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Green bonds estão em alta
As emissões de títulos sustentáveis por empresas locais, que cresceram 133,91% no ano passado, iniciam 2021 nas alturas

Edição 333

Em alta no cenário global, a onda ambiental, social e de governança (ESG em inglês) parece que finalmente começa a contagiar o mercado doméstico de títulos verdes. De acordo com levantamento da consultoria Sitawi, as emissões somaram 31 em 2020, representando crescimento de 93,75% em relação a 2019. Em termos de volume captado, atingiram R$ 26,6 bilhões em 2020, 133,91% a mais do que no ano anterior e cerca de 82% de todo o estoque anterior de operações do gênero realizadas por empresas brasileiras, cuja formação teve início em 2015, com a pioneira emissão de 500 milhões de euros em eurobonds pela BRF.
“O bonde dos green bonds brasileiros, tudo indica, entrou de vez nos trilhos e vem ganhando velocidade”, comenta Gustavo Pimentel, sócio da Sitawi. “Depois de apresentar crescimento expressivo no último ano, o segmento segue forte em 2021. Até 21 de janeiro, as emissões já atingiam a casa de R$ 15 bilhões, superando o total registrado em 2019.”
O salto, na visão de Pimentel, resulta não só da crescente difusão da agenda ESG por incentivo e pressão de investidores e instituições encarregadas das operações. Além disso, também contribuíram para o salto as novas modalidades de emissões, atreladas a desempenho e metas e não a projetos sociais e ambientais específicos, que começaram a surgir a partir de 2017. “Conhecido como ESG-linked, esse conceito viabiliza captações de recursos não ‘carimbados’, dando maior margem de manobra aos emissores”, diz Pimentel. “Os juros, contudo, tendem a ser mais altos, se as metas não forem atingidas.”
Outro vetor de expansão, observa o consultor, deveu-se à recente adesão dos bancos ao time de emissores verdes. Desde março de 2020, sete instituições públicas e privadas locais realizaram oito captações domésticas e internacionais, o correspondente a um quinto das operações registradas no período. “Seguindo o exemplo das instituições do exterior, os bancos brasileiros desenvolveram estruturas voltadas a operações sustentáveis. Eles estão captando recursos aqui e lá fora para oferecer crédito a pequenas e médias empresas”, diz Pimentel.

O Bradesco fez a sua estreia no nicho há pouco mais de um mês com uma emissão de R$ 1,2 bilhão de letras financeiras verdes. A operação, que reforçou as linhas da instituição voltadas ao financiamento de projetos de eficiência energética, tem prazo de 30 meses e registrou uma demanda três vezes superior à oferta privada, voltada, sobretudo, a fundos de investimento.
“Os juros são de 0,6% ao ano além da variação do CDI. A taxa, acreditamos, ficou entre 0,1 e 0,15 ponto percentual abaixo do que seria o patamar de remuneração de uma letra financeira convencional”, observa o diretor executivo do banco, Roberto de Jesus Paris, que enxerga um grande potencial de crescimento na área para o setor financeiro em geral. “O conceito ESG vem ganhando impulso em empresas de diversos portes e setores, especialmente a partir de 2020, o que gera demandas específicas de crédito. Por conta disso, seguimos atentos a novas janelas de oportunidades para a emissão de títulos verdes no mercado local e também no exterior.”
Liderado por geradoras e distribuidoras de energia e fabricantes de papel e celulose, o grupo de emissores verdes também começou a contar, recentemente, com companhias ligadas ao agronegócio. Nos últimos 12 meses, sete representantes do setor protagonizaram dez emissões de títulos. Quatro delas foram realizadas pela FS Bioenergia, produtora de etanol e óleo de milho, energia e rações animais. Depois de duas operações no mercado local, com certificados de recebíveis do agronegócio (CRAs) e imobiliários (CRIs), realizadas no primeiro semestre de 2020, a empresa promoveu, em dezembro e janeiro últimos, duas novas emissões, de US$ 500 milhões e US$ 50 milhões, para saldar um financiamento externo usado na construção de duas fábricas. Com vencimento em 2025, os novos papéis garantem juros na faixa de 8% e 10% ao ano aos investidores. “O interesse foi grande, especialmente na segunda emissão, de US$ 50 milhões, que gerou uma demanda por volta de US$ 300 milhões”, comemora o CEO da FS Bioenergia, Rafael Davidsohn Abud.

