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Valorizando expert em risco
A valorização dos especialistas com cenário de queda dos juros aquece a demanda por cursos específicos em instituições de ensino de ponta

Iniciada no segundo semestre de 2016, a progressiva redução da taxa Selic e, por tabela, da remuneração oferecida pelos títulos públicos federais vem impondo aos gestores de recursos e investidores institucionais o desafio de aumentarem a exposição de suas carteiras a ativos de comportamento menos previsível. É uma mudança que está contribuindo para a valorização crescente, aos olhos do mercado, de profissionais com especialização em análise de riscos.
“A nova realidade, ditada pelos juros baixos, já começa a demandar perfis técnicos diferenciados”, diz Guilherme Veloso Leão, diretor executivo e responsável pela comissão técnica de investimentos da Associação Brasileiras das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp). “Os profissionais da área de riscos terão de ampliar seu repertório. Além de ações, que tendem a ganhar espaço nas carteiras de investimento, terão de aprofundar conhecimentos sobre o mercado externo e fundos de participações, entre outras opções.”
A curva salarial desses técnicos tem viés ascendente. O recém-lançado “Guia Salarial 2020”, da consultoria de recursos humanos Robert Half, especializada em recrutamento para os segmentos financeiro e de seguros, aponta entre os oito destaques para o próximo ano – de um total de 53 postos pesquisados no mundo das finanças – os cargos de gerente e analista de crédito e riscos, cujas remunerações médias apresentaram saltos de 4% e 7%, respectivamente, ao longo dos 12 últimos meses. “Essa valorização é fruto também, de forma simultânea, do expressivo crescimento das plataformas digitais de investimentos e da entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados”, observa a gerente de recrutamento Ana Carla Guimarães. “A expertise em riscos e compliance na esfera digital está em alta no mercado de trabalho.”
Não por acaso, portanto, é forte a procura por cursos na área. A Fipecafi, escola ligada à Universidade de São Paulo (USP), registrou neste ano um crescimento de 50%, para 42 alunos, nas inscrições para a sua pós-graduação em Gestão de Governança, Risco e Compliance. A expectativa é de um novo salto em 2020, já que as consultas, antes mesmo da abertura das matrículas, são intensas. “Estamos avaliando a criação de mais vagas e, também, a oferta do curso a distância, o que, se ocorrer, deverá gerar pelo menos cem inscrições adicionais”, diz o coordenador de cursos de pós-graduação Estevão Garcia de Oliveira Alexandre. “Outro projeto em estudo prevê o lançamento de novos cursos, mais específicos, sob o mesmo ‘guarda-chuva’. Há quatro opções em análise.”
Surgida em 2017, a partir de um antigo curso de controles internos, a pós-graduação da Fipecafi se estende por 12 meses, com carga total de 360 horas. Mais recentemente, ganharam mais espaço em sua programação conceitos sobre governança corporativa, compliance e controles internos, assim como a Lei Geral de Proteção de Dados. Antes frequentadas basicamente por profissionais de instituições financeiras e grandes empresas, as aulas passaram a contar, nos últimos anos, com grupos expressivos de engenheiros, contadores e administradores. “Há pouco tempo, começamos a registrar também a participação de executivos de fundos de pensão. É um reflexo da Resolução 4.661 do Conselho Monetário Nacional, de maio de 2018, que estabeleceu novos padrões para as entidades fechadas de previdência complementar”, observa Alexandre.

Ajustes na grade – Atenta ao quadro macroeconômico, a Fundação Instituto de Administração (FIA), prepara ajustes na grade curricular de sua Pós-Graduação em Produtos Financeiros e Gestão de Riscos, já de olho na próxima turma, cujas aulas terão início em março de 2020. Ditadas pelos juros baixos, as mudanças incluem abordagens reforçadas de produtos e ativos de risco, como fundos imobiliários (FIIs) e ações, e de estilos de gestão mais agressivos, para colher retornos maiores. “No novo cenário, o risco tem de ser trabalhado com muito mais propriedade”, observa Roy Martelanc, coordenador dos MBAs e das Pós-Graduações em risco e compliance. “Até há pouco, bastava apostar em Notas do Tesouro Nacional, as NTNs. Agora a situação requer inteligência.”
Com 18 meses de duração e carga de 378 horas, o curso é um dos raros do gênero que exigem trabalhos de conclusão. Como abrange conteúdos requeridos em certificações valorizadas no segmento financeiro, casos da Chartered Financial Analyst (CFA) e da Professional Risk Manager (PRM), a pós é demandada primordialmente por gente do setor. “Os professores falam a mesma língua dos alunos, já que todos eles têm experiência no mercado financeiro”, diz Martelanc. “De quebra, estamos sempre de olho em novos comportamentos dos investidores.”