A tempestade após a bonança
Mercado acionário passa por maior realização da década. Gestores tentam manter a calma e algum otimismo diante das incertezas sobre o coronavírus

Maio de 2017 tinha sido, até a recente crise do coronavírus, a última vez em que a bolsa brasileira havia acionado o ‘circuit breaker’, que é quando as negociações são paralisadas temporariamente após uma queda do Ibovespa superior aos 10%, em uma tentativa de acalmar os ânimos gerais. O motivo do pânico na ocasião foi o episódio envolvendo o então presidente Michel Temer flagrado em conversas pouco republicanas com o sócio da JBS, Joesley Baptista, nos porões do Palácio do Jaburu.
Na época, os investidores chegaram a ficar temerosos quanto à prometida agenda de reformas caso outro presidente da República sofresse impeachment em menos de um ano. Aos trancos e barrancos Temer manteve-se no posto e fez o que pode para avançar com a reforma liberal na economia, mantida e acelerada no governo Bolsonaro.
Diante da percepção positiva do mercado em relação às mudanças promovidas e prometidas na economia, mesmo com um PIB não crescendo muito mais do que 1% ao ano, até meados de janeiro deste ano a bolsa vinha a cada dia renovando seus recordes e alcançando novas máximas históricas. No dia 23 de janeiro de 2020, o Ibovespa atingiu a sua maior pontuação, de 119,5 mil pontos, o que corresponde a uma alta de 106,4% em relação aos patamares dos 57,9 mil pontos de agosto de 2016, quando do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.
Nesse período de forte valorização a bolsa amealhou uma série de novos investidores, que ficaram órfãos da renda fixa ao ver a taxa Selic desmoronar de 14,25% em outubro de 2016 para 4,25% em fevereiro de 2020. Em outubro do ano passado, eram 1,5 milhão de CPFs inscritos na bolsa, uma alta de 95% em bases anuais.

Com o surgimento e rápida disseminação do coronavírus, e diante das incertezas sobre seu impacto na sociedade e na economia, em um intervalo de uma semana a bolsa teve quatro ‘circuit breakers’, o que nunca havia ocorrido na história do mercado local, sendo dois no mesmo dia, algo só visto antes na crise do ‘subprime’ em 2008. Do patamar máximo alcançado em janeiro de 2020, o Ibovespa teve em pouco mais de um mês uma queda superior aos 40%, voltando para a casa dos 70 mil pontos.
Boa parte dos investidores em bolsa, seja da leva recente que entrou nos últimos meses ou não, ainda não havia presenciado uma realização em magnitude tão intensa. E embora ninguém saiba ainda ao certo como será o país e o mundo quando a nova doença se debelar, gestores profissionais tentam no momento fazer uma leitura otimista do cenário e enxergar o copo meio cheio.
“Nossa leitura atual é de que o coronavírus, além de ser um problema temporário, não irá se alastrar com tanta força no hemisfério sul dada as condições climáticas menos propícias para sua disseminação na região”, diz Pablo Riveroll, gestor responsável pela renda variável na América Latina da Schroders, que fica baseado em Londres.
Por conta dessa leitura relativamente tranquilizadora para o Brasil, a asset tem aumentado sua exposição em ativos de empresas brasileiras de boa qualidade que considera que ficaram baratos após a sangria recente. “Empresas mais voltadas ao exterior, como exportadoras de commodities e companhias aéreas tendem a sofrer mais”, diz Riveroll. “Já as empresas mais voltadas à economia doméstica, dos setores de energia e educação por exemplo, além do varejo eletrônico, tendem a sentir menos o impacto da desaceleração como reflexo do coronavírus”, prevê o gestor, que diz ainda que conta também a favor da compra de ações brasileiras, sob a ótica de um estrangeiro, a forte desvalorização do Real, que já chegou a ultrapassar a marca dos R$ 5. “Por muito tempo o nível do câmbio, e consequentemente dos preços dos ativos no Brasil eram considerados caros por investidores fora do país, mas hoje essa situação mudou”, diz o especialista.
Riveroll ressalta, contudo, que é preciso fazer uma análise apurada para separar o joio do trigo em meio à liquidação de preços. “Na onda de IPOs na bolsa brasileira, por conta do excesso de liquidez de investidores saindo da renda fixa em busca de retorno, tivemos uma série de empresas boas vindo a mercado, mas também algumas não tão boas assim, principalmente no setor financeiro e imobiliário”, afirma o gestor da Schroders.

Segundo Paola Bonoldi, gestora de renda variável do Plural, um fator que pode fazer com que os novos investidores que entraram na bolsa há pouco tempo não se vejam tentados a sair após a forte queda é o simples fato deles não terem mais o refúgio de outrora nos juros com prêmios satisfatórios. “O investidor pessoa física, que começou a comprar ações recentemente, não está acostumado com uma queda tão forte, já que os últimos anos foram de alta da bolsa, e ele precisa tomar muito cuidado para não vender no momento errado”, diz Paola.
Magali Bim, que também atua na gestão de ações do Plural, afirma que a queda do mercado não é condizente com a piora observada, pelo menos até o momento, nos fundamentos das empresas. “Já tivemos outras crises e acredito que vamos superar essa também”, diz ela. “Em ocasiões passadas enfrentamos vírus que até então eram desconhecidos e se tornaram conhecidos, e entendo que o mesmo vai ocorrer com o coronavírus”, afirma a gestora do Plural. Dada a visão otimista, a especialista avalia a queda como uma oportunidade para os fundos de pensão aumentarem seu posicionamento em renda variável.
De toda forma, diante da forte volatilidade que tem dominado os pregões, Magali afirma que fundos de dividendos, pelas características das companhias, que geralmente gozam de um fluxo de caixa mais estável, podem ser uma boa alternativa para o investidor que busca algum tipo de proteção mas não quer sair completamente da bolsa. “No entanto, assim como os fundos de dividendos caem menos que os mercados em ciclos de baixa, nos momentos de alta eles tendem a ficar para trás”, diz a especialista. Para ela, se a onda de IPOs prosseguir aquecida como vinha até antes da eclosão da pandemia, ela servirá como um teste para avaliar o comportamento do investidor pessoa física. “No ano passado, o investidor local sustentou a maior parte das ofertas de ações no mercado, que não teve uma presença relevante dos estrangeiros”, afirma Magali. “Precisamos acompanhar para ver se neste momento o investidor local seguirá comprando as novas ações que vierem a ser lançadas”.
Já o economista Álvaro Frasson, do BTG Pactual digital, adota um tom um pouco mais cauteloso. Segundo ele, tendo em vista a baixa visibilidade do horizonte à frente, o melhor a fazer é aguardar sem grandes movimentações. “No meio de uma tempestade em alto mar não há muitas alternativas ao timoneiro senão esperar a tormenta passar”, escreveu Frasson, em relatório. Ele lembra que o H1N1 em 2009, também conhecido como gripe suína, foi considerada uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde, causou aproximadamente duas mil mortes no Brasil e, mesmo assim, o Ibovespa se recuperou entre três a seis meses. “É compreensível a apreensão dos investidores de primeira viagem, mas vale entender que o mercado financeiro é feito, além de volatilidade, de paciência”, afirma o especialista no relatório do banco, que termina dizendo que passamos por um momento de aprendizado, e que “mar calmo nunca fez bom marinheiro”.