Mercado em alta amplia opções ao investidor
Carlos Ambrósio é presidente da Assoc. Bras. Entid. Merc. Financ. e Capitais (Anbima)

A redução dos juros para patamares mínimos históricos impacta significativamente o mercado financeiro e, especialmente, a indústria de investimentos. É notável o crescimento das ofertas de títulos privados, sobretudo das debêntures, o aumento da negociação desses papéis no mercado secundário e a ampliação da base de investidores. Qualquer exercício sobre o cenário de investimentos para 2020 leva a alguns questionamentos: esse novo patamar de juros veio para ficar? Ele é sustentável?
Por enquanto, a resposta é sim. Ao contrário do período entre 2011 e 2013, quando houve outro ciclo de queda relevante de juros, o Governo Federal vem construindo agora um ambiente favorável para os negócios, com menor participação do Estado na economia e busca por um equilíbrio nas contas públicas. Esse movimento dá confiança aos empresários e aos investidores, contribuindo para que as taxas de médio e longo prazos acompanhem a redução do curto prazo.
A aprovação da reforma previdenciária e o encaminhamento de outras reformas estruturais no Congresso Nacional acenam para a recuperação gradual do crescimento, sem necessariamente elevar a inflação (a previsão do mercado indica que o IPCA deve se manter abaixo do centro da meta inflacionária para 2019 e 2020). A projeção de 4,25% da Selic para o fim de 2020, feita pelo Grupo de Acompanhamento Macroeconômico da Anbima, ratifica essa percepção.
Pelo lado das ofertas, os impactos observados desde 2017, quando os juros caíram quase sete pontos percentuais (estavam em 13,75% em janeiro e encerraram aquele ano a 7%), foram importantes para mudar a dinâmica do segmento. A utilização dos instrumentos do mercado de capitais como fonte de funding para as empresas, principalmente após a redução da participação do BNDES, resultou em crescimento médio anual de 32% nas emissões domésticas entre 2017 e 2019. Em 2019, o volume emitido pelas companhias alcançou R$ 346 bilhões (até novembro), com avanço de 39,3% sobre o total de 2018. As debêntures são o grande destaque: representam metade de todo o volume de títulos privados emitidos nos últimos dois anos.
Na ponta da demanda, a redução dos juros ao patamar de um dígito obrigou o investidor a buscar rentabilidades para suas carteiras a partir da diversificação dos ativos, do uso de novos indexadores e do alongamento dos prazos. Na renda fixa, as aplicações em títulos privados se tornaram boas opções, por entregarem retornos maiores. Isso incentivou a participação dos fundos de investimento nas ofertas públicas de debêntures: de 23%, em 2015, passou para 52% em 2019. O estoque desses ativos no patrimônio dos fundos subiu de R$ 86,4 bilhões, em dezembro de 2016, para R$ 213,6 bilhões em outubro de 2019, uma elevação de 147%. Para se ter uma ideia, o patrimônio da indústria de fundos cresceu 43% no mesmo período.

Mercado secundário – Como reflexo desse movimento, o mercado secundário de debêntures deslanchou. De R$ 30,9 bilhões negociados em 2017, chegou a R$ 99,1 bilhões neste ano (até novembro). Em termos de rentabilidade, essa estratégia se revelou um bom negócio para os investidores. Enquanto a taxa DI variou 23,5% entre 2017 e 2019, o IDA (Índice de Debêntures da ANBIMA), que replica a trajetória desses papéis no mercado secundário, valorizou 31,1%; e o IDA-Infraestrutura, que expressa a trajetória das debêntures incentivadas, teve avanço de 34,2%.
Ao longo do ano, esse dinamismo também foi observado em outros segmentos (além da renda fixa), como mais um efeito da necessidade de diversificação das carteiras. Na renda variável, a distribuição secundária de ações (follow-ons) mostrou forte elevação no volume emitido (passou para R$ 68,1 bilhões contra R$ 4,5 bilhões em 2018). O Ibovespa refletiu a maior movimentação do segmento e vem apresentando rentabilidade expressiva – 23,2% (até novembro). Os fundos de investimento imobiliários, híbridos entre renda fixa e variável, já superaram o volume emitido em todo o ano passado (R$ 32,5 bilhões até novembro contra R$ 15,6 bilhões em 2018).
Esse movimento tem exigido um aprendizado muito grande para todos os envolvidos: emissores, gestores, distribuidores e investidores. Afinal, foram anos convivendo com um patamar de juros que combinava baixo risco com retorno elevado e alta liquidez, o que contrariava qualquer fundamento básico de finanças – reflexo dos desequilíbrios das contas públicas.
Pelo lado dos emissores, algumas mudanças são perceptíveis com o objetivo de lançar títulos mais adequados a esse novo cenário. Os prazos estão se alongando e, aos poucos, o indexador deixa de ser o DI, referência máxima dos papéis de curto prazo.
Para os gestores, o desafio está na seleção dos melhores ativos e na alocação adequada, que reflita o mais perfeito equilíbrio entre risco e retorno para o investidor.
A oferta de alternativas que envolvem maior risco exige, por parte dos distribuidores, um processo mais apurado de suitability. É importante que o investidor adquira produtos alinhados ao seu perfil de risco para que oscilações de mercado não resultem em movimentos bruscos.
Mais do que nunca, a educação financeira ganha relevância, afinal é o único caminho para que o investidor melhore seus conhecimentos em relação aos produtos e possa fazer escolhas conscientes para o seu dinheiro.
O que mais chama atenção nesses movimentos nos mercados privados de renda fixa e variável é que ocorrem em um contexto de baixo crescimento econômico, com uma expansão do PIB em torno de 1%. A aceleração da economia prevista para 2020 provavelmente levará as empresas a realizarem novas emissões, diante da necessidade de investimentos para seus projetos.
Mantido em 2020 o mesmo patamar de juros, existe também a perspectiva de novas emissões, sejam de debêntures, sejam de ações, de letras de crédito ou financeiras. Esses ativos serão uma alternativa atraente para o investidor, tanto para aplicação via fundos de investimento quanto para aporte direto. No mercado acionário, além da distribuição secundária, existe a possibilidade de novos IPOs (ofertas iniciais), provavelmente condicionadas ao grau de confiança dos empresários. Além disso, a recuperação de segmentos importantes para a economia, como o da construção civil, deverá sustentar a atratividade dos investimentos com lastro imobiliário, sobretudo os fundos imobiliários e os CRIs (Certificado de Recebíveis Imobiliários).
Para 2020, a expectativa é de que o investidor possa escolher ativos das mais diversas naturezas, de renda fixa ou variável, com diferentes prazos e em uma economia em processo de recuperação.
A nova dinâmica entre o crescimento da economia e o maior leque de ativos disponíveis para aplicações inaugura um círculo virtuoso, com o mercado de capitais assumindo um papel relevante no financiamento dos investimentos privados. Ao mesmo tempo, cresce a base de investidores, o mercado secundário ganha liquidez, o número de operações se multiplica e as taxas de retorno compatibilizam-se com o risco das aplicações. No centro disso tudo está o investidor, que assume cada vez mais a condição de protagonista e confere um novo perfil à indústria de investimento.

Carlos Ambrósio é Presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).