O grande destaque na recente safra de títulos verdes do agronegócio ficou por conta da Amaggi, uma das maiores comercializadoras de grãos e fibras agrícolas do país. A empresa fez a sua estreia no mercado de capitais na segunda quinzena de janeiro, com uma emissão de bonds sustentáveis, os chamados sustainability bonds, que abrangem projetos de cunho ambiental e também social, no valor de US$ 750 milhões
“Nossa meta era US$ 500 milhões, mas acabamos captando US$ 750 milhões, em razão da grande procura. Mais de 160 investidores, principalmente dos Estados Unidos e da Europa, compraram nossos papéis”, conta o diretor financeiro e administrativo da empresa, Dante Pozzi. “Outra surpresa agradável foi o efeito da forte demanda sobre as taxas de remuneração dos bonds, que caíram de 5,75% para 5,25% ao ano.”
Os preparativos para a operação começaram em agosto do ano passado, com os primeiros contatos com agências de rating, e atingiram o ápice nos quatro dias úteis anteriores à operação, concluída em 21 de janeiro. Entre 16 e 20 de janeiro, Ponzi e a diretora de sustentabilidade, Juliana Lopes, cumpriram um road show apresentando a empresa e os seus compromissos com o conceito ESG, em conferências virtuais, acerca de 90 investidores estrangeiros.
O sucesso da investida representou, na visão do executivo, o reconhecimento internacional das credenciais ESG do negócio criado por André Maggi (1927-2001), pai do ex-governador de Mato Grosso e ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi. A Amaggi, que criou a sua diretoria de sustentabilidade há oito anos, conta com cinco pequenas centrais hidrelétricas (PCH), com capacidade de geração de 70 MW, e desde 2017 utiliza um sistema de imagens geradas por satélite para monitorar os 5,9 mil produtores de grãos com os quais trabalha.
Os recursos captados com os bonds, que vencerão em 2028, serão usados, prioritariamente, em projetos de energia renovável e rastreabilidade. A empresa vai iniciar as obras da sua sexta hidrelétrica, com 22,3 MW, no rio Juruena, em Mato Grosso. Além disso, servirão para montar um intenso programa de certificação de produtores de soja segundo os padrões ditados pela Round Table on Responsible Soy Association (RTRS) e a Proterra Foundation. “O objetivo estabelecido na emissão de bonds é elevar o grau de certificação da soja com que operamos, hoje de quase 30%. Não estipulamos, contudo, uma meta numérica específica”, diz Pozzi.
Com o sucesso da operação, a empresa já pensa em novos títulos verdes. “Com certeza, realizaremos novas emissões nos próximos anos. A intenção é recorrer aos investidores de forma constante”, diz Pozzi. “Optamos, na estreia, pelo mercado internacional em razão de sua escala. Mas não descartamos emissões de CRAs no mercado local, que vem ganhando robustez.”

