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Ofertas públicas engataram marcha-ré
Depois de forte movimento no primeiro bimestre, as ofertas públicas de ações declinaram por conta da queda nos preços mínimos

Edição 337

As incertezas do mercado no primeiro semestre deste ano, entre as quais as mais impactantes foram a deterioração das contas públicas e a baixa disponibilidade de doses de imunizantes para vacinar a população contra a Covid-19, derrubaram muitos lançamentos de Ofertas Públicas de Ações (IPO na sigla em inglês). Os volumes recordes alcançados no primeiro bimestre (13 operações com volume de R$ 10,60 bilhões) estimularam mais empresas a apresentarem pedidos de abertura de capital à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Foram cerca de 30 pedidos entre fevereiro e março, mas somente seis realizadas entre março e junho (quatro em abril e duas em maio).
“Os números expressivos do primeiro bimestre deram origem a uma onda de propostas concentradas em operações de menor porte, abaixo de R$ 1 bilhão”, comenta Gustavo Miranda, responsável pelo investment banking do Santander. “Faltaram braços para analisar todos esses projetos. No período seguinte o cenário piorou, com perspectivas de deterioração das contas públicas.”
Várias candidatas à listagem na B3 resolveram, então, engatar a marcha-ré. Entre março e maio 23 empresas anunciaram cancelamentos de IPOs. As que persistiram tiveram de reduzir os valores que pretendiam levantar. Se no primeiro bimestre 77% dos IPOs igualaram ou superaram os preços mínimos definidos, entre abril e maio só metade das seis ofertas atingiram esse objetivo. “O mercado se tornou mais seletivo em relação à valuation das empresas”, diz Miranda.

A Infracommerce, que atua em comércio eletrônico e logística em cinco mercados da América Latina, sentiu na pele os efeitos dessa corrida aos IPOs, mas não desistiu. Em 27 de abril, dois dias antes da data de sua estreia no pregão da B3, a empresa interrompeu o processo de abertura de capital. “A decisão foi tomada depois que o corte de 18% no preço mínimo, para R$ 18, não aqueceu demanda”, conta o diretor de relações com investidores Fábio Bortolotti.
Como opção, a companhia reorganizou a estratégia e anunciou, em 29 de abril, uma oferta restrita primária. O valor das ações teve de se ajustar às condições de mercado, sofrendo um corte adicional de 11%. “O preço fechou em R$ 16”, diz Bortolotti. “No início de maio captamos R$ 1 bilhão, vindos de fundos focados em tecnologia, investidores externos e até fundos de pensão.”
As chegadas da Mobly e da Orizon Valorização de Resíduos à B3, em fevereiro, foram bem mais tranquilas. Controlada pela alemã Home24, a primeira já tinha experiência no exterior pois em 2018 tinha captado 170 milhões de euros abrindo o capital na bolsa de Frankfurt. A bolsa local entrou em seus planos em agosto de 2020. “Tomamos a decisão ao saber do interesse de fundos de investimento em um possível IPO da Mobly no Brasil”, diz o diretor financeiro e de relações com investidores Marcelo Rodrigues Marques.
Os trabalhos de estruturação da oferta evoluíram sem sobressaltos. Registrado na CVM no início de dezembro, o IPO foi realizado em 4 de fevereiro, com a captação de R$ 811,6 milhões. O preço unitário atingiu a cifra de R$ 21, sendo 23,5% acima do piso da faixa indicativa. Os recursos serão utilizados em capital de giro, pagamentos de empréstimos, investimentos em marketing e na expansão da cadeia de lojas físicas.
“Nossa intenção é ampliar a rede, das 12 lojas atuais para mais de 50 nos próximos dois anos”, diz Marques.”

A Orizon faz planos de IPO desde 2013, quando adquiriu a Haztec, companhia de saneamento que acumulava dívidas por volta de R$ 700 milhões. Com a conclusão do seu processo de reestruturação, em 2020, a empresa estava pronta para iniciar a caminhada rumo à B3. “A decisão foi tomada há um ano”, informa o diretor de novos negócios Alexandre Citvaras.
O interesse crescente do mercado por opções de investimento atreladas ao conceito ESG (de ambiental, social e governança) assegurou boa demanda ao IPO. Em 12 de fevereiro a Orizon captou R$ 381 milhões, com os papéis negociados a R$ 22, sendo 10% acima do valor mínimo. O montante será utilizado para a redução do passivo e aquisições. “Novas emissões figuram em nossos planos para 2022”, diz Citvaras. “Estamos pensando em recorrer a outros instrumentos de captação, como green bonds.”
Na avaliação de gestores que atuam no segmento, são boas as chances de os IPOs retomarem a curva ascendente na próxima janela, até o fim de julho. Entre maio e junho, a CVM recebeu 17 propostas de abertura de capital, algumas das quais de nomes de destaque, como Companhia Brasileira de Alumínio, CSN Cimentos, Raízen e Oncoclínicas.
“O cenário macroeconômico é favorável à retomada dos IPOs. Os bancos estão revisando para cima suas projeções do PIB em razão, entre outros fatores, da melhora das contas públicas e da alta da arrecadação federal”, diz Miranda. “O mercado local também deve ser beneficiado pelos elevados preços alcançados pelas ações no exterior. O interesse dos investidores estrangeiros por ações brasileiras já é perceptível no mercado secundário, onde vem elevando suas posições.”