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Novas empresas vão às bolsas
A CVM já chancelou 12 IPOs desde maio, quando o mercado começou a reagir à quarentena imposta pelo coronavírus, e analisa mais 50 operações

Apesar dos sérios estragos que a pandemia da Covid-19 causou ao mercado acionário doméstico, mais de meia centena de empresas já bateram à porta da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) neste ano para pedir o registro de ofertas iniciais de ações (IPOs). Dessas, a autarquia federal já chancelou dezesseis, sendo doze desde maio.
“A recuperação do Ibovespa, a partir de abril, em paralelo aos novos cortes na Selic, serviu de estímulo, em meio à crise, à abertura de capital por empresas que precisavam de recursos para investir em comércio virtual, em logística e na aquisição de concorrentes”, analisa José Eduardo Laloni, vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). “Várias companhias que programavam IPOs para daqui a dois ou três anos resolveram antecipar esses projetos. Os contatos com as instituições de mercado ganharam intensidade a partir de junho.”
Entretanto, algumas empresas que já tinham recebido a autorização da CVM desistiram, como é o caso da Compass Gás e Energia, controlada da Cosan. A empresa havia precificado seu IPO em R$ 4,4 bilhões, mas passou a temer por esse objetivo com medo de uma reprecificação para baixo por parte do mercado. Fontes do mercado contam que a Cosan temia que a faixa de preço estabelecida entre R$ 25,50 e R$ 31,50 tivesse que ser reduzida para encontrar compradores.
Na segunda quinzena de setembro também a Caixa Seguridade, controlada pela Caixa, e a BR Partners, suspenderam seus IPOs. As explicações em nenhum dos dois casos é clara, mas em ambos atribui-se ao “humor do mercado”, que nas últimas semanas tem se mostrado bastante preocupado com as notícias de que o governo resiste a encarar uma pauta de disciplina fiscal e quer continuar gastando para garantir a reeleição do presidente Bolsonaro.
Por conta dessa leitura o Ibovespa, principal índice da B3, fechou o mês de setembro a 94.603 pontos, 7,40% abaixo dos 102.167 pontos do início do mês. Em relação ao pico de 105.605 pontos registrado em 29 de julho representa uma queda de 10,4%. As desistentes temem, em geral, conseguir menos do mercado do que haviam projetado em seus planos de lançamento.

As desistências não significam, entretanto, que a onda de IPOs vai ser revertida, mas inspiram a manter um olhar mais atento sobre os próximos movimentos. “Eu acho que se trata de uma freada de arrumação, e que faz parte do processo”, analisa Álvaro Gonçalvez, presidente da Stratus, uma gestora de private equity.
Segundo ele, “o private equity vem ganhando espaço no Brasil como o grande preparador de empresas para a bolsa de valores”. Ele contabiliza que as companhias investidas por essa classe de fundos “responderam por 48% dos IPOs no país nos últimos cinco anos. E as suas performances na bolsa, vale destacar, são bem superiores às das demais empresas.”
Indutora da abertura de capital da Senior Solution em 2013, atualmente Sinqia, a Stratus adota um rígido padrão em cada uma das empresas que leva ao mercado. O processo tem início com os chamados “planos de cem dias”, que consistem na implantação de rotinas e procedimentos exigidos apenas de empresas abertas, como a realização de auditorias independentes trimestrais e a contratação de membros independentes para os conselhos de administração. Em paralelo, a gestora passa a reforçar a musculatura das investidas por meio de aquisições, para a obtenção de ganhos de escala.
“Na média, costumamos providenciar os registros de companhias abertas no segundo ano de investimento, o mais tardar no terceiro”, assinala Gonçalves. “Elas ficam prontas para chegar à bolsa, mas projetos efetivos nesse sentido dependem, claro, de seus portes e desempenhos.”
Os planos da Stratus para os próximos meses preveem pedidos de registro de IPOs na CVM para duas das sete integrantes da sua carteira. A primeira é a BBM, uma empresa do ramo de transporte rodoviário de cargas, e a segunda é a Maestro, voltada à terceirização e à gestão de frotas de veículos para clientes corporativos. Numa segunda etapa, prevista para o próximo ano, a ideia é promover a abertura de capital da DGH Alimentos, que controla duas indústrias do setor, e a rede de farmácias InvestFarma-Poupafarma. “Essas quatro empresas se encontram 100% preparadas para o mercado”, assinala Gonçalves. “Estamos numa mesa à beira da pista só aguardando o melhor momento para cair na dança.”