Outra do setor agrícola que captou recentemente é SLC Agrícola, nome de destaque na produção de algodão, soja e milho. Com ações negociadas em bolsa desde 2007, a empresa captou R$ 480 milhões há dois meses por intermédio do lançamento de CRAs verdes com prazos de resgate de cinco anos. “Foi a nossa segunda emissão de CRAs e a primeira envolvendo títulos verdes”, conta o CEO Aurélio Pavinato, que destaca os efeitos do apelo sustentável dos novos papéis sobre o prêmio da operação. “De pouco mais de 4% ao ano, além da variação do IPCA, a taxa acabou fechando em 3,6%. Se fossem CRAs tradicionais, os juros dificilmente cairiam para um patamar abaixo de 3,8%.”
Criada em 1977, a empresa intensificou o seu programa de ações de caráter ESG ao longo dos últimos dez anos. O esforço resultou numa economia de 30% no uso de água para irrigação, num corte de 25% no consumo de óleo diesel na colheita, e na certificação de dez de suas 16 fazendas de acordo com as normas ISO 14001, OHSAS 18001 e NBR 16001. “Os recursos captados em dezembro servirão para dar continuidade e ampliar projetos ambientais e sociais”, diz Pavinato. “Se cumprirmos as metas estabelecidas na operação, teremos direito a uma redução de 0,05 ponto percentual no prêmio pago aos investidores.”
O roteiro é extenso. Além da obtenção de novas certificações, a SLC Agrícola planeja investir em dois projetos para diminuir o uso de pesticidas. O primeiro contempla a expansão da produção própria de biodefensivos, hoje realizada em oito fazendas, para 100% das unidades. O outro prevê a utilização de forma mais intensa de um sistema eletrônico que, por meio de uma rede sensores, detecta o calor exalado por doenças e pragas das lavouras, viabilizando aplicações localizadas de produtos químicos. “Para garantir maior eficiência a esse processo, estamos instalando a tecnologia 4G nas 16 fazendas”, diz o CEO
Com poucas operações realizadas, que incluem além do IPO, um follow-on em 2008 e o lançamento de dois CRAs, a SLC se prepara para acessar com mais frequência o mercado de capitais. Segundo Pavinato, a empresa pretende fazer novas emissões de títulos de dívida corporativa nos próximos anos. “Nosso negócio é de capital intensivo, estamos em expansão e precisaremos de mais recursos e queremos acessar o mercado com futuras emissões verdes”, ressalta o executivo.

Os exemplos desses grandes atores do campo tende a ser seguido por negócios de menor porte, avaliam a securitizadora Ecoagro e a ONG britânica Climate Bonds Initiative (CBI). A dupla participou da estruturação da emissão, em setembro, de R$ 25 milhões em CRAs pela Rizoma Agro – voltada à produção regenerativa de grãos e leguminosas orgânicos –, que recebeu a primeira certificação de green bond da CBI no plano global. Os papéis, que geraram uma demanda por volta de R$ 100 milhões, têm prazo de vencimento de sete anos e oferecem aos investidores juros de 7% ao ano além da variação do IPCA, que começarão a ser pagos daqui a dois anos.
“A operação da Rizoma despertou interesse no agronegócio: temos mantido, em média, cinco contatos com potenciais emissores por semana. No ritmo atual, deveremos certificar mais duas emissões até junho e fechar o ano com pelo menos outras cinco”, diz Leisa Cardoso de Souza, coordenadora do programa de agricultura da CBI. “Para viabilizar o acesso de negócios menores ao mercado, estamos, inclusive, avaliando a viabilidade de emissões conjuntas de CRAs verdes.”
O mercado de CRAs está aquecido. Em 2020, as 64 emissões desses títulos somaram R$ 15,7 bilhões, 28% a mais do que em 2019 Um detalhe importante, observa Cristiano Macedo, head comercial da Ecoagro, é que mais de 60% dos lançamentos no último ano foram realizados por novos emissores e boa parte dos negócios ficou abaixo do tíquete médio de R$ 245 milhões. “Consultas sobre CRAs seguem crescendo, inclusive de empresas dispostas a valorizar as suas credenciais ESG, para obter prazos e custos mais vantajosos nas operações”, diz o executivo.
Títulos com apelo verde devem continuar crescendo neste ano. A Ecoagro pretende anunciar , nos próximos 30 dias, duas novas emissões de CRAs verdes. A Sitawi analisa no momento cerca de 30 operações do gênero, que deverão chegar ao mercado nos próximos meses. A lista de candidatos a emissores sustentáveis inclui desde usinas de etanol a traders de commodities, passando por empresas de logística e fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs).
“Ainda tenho dúvidas sobre a disposição do agronegócio em realizar emissões verdes em grande escala no curto prazo. Mas penso que o setor deve, sim, contribuir para o crescimento do mercado nesta temporada, diz Gustavo Pimentel, sócio da Sitawi. Ele avalia que devem ocorrer cerca de 60 emissões verdes em 2020, totalizando entre R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões.