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Quando o curto prazo não é ruim
Empresas com investidores de curto prazo se adaptaram melhor às mudanças

A conquista da confiança e, sobretudo, dos recursos de investidores institucionais, como fundos de pensão e seguradoras, é o sonho de consumo de qualquer companhia com ações negociadas em bolsas de valores. A visão de longo prazo desses aplicadores garante, de fato, as condições e o timing ideais para uma condução mais estratégica e eficaz dos negócios, mas tal regra tem as suas exceções. O estudo “Adapting to radical change: The benefits of short-horizon investors” (“Adaptando-se à mudança radical: Os benefícios dos investidores de curto prazo”, em tradução livre), das economistas Mariassunta Gianetti, da Escola de Economia de Estocolmo, e Xiaoyun Yu, da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, mostra que, após a ocorrência de choques que mudam o ambiente competitivo, as empresas com mais investidores de curto prazo sofrem quedas menores nas vendas e colhem melhores resultados no longo prazo do que as demais.
O trabalho se debruçou sobre indicadores de desempenho de cerca de 500 companhias dos Estados Unidos afetadas diretamente por grandes cortes nas tarifas de importação executados ao longo de três décadas, de 1981 a 2011. Com um grau menor de eficiência em condições normais de mercado, os empreendimentos que contam com quadros mais instáveis de acionistas demonstraram uma maior capacidade de adaptação aos novos cenários, caracterizados por um crescimento expressivo da concorrência. É um diferencial que, na avaliação das autoras, tende a ganhar relevância crescente em razão da globalização e do acelerado processo de inovação tecnológica.
“As empresas que não conseguem se adaptar podem se tornar ‘zumbis’, aumentando a má alocação de capital e arrastando para baixo o desempenho macroeconômico geral, como vem ocorrendo no Japão. Os investidores de curto prazo podem, portanto, ser um antídoto para a esclerose econômica”, observam as economistas em seu terceiro estudo produzido em conjunto.
Um dos estímulos mais fortes exercidos por essa classe de acionistas se manifesta na área da inovação. Tradicionalmente menos propensas à realização de investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), as companhias analisadas por Mariassunta e Xiaoyun costumam mudar radicalmente de postura na esteira de choques em seus segmentos de atuação, passando a reforçar as grades de produtos, depósitos de patentes. e novas frentes e ramos de atuação.
A dança das cadeiras também se mostra mais intensa, com índices de rotatividade de executivos bem superiores aos das demais corporações, refletindo a busca de reinvenção e retenção dos acionistas de curto prazo.