De acordo com Laloni, é difícil traçar projeções sobre o total de IPOs para este ano, principalmente porque o calendário já se aproxima do fim e boa parte da fila na CVM só andará a partir do próximo ano. “Não há problema algum nisso, pois é positivo ter fluxos fortes de abertura de capital ao longo de todos os trimestres”, diz Laloni.
Segundo ele, “há espaço no mercado brasileiro para um volume maior de IPOs. Na Itália, por exemplo, são realizadas entre 80 e 100 operações a cada ano, muito acima do recorde brasileiro, de 64 IPOs, registrado em 2007”. Avaliação semelhante tem Alessandro Farkuh, head de investimentos do Bradesco BBI, que atuou como líder do IPO da Ambipar, em julho, com um volume de R$ 1,08 bilhão. Ele prevê para o próximo ano a manutenção das aberturas de capital no patamar registrado neste segundo semestre. “Se ocorrerem retomadas do crescimento econômico e as reformas estruturais avançarem, o processo tenderá a ganhar ainda mais escala”, diz Farkuh.
A disposição dos investidores de participarem de ofertas de capital por parte das empresas pode ser medida pelo número de novos entrantes da bolsa. Entre dezembro de 2019 e agosto último, o número de investidores pessoas físicas na bolsa cresceu 75,98%, alcançando 2,95 milhões de investidores. “É um fenômeno sem volta”, analisa o gestor de renda variável da Fator Administração de Recursos, Daniel Utsch. “As pessoas físicas já são referência na precificação de papéis”, assinala o executivo. “Neste ano, esses investidores até elevaram as suas posições em ações durante a crise, adotando uma postura totalmente distinta da observada no passado.”

Alguns ajustes impostos pela pandemia do novo coronavírus também contribuíram para dar maior eficácia às estratégias das ofertas iniciais. Um exemplo apontado por Carlos Zanotta, sócio da área de mercados de capitais globais da consultoria Deloitte, foi a substituição de apresentações e eventos presenciais por reuniões virtuais. “A opção forçada de fazer conferências pela internet permitiu atingir um número muito maior de investidores, inclusive no exterior”, diz Zanotta, que destaca ainda o trabalho executado pela principal autoridade do setor, a CVM. Segundo ele, “com a revisão e atualização de normas, a CVM vem viabilizando reduções nos gastos regulatórios. Trata-se de mais um estímulo para os IPOs, cujos custos no Brasil, ao redor de 4,9% sobre os valores distribuídos, são inferiores aos de outros mercados.”
Na visão de Renato Ometto, gestor de ações da Mauá Capital, as desistências de Compass, Br Partners e Caixa Seguridade de continuar com seus IPOs decorre não apenas das percepções negativas dos investidores locais em relação ao comportamento fiscal do governo Bolsonaro mas também dos rumos incertos que está tomando a campanha eleitoral nos Estados Unidos, onde o republicano Donald Trump parece perder terreno para o democrata Joe Biden. “Em decorrência dessas leituras, os juros longos abriram bastante. Mas acredito que boas ações que cheguem ao mercado a preços razoáveis continuarão a ter demanda”, diz ele.
A Mauá já adquiriu papéis de algumas novatas na bolsa, caso da rede de material de construção Quero-Quero – que apresentou valorização de 7,50% entre a sua estreia, em 10 de agosto, e 30 de setembro – e faz planos em relação a futuras entrantes. A lista de preferência inclui nomes como a varejista Havan, o atacarejo Mateus, do Maranhão, e a Rede D’Or São Luís, de hospitais. “A janela dos IPOs deve se estender até 2022, no mínimo, mesmo que a Selic suba para 5% ao ano”, diz Ometto. “Enquanto ela estiver aberta, vamos seguir identificando oportunidades.”