Compra da Adtalem pela Yduqs é estratégica
Aquisição torna empresa player relevante na área de ensino de qualidade no Brasil

A Yduqs, novo nome da empresa de educação Estácio, fechou a maior transação de sua história ao comprar a Adtalem Brasil, dona da escola de negócios Ibmec e do Damásio, especializado em cursos preparatórios para concursos públicos e exames da OAB e também com presença na área de Medicina.
Do alto de suas planilhas, os analistas a princípio acharam que o valor de R$ 1,9 bilhão da transação foi alto demais. Mas não puderam ficar só no que os números mostram. Tiveram que reconhecer que, além de ser positivo puramente sob os aspectos de complementariedade e diversificação, a aquisição é “transformacional”. Fará da Yduqs um player relevante no nicho de ensino de qualidade no país, em vez de uma rede focada na população de renda mais baixa.
A equipe do banco de investimentos JP Morgan observou que o Ibmec, na visão deles, é uma das poucas marcas realmente premium no setor de educação no Brasil.
“O negócio gera valor para a Yduqs pelas sinergias e pelos ganhos ‘intangíveis’ do novo posicionamento de qualidade que a Adtalem traz. Isso vai ampliar as possibilidades de crescimento e trazer novas oportunidades para a empresa”, afirmou o analista do Safra, Marcio Osako. Foi ele quem melhor definiu a nova cara da Yduqs, ao escrever em relatório que o negócio afasta a possibilidade de uma fusão com a Ser, gigante do ensino mais popular no Nordeste; e ao mesmo tempo aumenta as chances de uma união com Ânima, que também busca um diferencial de ensino.

A concorrente – Após a conclusão do negócio, as ações da empresa bateram na máxima histórica, cotadas a R$ 42,00. No ano, a alta acumulada é de 64%, bem superior à valorização da concorrente Cogan (ex Kroton) que subiu 12% no mesmo período.
É uma alta expressiva para uma empresa que sempre foi apontada como o patinho feio do setor. A Yduqs está hoje em todos os Estados do Brasil, à exceção de Tocantins e Acre. Tem presença relevante mesmo no Rio de Janeiro, mercado considerado difícil para as empresas pela guerra de preços e a força negocial dos sindicatos de professores. Mantendo essa posição, Yduqs era a segunda do setor e um alvo potencial para uma concorrente, uma vez que entrar do zero no Rio sempre foi considerado um desafio.
Assim como todas as outras do setor com ações negociadas em bolsa, a empresa cresceu no embalo do Fies, programa de financiamento estudantil do governo Dilma. Quando o Fies mingou, acabou negociando uma fusão com a Cogna (ex-Kroton) , o que levou a empresa a ficar paralisada entre os anos de 2016 e 2017, à espera da análise da operação pelo Cade. O negócio foi vetado e a aproximação com a Cogna acabou ficando para trás.
A Yduqs não tinha um acionista controlador, pois perdeu seu principal executivo no processo de fusão e sofreu com a troca de quatro presidentes até que, há dois anos, o fundo de private equity Advent comprou ações da empresa e assumiu o comando. Agora, a expectativa é que o fundo faça com a nova Estácio o mesmo que fez com a antiga Kroton a transforme na líder do setor.
“ A compra da Adtalem tende a ser o catalisador de negócios que a Yduqs tanto precisava”, afirmou Samuel Alves, analista do BTG Pactual.
A Yduqs tem hoje 576 mil alunos, receitas de R$ 3,6 bilhões e Ebitda ajustado de R$ 1,1 bilhão em 12 meses até 30 de julho. A Adtalem é bem menor: são 102 mil alunos, com receita de R$ 875 milhões e Ebitda ajustado de R$ 191 milhões. A união já foi autorizada pelo Cade e a companhia combinada terá, portanto, receitas de R$ 4,5 bilhões e 678 mil alunos. Capturar 100 mil alunos, da noite para o dia, já pode ser considerado um feito num momento em que crescer organicamente é um desafio, já que a farra do Fies acabou e o país ainda padece da falta de crescimento econômico.

Foco – A marca Estácio atende estudantes de renda mais baixa. Mas a empresa sempre buscou o reconhecimento pela qualidade e a prova disso é que buscou ser um player relevante nos cursos de Medicina. A mensalidade média nos cursos das faculdades adquiridas é de R$ 1 mil, enquanto na marca Estácio é 30% menor. No Ibmec, o tíquete varia entre R$ 3,5 mil e R$ 4,5 mil. A Adtalem também investiu em Medicina, incluindo cursos preparatórios para exames de residência. Esssas mensalidades superam R$ 8 mil.
Os comentários dos analistas mostram que a Yduqs vai conseguir diversificar seus negócios e fortalecer suas operações. Victor Tapia, do Bradesco, destacou que, em Medicina, a nova empresa passará de 12 para 15 unidades, com incremento potencial de 10 mil alunos. A Adtalem tem hoje 210 vagas nessa graduação e recebeu autorização para atuar na segunda fase do programa Mais Médicos. A Estácio tem 3,8 mil vagas nesse curso, que responde por 10% das receitas da empresa.
Uma unidade específica será criada dentro da empresa para cuidar apenas dos cursos de Medicina e do Ibmec, numa sinalização de que esse selo de qualidade das marcas é prioridade na operação. Para o JP Morgan, sob essa marca premium, a empresa poderá crescer em qualquer cidade que houver demanda.