Papéis sob pressão na Bolsa
Juros nas mínimas e o aumento da competição com a chegada das fintechs coloca ações das instituições financeiras sob pressão na Bolsa

Nos últimos anos as ações dos quatro grandes bancos (Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil) foram as meninas dos olhos dos investidores. A alta concentração do mercado nas mãos dessas instituições financeiras – em dezembro de 2018 os quatro, junto com a Caixa, detinham 84,8% das operações de crédito no país – e, até por conta disso, os juros em patamares elevados formavam uma combinação difícil de ser batida. Na última década, foram raras as ocasiões em que as ações de ao menos um desses bancos tenha apresentado um desempenho inferior ao do Ibovespa. Em 2019, no entanto, a coisa começou a mudar de figura – nenhum dos quatro papéis conseguiu fazer frente ao principal benchmark da bolsa [vide a tabela ao lado].
São dois os fatores cruciais que explicam a má performance desses ativos no ano passado e que, tudo indica, deve persistir em 2020; em primeiro lugar, a redução da taxa básica de juros para patamares inéditos, com a Selic atualmente em 4,25% e com apostas no mercado de que pode cair ainda mais um pouco, o que fatalmente irá puxar para baixo também a receita dos bancos oriunda da concessão de crédito aos clientes. Além disso, o surgimento das fintechs e dos bancos digitais com serviços financeiros gratuitos ou de baixo custo, que embora sejam modelos de negócio que ainda precisam se provar, estão colocando em xeque o monopólio bancário que perdurou ao longo das últimas décadas.
Com as perspectivas mais desafiadoras daqui em diante, grandes gestoras de recursos focadas no segmento de renda variável, como Pacífico e Apex Capital, que somam mais de R$ 10 bilhões investidos em ações, optaram por zerar ou reduzir drasticamente sua exposição aos papéis dos bancos. “Estamos com a menor exposição que já tivemos em bancos desde a criação da asset em 2011”, afirma Paulo Weickert, sócio-fundador da Apex. 
Já na Pacífico, a visão é ainda mais cautelosa para o setor. “Tendo em vista as opções que a bolsa apresenta, não vemos motivos para apostar no segmento”, diz o gestor Leonardo Rufino. A Pacífico teve por muito tempo exposição a ativos financeiros, como por meio do Bradesco, Banco do Brasil e Itaúsa, sendo esta terceira a que perdurou por mais tempo no portfólio da casa, de 2012 até abril do ano passado, tendo sido a última ação do segmento na carteira da asset até o momento. “Já fomos muito mais otimistas com o setor”, afirma Rufino. “Com a Selic nas mínimas e o trabalho que o Banco Central (BC) tem desenvolvido para reduzir os juros ao consumidor final, não enxergo a possibilidade dos spreads não caírem, o que inclusive já está ocorrendo”, complementa o especialista.
Para fazer com que a redução da taxa Selic tenha reflexos ao público geral, em novembro do ano passado a autoridade monetária estabeleceu um limite aos juros do cheque especial, que não poderão ultrapassar a faixa de 8% mensais. De acordo com dados do BC, em outubro de 2019 a taxa média do cheque especial alcançou estratosféricos 305,9% ao ano, o que corresponde a 12% ao mês. Com a medida, o juro máximo da modalidade deve ficar ao redor de 150% ao ano.
Diante da atuação do órgão regulador e do surgimento das fintechs, é difícil imaginar que o aumento da competição no setor venha a se reduzir nos próximos anos, diz Rufino. “O ambiente competitivo tende a ficar igual ou pior do que está para os bancos”, afirma. Dentro do setor financeiro, lembra o gestor da Pacífico, não são apenas as ações dos bancos que têm sofrido com o aumento da concorrência frente às novas tecnologias. Os papéis da adquirente Cielo, que em dezembro de 2017 valiam R$ 23,52, desabaram para R$ 8,37 no fim de 2019, um tombo de 64,4%. A empresa se viu pressionada pela chegada de novos players que vieram com fome para disputar espaço nos balcões do varejo com suas maquininhas de pagamento, antes restritas quase que unicamente às da Cielo e da Rede. Dentre as ações do segmento financeiro na bolsa, o gestor da Pacífico aponta as ações da Porto Seguro e da B3 como suas preferidas no momento.

O gestor de renda variável da ARX Investimentos, Alexandre Sant´Anna, aponta ainda mais um fator que não favorece o desempenho das ações bancárias – a saída dos estrangeiros da bolsa brasileira, que até o dia 4 de março já tinham levado embora R$ 44,8 bilhões, o maior valor já registrado em um ano, superando em pouco mais de dois meses todo o montante resgatado em 2019, quando os saques somaram R$ 44,5 bilhões. “Muitos estrangeiros entram no mercado brasileiro através dos benchmarks como o Ibovespa, no qual os bancos ainda têm uma parcela relevante próxima de 30%”, afirma Sant´Anna. “Com essas saídas que temos observado, os papéis com participação importante nos índices acabam sofrendo mais”. Em anos anteriores a ARX chegou a ter uma exposição ao setor bancário superior aos 30% do índice de referência. Hoje, embora não tenha zerado, a posição da gestora em bancos está abaixo do benchmark, próxima de 10% do portfólio, com posições em Itaú, BB e Pan.
E não são apenas as gestoras independentes privadas que estão se desfazendo das ações do setor bancário. A gestão da carteira de renda variável da Caixa mostra que o próprio banco está mais reticente com o desempenho dos pares. No ano passado, esses papéis estiveram entre as principais apostas do banco para tentar tirar proveito da esperada retomada do crescimento econômico. Para 2020, contudo, os bancos perderam espaço no portfólio do banco público, que para este ano tem privilegiado ações relacionadas ao setor de infraestrutura, junto com as de consumo e construção que permaneceram do ano anterior, conta Fabiano Zimmermann, CIO da Caixa.

Weickert da Apex e Sant´Anna da ARX, contudo, compartilham da visão de que embora as perspectivas sejam mais desafiadoras, diante do desempenho recente e caso continuem em queda, logo as ações das instituições financeiras podem voltar a representar uma oportunidade de compra. “É verdade que hoje o investidor enxerga o valor dessas ações sob uma ótica diferente do que via há alguns anos e exige valuations mais atrativos para entrar, mas os bancos ainda são grandes geradores de lucros muito bem administrados e pagam altos dividendos”, diz o sócio da Apex.
Em 2019 os quatro bancos lucraram conjuntamente R$ 81,5 bilhões, o maior valor da história que correspondeu a uma alta de 18% ante 2018. Além disso, eles pagaram no ano passado aproximadamente R$ 58 bilhões aos cotistas a título de dividendos e juros sobre capital próprio, o maior valor da série histórica iniciada em 2008 e um crescimento de 56,5% na comparação com 2018. Ou seja, embora o cenário não seja mais tão positivo como outrora, eles mostram que ainda tem bastante lenha para queimar.
Sinal da força das instituições financeiras para enfrentar os novos tempos veio com a compra, em maio de 2017, de uma fatia de 49,9% da XP pelo Itaú por R$ 5,7 bilhões. No entanto, ao tentar costurar um acordo para elevar sua fatia e assumir o controle da corretora, o banco viu suas intenções serem podadas pelo Banco Central. “Conforme as novas casas do setor financeiro comecem a ganhar escala, se tornando players relevantes do mercado, é cada vez mais provável que o órgão regulador impeça a consolidação por parte dos grandes bancos”, afirma Weickert.