Mais abertos para o risco
Com a queda dos juros, renda variável, multimercados e fundos imobiliários são as principais apostas dos investidores para o próximo ano

O contínuo declínio da taxa Selic, reduzida pelo Copom (Comitê de Política Monetária) para 4,5% ao ano em 11 de dezembro, reforça a convicção dos gestores de que as aplicações de risco seguirão como as grandes estrelas do mercado no próximo ano e, provavelmente, nas temporadas seguintes. As assets participantes do levantamento da Investidor Institucional projetam, na média, um Ibovespa na marca de 130,3 mil pontos a final de 2020 e, não por acaso, consideram que a renda variável ativa, descolada da variação do índice da B3, será a melhor opção de aplicação, com boa vantagem sobre a renda variável passiva, os fundos multimercados e de investimentos imobiliários (FIIs).
“A bolsa de valores ainda tem muito espaço para crescer, pois ainda não foram embutidos nos preços dos papéis a melhoria dos indicadores macroeconômicos, em razão de questões políticas domésticas e da tensão existente no cenário externo, com a guerra comercial que vem sendo travada por Estados Unidos e China”, comenta Marcos Lyra, gestor da Daycoval Investimentos.
Os indicadores do segmento são ascendentes. Só nos 11 primeiros meses do ano, as emissões totais de ações (incluindo IPO e follow on) atingiram o montante histórico de R$ 78,3 bilhões, 3,70% a mais do que o recorde anterior, registrado em 2007, ou seja, antes da eclosão da crise financeira que abalou o planeta. “As ações são as francas favoritas para o páreo de 2020”, prevê Lyra. “As empresas listadas na B3, que se submeteram nos últimos anos a um forte processo de enxugamento de custos, estão preparadas para oferecer retornos consistentes tão logo ocorra uma retomada firme do crescimento.”
O único porém, na visão otimista sobre as perspectivas do mercado acionário, é a fuga dos investidores externos do pregão local. De acordo com estimativas da RB Investimentos, cerca de US$ 8,2 bilhões bateram asas entre janeiro e novembro últimos, aí incluídos os mercados primário e secundário. “Isso significa que a alta de 26% do Ibovespa, até o início de dezembro, foi fruto exclusivo do interesse e da ação de investidores locais”, observa Daniel Linger, estrategista da RB. “Os estrangeiros, no entanto, poderão voltar já a partir do próximo ano, pois alguns grandes bancos internacionais estão recomendando a bolsa brasileira a seus clientes. Quando isso ocorrer de forma intensiva, os negócios na B3 mudarão de patamar.”
É grande, também, a expectativa em relação aos fundos imobiliários, que vêm crescendo em escala geométrica. Nos 11 primeiros meses do ano, a captação líquida desses veículos de investimento somou R$ 32,5 bilhões, superando em 108,33% o pico anterior, alcançado em 2018. A procura pelos FIIs ganhou intensidade a partir do quarto trimestre do ano passado e vem se mantendo fortemente aquecida desde então. Em junho último, o contingente de cotistas de FIIs alcançou a marca de 1 milhão, 149,87% a mais do que em igual período de 2018.
“A Selic chegou a um dígito em julho de 2017 e continuou a cair, mas ainda havia dúvidas no mercado sobre a manutenção da tendência. A desconfiança sumiu de vez há pouco mais de um ano, quando as curvas longas dos juros também começaram a declinar, despertando uma demanda crescente pelos fundos imobiliários e outras aplicações de risco”, assinala Linger.
Os FIIs caíram no gosto dos investidores pessoas físicas, que gozam de isenção de Imposto de Renda sobre os rendimentos distribuídos por esses veículos, e também começam a atrair aplicadores de porte muito maior, como as entidades fechadas de previdência complementar (EFPCs). É um movimento que tende a se tornar ainda mais robusto, na avaliação do estrategista da RB, em razão, entre outros fatores, da redução gradual da vacância de lajes corporativas, centrais de distribuição e shopping centers, lastros usuais desses veículos de investimentos.
“A aquisição de cotas de fundos imobiliários é uma excelente opção para os fundos de pensão, talvez até mais segura e vantajosa do que aplicações no segmento de renda variável”, observa Linger. “Afinal, além de apresentarem níveis de volatilidade bem inferiores aos do mercado acionário, os FIIs vêm oferecendo rendimentos na faixa de 6,5% ao ano, que são mais do que suficientes para garantir o cumprimento das metas atuariais dos investidores institucionais.”

Sem apelo – Referência no mercado por décadas a fio, a renda fixa perde apelo junto a gestores e investidores devido à redução dos juros – especialmente títulos e produtos atrelados a certificados de depósito bancários (CDI). Uma exceção à regra é o crédito corporativo, que vem apresentando indicadores robustos. Dados da Associação Brasileira dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que a captação dos fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) entre janeiro e outubro alcançou a cifra recorde de R$ 50,65 bilhões, 235,43% acima do recorde anterior, registrado há 11 anos. A injeção de recursos elevou o patrimônio líquido dos FIDCs para a marca inédita de R$ 190,75 bilhões, 47,60% acima do total registrado em dezembro de 2018.
“Os FIDCs continuam a atrair recursos e investidores, na esteira da queda da remuneração dos títulos públicos federais, e vêm oferecendo novidades ao mercado. Duas categorias de papéis que estão ganhando espaço nos portfólios desses fundos ultimamente são precatórios e recebíveis não performados”, observa Daniel Pegorini, CEO da Valora Gestão de Investimentos.
Os fundos de pensão, no entanto, ainda relutam em dedicar espaços mais generosos em suas carteiras a títulos de crédito privado, ainda que disposição para isso não lhes falte. Algumas fundações de previdência, inclusive, não conseguiram cumprir cotas de alocação nesses ativos estabelecidas em suas políticas de investimento devido aos prêmios insatisfatórios oferecidos pelos emissores. Esses rendimentos, contudo, tendem a engordar, na avaliação de Maurício Lima, especialista de produtos da Western Asset. “Os spreads, de fato, andavam excessivamente magros, razão pela qual decidimos ignorar emissões até mesmo de empresas que gozam de bom conceito em nossa casa”, diz ele. “Já percebemos, contudo, uma reação, uma tendência ascendente dos prêmios, que, com certeza, vai gerar boas oportunidades de negócios.”

Projeções Macroeconômicas para o final de 2020 (em pdf)

Projeção macroeconômicas para o final de 2020
Indicadores Total de
respostas
Média das
respostas
INPC (em %) 25 3,71
IPCA (em %) 33 3,65
IGPM (em %) 30 4,11
Selic (em %) 33 4,39
Dólar (em R$) 31 4,07
Importações (em US$ bi) 29 198,44
Exportações (em US$ bi) 29 230,28
Reservas internacionais (em US$ bi) 24 363,35
Investimentos estrangeiros diretos (em US$ bi) 27 80,22
Déficit primário (em %) 29 -0,99
Dívida pública líquida (em %) 29 58,60
Taxa de investimentos da economia (em %) 24 16,16
PIB Brasil (em %) 33 2,31
PIB EUA (em %) 30 1,81
PIB China (em %) 27 5,85
Ibovespa (em mil pontos) 27 130,30
Pesquisa realizada pela Investidor Institucional no final de novembro de 2019