam melhor ambiente para rentabilizar seus recursos. O fato é que só na Europa há um total de US$ 10 trilhões aplicados em títulos públicos que vencem até 2049 e que devem entregar menos ao investidor do que ele inicialmente aplicou. Efeito direto do juro negativo desses países.
Apesar de alguns fundos institucionais estrangeiros por regras de governança não poderem aplicar recursos em países que não sejam classificados como investment grade, o Brasil ainda apresenta possibilidades de ganhos expressivos tanto na renda fixa quanto na variável, se comparado ao resto do mundo. Por mais que a taxa básica nacional, a Selic, esteja em seu menor patamar histórico, 5,5% ao ano, é a quinta maior do mundo, perdendo apenas para Turquia, México, Rússia e Indonésia, onde as instabilidades políticas e econômicas são ainda maiores do que as brasileiras. Com isso, títulos pré e pós- fixados do governo brasileiro têm conseguido entregar rentabilidade acima da de outros países. As NTN-Bs mais longas, com vencimentos em 2023, 2035 e 2050, estão pagando IPCA mais 2,17% ao ano, 3,29% e 3,54%, respectivamente. Já os pré-fixados com vencimentos em janeiro de 2023, 2025 e 2027, pagam 5,97% ao ano, 6,58% e 6,92%.
“As NTN-Bs continuam oferecendo rentabilidade atraente. Olhando a curva das NTN-Bs e também dos pré-fixados ainda há atratividade. Mais baixa do que no passado, mas ainda assim atraente”, afirma Marcelo Cirne de Toledo, economista-chefe do Bradesco Asset Management (Bram). Tanto que ao final de agosto, os estrangeiros detinham R$ 475 bilhões em títulos públicos federais, ante os R$ 434,7 bilhões no mesmo período de 2018. Para Toledo, o que os investidores estão olhando neste momento é para a expectativa de aceleração de crescimento da economia nacional. E que ainda não apareceu. “Se houver aceleração razoável de crescimento, aí sim, veremos um fluxo relevante de investidores estrangeiros vindos para o Brasil. Especialmente para compra de ações”, diz o economista.

Estrangeiros – Diante do potencial que poderia ter, o fluxo atual de recursos estrangeiros entrando no mercado de capitais no país ainda é considerado menos relevante do que no passado. A movimentação maior tem sido em torno de fusões, aquisições ou mesmo participação em leilões e concessões dos governos federal e estaduais. “Isso porque não temos mais a mesma força que tínhamos até 2012 e 2013, quando havia crescimento importante pautado pelas commodities. Receberemos algum fluxo, mas acho que vai ser diferente dos anos 2000 ou mesmo pós 2009, onde teve fluxo grande de recursos – entrando no país”, avalia Toledo.
Este ano, na renda variável o fluxo de entrada e saída de capital estrangeiro no Brasil foi negativo em R$ 2,8 bilhões, segundo dados do Banco Central (BC). Os investidores estrangeiros têm adquirido as novas operações de IPOs (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) e follow ons (oferta secundárias), mas também têm vendido suas posições em operações anteriores. Já o fluxo de investidores estrangeiros no balanço de pagamentos acumulados no ano em 2019 foi positivo em R$ 8 bilhões na renda fixa.
Com o juro caindo no mundo, economistas lembram que o mais desejável é que se empreste o mais rápido possível. “Afinal, assim você vai comprar um título “barato” e toda vez que a taxa de juros cair o preço do título nas suas mãos sobe. Isto implica dizer que a queda dos juros força os investidores à ter títulos que rendam um valor fixo no seu vencimento”, diz André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos. Ou seja, no curto prazo, o mercado financeiro ganha dinheiro com a queda dos juros porque na medida em que o juros caem os títulos já comprados sobem. O problema é que os títulos públicos sofrem com operações de longo prazo. “Comprometendo as aposentadorias de alguns países, principalmente nos planos de contribuição definida. Porque os pensionistas que entraram lá atrás, ganharam dinheiro. Mas os novos não vão ter a mesma sorte”, explica Perfeito.

