O papel dos Conselhos nas decisões de investimentos
Fábio Coelho é presidente da Amec e ex-superintendente interino da Previc

A experiência brasileira de crises, desvalorizações rápidas na taxa de câmbio, necessidade de pedido de socorro ao FMI e fuga repentina de capitais foram episódios que moldaram a cabeça do homo economicus no Brasil durante décadas.
Assistir o risco país ceder diante dos ajustes macroeconômicos em curso, assim como enfrentar a questão demográfica e com isso endereçar cenários fiscais horripilantes por meio de uma reforma da previdência, poderia parecer irreal até há bem pouco tempo. Mas estamos vivendo com inflação abaixo de 4% por período prolongado e com taxa de juros reais de curto prazo em torno de 1%, chegando na ponta longa ao patamar próximo de 3%. Essa é uma realidade que foi muito aguardada no país, sem desconsiderar todos os outros desafios nacionais.
Ao longo dos dois últimos anos, muitos gestores de recursos no Brasil já se mobilizaram para fazer essa transição de mundos. Os mais diligentes já aprovaram políticas de investimento ousadas, comunicaram a mudança do perfil de risco com maestria e capacitaram as equipes internas para lidar com novas classes de ativos, mas infelizmente esses casos ainda são exceções.

Novo normal – A indústria financeira ainda não internalizou o nível de mudança exigida daqui em diante. Muitos ainda refletem o pensamento saudosista de que “já vivi outras crises e essa fase áurea de inflação e juros comportados vai passar rápido”. O fato é que juros baixos (e até negativos) viraram o novo normal em diversas jurisdições. Investidores ao redor do mundo ainda estão tentando entender como seus portfolios serão impactados, outros estão adiando a decisão de mudança e alguns simplesmente ignoram o fenômeno.
No Brasil, a cultura inflacionária deixou marcas na sociedade e também na cabeça de gestores de recursos. A compra do mês no supermercado, o estoque de produtos na despensa e a manutenção de NTN-B em carteira são resquícios desse período. A flutuação do nível dos juros não é novidade por si só, mas a questão agora é a intensidade e a velocidade com que as coisas aconteceram.
Pode parecer muito natural aos gestores de carteiras a realidade da diversificação e do apetite forçado por maior nível de risco. É o assunto do momento, está na capa dos jornais e no papo do cafezinho. O fato é que muitos investidores institucionais no país não sabem como endereçar essa questão. Não se trata aqui de entender a dinâmica dos mercados ou de otimização de carteiras, mas sim do exercício do poder de convencimento para mobilizar gestores e representantes do conselho, onde de fato as decisões estratégicas são tomadas.
O conselheiro precisará de ajuda para digerir os números e se convencer de que qualquer que seja a solução, haverá efeitos colaterais. Por outro lado, os profissionais de investimento precisam entender que nem tudo se resume a um número em planilha. Há muitas questões subjetivas envolvidas.
A sensação de controle sobre a situação traz conforto e os conflitos costumam ser mais presentes em momentos de mudança. Haverá sempre uma voz experiente que se manifestará no sentido de que não precisamos de ajustes. A estratégia funcionou por 30 anos, por que não haverá de funcionar agora?
O mundo dos conselhos sempre foi um ambiente de pensamentos semelhantes. É recente a cultura ainda emergente da necessidade de diversidade nos boards, exatamente para que novas visões sejam incorporadas ao tradicionalismo, em especial durante aprovações de estratégias de longo prazo. A sensibilidade exigida na construção de consenso é um ato de arte, mais do que de ciência!

Convencer os Conselhos – Discutir o novo cenário econômico com analistas e diretores de investimentos é fácil. Já estão catequizados. O difícil agora é levar o tema para os conselhos em busca de validação da tese de que mudanças precisam ser feitas de maneira tempestiva, mas é aí onde começa a batalha. E as analogias militares são ótimas para este contexto.
Transferir o plano tático da sala de comando dos generais para as trincheiras do front de batalha já é um desafio por si só. Mas no caso de muitas instituições, são as trincheiras que estão provocando os generais em busca de uma batida de martelo.
A inércia se justifica não só pela complexidade técnica dos assuntos, mas também pelas consequências amargas de cada caminho disponível na solução. A depender da natureza da instituição, se um fundo de pensão ou uma seguradora por exemplo, os impactos podem se manifestar por meio de passivos explosivos ou de maior volatilidade.
Em pequena escala, uma leve mudança no perfil de risco do fundo de investimento escolhido pode funcionar como remédio para aumento da expectativa de rentabilidade. No entanto, para casas com grandes volumes financeiros, a solução passa pela compra direta de participação nas empresas investidas.
Imagine o contorcionismo operacional necessário para diversificar uma carteira de R$1 bilhão de patrimônio. Agora multiplique isso por 10 vezes ou mesmo 100 vezes em alguns fundos de pensão. Nessas situações, começam a faltar opções no próprio mercado brasileiro, o que certamente estimula a busca por investimentos em outras classes de ativos e até mesmo no exterior.

Participações acionárias – O investimento acionário não se resume apenas ao novo patamar do binômio de risco e retorno. A propriedade empresarial traz consigo uma série de direitos e obrigações que passam ao largo do senso comum para a maioria de investidores institucionais brasileiros. Basta dizer que a longeva lei societária brasileira, com mais de 40 anos de existência, possui quase 300 artigos que buscam disciplinar o relacionamento entre todas as partes interessadas.
O exercício e diligência do voto em assembleia, o relacionamento com as instâncias de governança nas empresas, a administração de conflitos de interesse e a escolha de representantes são alguns dos muitos temas envolvidos com a propriedade. Vale lembrar também que o mercado de capitais brasileiro viveu muitos episódios que exigiram dos acionistas verdadeiras batalhas societárias para que seus direitos fossem preservados em momentos de fusões, aquisições, take overs, formação de blocos de controle e outros.
A depender do percentual acionário detido nas empresas, o posicionamento como cotista majoritário ou minoritário certamente gerará dilemas. O primeiro deles se relaciona exatamente com a própria decisão sobre o nível de engajamento pretendido. O trader não terá interesse em participar das decisões corporativas cotidianas, mas o gestor de longo prazo deve criar mecanismos para preservar seu investimento e também contribuir com boas práticas de governança e sustentabilidade, em sentido amplo.
Considerando que o ato de pensar com cabeça de dono não é um aspecto cultural do qual podemos nos orgulhar, instituições que promovem as melhores práticas de governança, como é o caso da Associação de Investidores no Mercado de Capitais – Amec, podem ajudar nesse processo de engajamento.

Fábio Coelho é Presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais - Amec e ex-superintendente interino da Previc.