Uma revolução no mercado financeiro e de capitais
Carlos André é presidente da BB-DTVM

Passados 3 anos desde que se iniciou o mais recente e duradouro ciclo de redução da taxa básica de juros no Brasil, pode-se dizer que esse movimento provavelmente ficará marcado como um marco na evolução dos mercados financeiros e de capitais domésticos.
A combinação de juros nominais abaixo de 5% e inflação rodando na casa de 3,5% dissipa uma verdadeira cortina de fumaça que ocultava inúmeras ineficiências e distorções e que era a raiz das conhecidas “jabuticabas” do nosso mercado financeiro.
A despeito da contribuição relevante do elevado nível de ociosidade da economia para a contenção da inflação, com o ritmo da retomada da atividade mostrando-se aquém do desejado, não há como deixar de reconhecer e louvar a competente condução da política monetária pelo Banco Central nos últimos anos.
Estabelecidos os fundamentos macroeconômicos, já é possível perceber a reação positiva dos mercados em diversas frentes e os dados falam por si: número de investidores ativos na B3 superou 1,5 milhões, o que representa um crescimento próximo a 150% em relação a igual período de 2017; quantidade de cotistas em Fundos de Investimento Imobiliários (FII), superou a marca de 1 milhão em 2019 com mais de R$ 26 bilhões em novas captações até outubro; nesse mesmo período, as emissões de debêntures atingiram mais de R$ 138 bilhões e as operações de follow on de ações superaram os R$ 60 bilhões.
Ao analisar esse contexto e seus reflexos na indústria de previdência complementar fechada enxergamos oportunidades e desafios que se equivalem em sua representatividade. Os cerca de R$ 900 bilhões em ativos que compõem as carteiras dos fundos de pensão equivaliam, ao final de 2018, a aproximadamente 13% do PIB brasileiro. Se analisarmos esses mesmos números do mercado americano, teremos um volume de recursos de USD 27,5 trilhões, o que supera os 130% do PIB da maior economia do mundo. As diferenças em termos absolutos e relativos dão uma ideia do enorme diferencial de maturidade entre os 2 mercados.
Não se trata apenas de tamanho. Entre as EFPCs o impacto da dissipação da cortina de fumaça dos juros altos talvez se manifeste da maneira mais contundente. Juros reais de longo prazo, gravitando em torno de 3,5% ao ano, contrastam com as taxas reais de desconto dos passivos atuariais situadas entre 4% e 6% anualizadas. As NTN-Bs deixaram de ser uma opção óbvia de alocação de recursos. Agora o jogo é para valer e o trabalho eficiente de construção de uma carteira estruturalmente bem diversificada de investimentos fará toda a diferença.

Saindo dos títulos públicos – Um ponto a ser observado com atenção é a capacidade do nosso mercado de capitais local absorver todo o novo fluxo de recursos, que já começou a ser canalizado para ativos fora do universo de títulos públicos federais, seja via negociação direta, seja por intermédio de fundos de investimentos. Considerando o volume alocado em renda variável pelos fundos de pensão nacionais, essa classe de ativos representava 18,2% do total de investimentos ao final de junho/2019. Se imaginarmos essa participação relativa recompondo o seu patamar mais alto dos últimos 5 anos, ocorrido em 2014, de 24,7%, teríamos novos recursos sendo direcionados para bolsa de valores da ordem de R$ 60 bilhões, o que corresponde a todo o volume levantado com operações de follow on em 2019! Se fizermos esse mesmo exercício imaginando um percentual de alocação em renda variável equivalente ao existente no mercado de previdência nos EUA ao final de 2018, ou seja, 30,7%, teríamos um influxo equivalente a aproximadamente R$ 115 bilhões!
No caso dos títulos de crédito privado, a análise é um pouco mais complexa pela inexistência de dados estatísticos que incorporassem o volume existente desses títulos nas carteiras de fundos de investimento detidas pelas EFPCs. Entretanto, considerando apenas os títulos privados mantidos em carteira própria, a participação se limita a 2,1%, menor patamar desde 2010. Se voltarmos aos 5,1% existentes ao final de 2012, teríamos R$ 25,5 bilhões em demanda adicional por esse tipo de ativo.
Sob essa ótica, os números parecem encorajadores pelo suporte que essa demanda adicional por ativos pode trazer ao desenvolvimento de nosso mercado de capitais. Por outro lado, há pontos de alerta que merecem um acompanhamento cuidadoso. No mercado acionário, chama a atenção o significativo fluxo negativo de recursos provenientes de investidores estrangeiros na B3 que já ronda os R$ 40 bilhões este ano (desconsiderados os IPOs e follow on). Além disso, o número de empresas que vêm cancelando seus registros de Cias listadas está superando o de novos entrantes, situação essa agravada por um aparente crescente interesse de algumas empresas, especialmente as ligadas ao setor tecnológico, de buscarem listagens em mercados internacionais, em especial a NASDAQ. No lado da renda fixa, o forte crescimento recente do mercado de títulos privados, em especial das debêntures, inclusive com a multiplicação de fundos de investimentos que aplicam predominantemente nessa classe de ativos, ainda não veio acompanhado com o tão sonhado desenvolvimento de um mercado secundário mais profundo e eficiente que traga mais transparência e segurança para a marcação a mercado desses títulos.

Investindo no exterior – Em outro front, vale ressaltar o ganho de relevância das alocações em ativos internacionais. Os benefícios da diversificação em outras jurisdições, classes de ativos, setores econômicos etc, são amplamente conhecidos. No entanto, os volumes efetivamente direcionados para o mercado externo ainda são muito tímidos. Muitas EFPCs ainda tendem a considerar o investimento no exterior como uma classe de ativos em si, ignorando os efeitos de correlação com suas carteiras domésticas de investimento. Vale considerar também, o constante debate nos mercados mais maduros, entre os defensores de fundos de investimento com gestão ativa, na sua busca por geração consistente de alfa e os que enxergam os fundos passivos/indexados de baixíssimo custo, oferecido na forma de ETFs, como sendo uma solução mais eficiente para alocação de recursos.
Concluindo, é legítimo afirmar que estamos vivenciando uma verdadeira revolução no mercado financeiro e de capitais brasileiro que certamente trará implicações relevantes para a economia e para a comunidade de investidores, especialmente para aqueles com horizontes de investimento de longo prazo, que desempenharão papel fundamental nessa jornada rumo a um desenvolvimento sustentável do País e da sociedade brasileira.

Carlos André é Presidente da BBDTVM.