Economias desaceleradas – O economista alerta que além dos indicadores domésticos, o próprio movimento de queda de juros no mundo pressiona por um juro menor também no Brasil. A política de juros baixos ou negativa busca dar incentivo econômico para economias desaceleradas, mas no caso da Zona do Euro e do Brasil não tem sido suficiente para retomada de seu crescimento. “O que tem levado muitos investidores para o conforto dos títulos norte-americanos”, explica.
Em perspectiva de curto prazo, os juros devem continuar caindo no Brasil. Tanto que o último relatório Focus, do BC, indica que a Selic deve encolher para 4,75% até o final de 2019. Considerando um juro médio a 5% este ano, nas contas de André Perfeito, o CDI vai pagar, em média, 0,41% ao mês, reduzindo ainda mais os ganhos com ativos financeiros de renda fixa daqui para frente. “Vale salientar que a NTN-B 2045 subiu 70% em 12 meses por conta da queda da Selic. Mas agora não vai continuar a subir neste patamar”, explica. Apesar de não ter sido suficiente para animar a economia, a queda dos juros tem beneficiado as empresas listadas em Bolsa, aumentando a demanda por esses papéis e elevando os preços das ações.
Para a Western Asset, o Brasil deve apresentar situação mais favorável do que outros emergentes porque vem implementando uma agenda macroeconômica positiva para o mercado com as reformas da previdência e tributária e com a lei da liberdade econômica. “O que mostra que o país busca ser mais amigável aos investimentos em portfolio e produção”, avalia Marc Forster, responsável pela Western Asset Brasil. Para ele, o que mais importa para o estrangeiro é ter nível de segurança de que vai receber o dinheiro que aplicou de volta. “Uma coisa é risco de crédito. Outra é risco de câmbio, que não pode oscilar demais. As reformas devem melhorar as condições de fazer negócios no Brasil e diminuir a volatilidade elevada do câmbio”, explica Forster. Dado este cenário, na sua opinião, o Brasil tem tudo para se destacar dentre os países emergentes.
O gestor lembra que se comparar com Rússia, México e Argentina, o Brasil está em melhor situação aos olhos dos investidores externos. E se a agenda positiva do governo emplacar, o crescimento do país voltar e a economia global não entrar em recessão, o Western vê novas oportunidades para o Brasil. “Com menor intervenção do estado e com BNDES menos participativo, IPO e emissão de dívidas serão mais frequentes”, conclui Forster.
Já para Luiz Fernando Figueiredo, sócio-fundador e CEO da Mauá Capital, o Brasil está mais dependente de situação interna do que da externa e do ponto de vista fiscal está insustentável. Além das reformas macro, cita ainda as mudanças microeconômicas em curso, que entende serem tão importantes como as outras. Ele lembra que a participação estrangeira nos títulos públicos já foi de 20% quando o Brasil tinha o grau de investimentos e hoje está em pouco mais de 11%. “Mesmo a dívida externa privada que era de US$ 330 bilhões há três anos, hoje está em US$ 250 bilhões. Não está acontecendo fluxo de dinheiro relevante para se apropriar do nosso juro. E daqui para frente, os ativos financeiros relacionados à economia real tendem a ganhar relevância”, explica Figueiredo, que salienta que esta migração dos portfolios de ativos de baixo risco para os de maior risco é um processo muito importante e novo no Brasil. “E veio para ficar”.
O BNP Paribas concorda que é preciso trabalhar em um cenário novo daqui para frente. “Diferente do passado, aparentemente, essa queda de juro é estrutural e deve ser o novo normal. E quando o BC subir os juros, subirá bem menos”, avalia Gilberto Kfouri, responsável pela área de renda fixa da BNP Paribas Asset Management. Em função disso, ele explica que os ativos têm que ter maior “duration” nas carteiras e o gestor deve antecipar movimentos. “Mas não dá para ficar fora no mercado. Se acreditar que esse é o novo normal, as curvas de juros trazem prêmios. E os investidores também têm que mudar o mindset para os investimentos com maior exposição a risco e volatilidade”, avalia Kfouri. Especialmente o investidor institucional que também deve olhar para fora em busca de diversificação, na sua opinião. “Os prêmios no mercado doméstico estão menores. Lá fora tem que olhar para equities, ativos estruturados, ativos não líquidos, moedas e ir gradualmente colocando”, conclui.