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CVM impulsiona mercado de acesso
Empresa autorizada pela CVM para funcionar no ambiente de sandbox regulatório irá negociar títulos emitidos por empresas emergentes

Edição 340

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) aprovou no final de setembro o funcionamento de uma nova empresa, a BEE4, para operar o mercado de balcão organizado num ambiente de sandbox regulatório (de caráter experimental, com menos regras). A BEE4, uma parceria entre três empresas de diferentes áreas, funcionará através de uma plataforma que negociará títulos emitidos por empresas emergentes, com faturamento anual entre R$10 milhões e R$300 milhões, a partir de março do ano que vem.
As três empresas parceiras na BEE4 são a Beegin, a CIP e a Finchaim, cada uma detentora de uma especialização complementar. A primeira é um portal de investimentos alternativos do Grupo Solum, a segunda uma integrante do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB) e a terceira uma one-stop-shop de serviços de blockchain e criptomoedas. As emissões feitas pelas empresas emergentes, com valor máximo de R$ 100 milhões, serão representadas por tokens e negociados na plataforma da BEE4.
“Será um ambiente de listagem e negociação de empresas que já cresceram o suficiente para deixarem de ser consideradas startups, com faturamento entre R$ 10 milhões e R$ 300 milhões, mas que ainda não estão maduras para abrir o capital em bolsa de modo tradicional”, explica head da Beegin e cofundadora do grupo Solum, Patrícia Stille.
O projeto, que começará em março de 2022, terá a duração de 12 meses renováveis por outros 12 meses. “Teremos que ficar muito próximos da CVM ao longo de todo esse período para acompanhar de maneira detalhada o funcionamento desse mercado, já que estaremos vivendo um período experimental, totalmente novo no Brasil embora já seja muito utilizado em outros países, como EUA e Inglaterra, por exemplo”, diz Stille.
Ela lembra que o momento do mercado de capitais no Brasil é ímpar para esse tipo de iniciativa, refletido no forte interesse pelos IPOs que ocorreram este ano e que só não foi ainda maior pela falta de um mercado de acesso. “O investidor institucional e todos os demais acordaram para a importância de contar com alternativas de investimentos que vão além da bolsa”, afirma.

A autorização da CVM estabelece que a BEE4 pode entrar em operação a partir do início de março de 2022, com a implantação total da infraestrutura planejada até março de 2023. Além dos ativos emitidos serem representados por tokens, a BEE4 terá várias atividades baseadas na tecnologia blockchain, cujo provedor será a Finchain.
“O Brasil está só começando nesse caminho e já tem uma presença importante de startups e de fundos de venture capital/private equity mas falta um ambiente secundário para que eles possam investir com facilidade de saída e liquidez absoluta”, explica Stille. O perfil de risco das empresas emergentes é mais alto e próximo daquele dos projetos de venture capital e private equity, mas quando surge a possibilidade de liquidez a tendência é de que sejam destravadas boa parte das decisões de investimento.
Do lado das empresas negociadas, o principal desafio, o da liquidez, será enfrentado com uma estrutura que começará a funcionar em janelas semanais de negociação e será reavaliada ao longo do tempo. “Queremos criar políticas de liquidez que sejam sugeridas pelas próprias empresas e sabemos que o trabalho será intenso. A ideia é começar com a nossa base de clientes e depois abrir para os demais intermediários”, diz a executiva.

A oferta primária se dará pela Beegin, com as rodadas de emissões. Depois de mostrar à CVM que o ambiente é seguro e de receber o seu sinal verde, o objetivo é pisar no acelerador e passar ao mercado secundário. Na segunda etapa, explica Stille, os clientes terão um cadastro adicional para que possam ir ao secundário e ter acesso à plataforma de negociação. O que significa que as empresas também precisarão estar dispostas a ter maior exposição ao mercado em relação à sua estrutura de governança, por exemplo.
“O capital dos institucionais será essencial para demonstrar que essa classe de ativos faz sentido por sua relação risco/retorno, mas é uma iniciativa ainda em formação e depois de passarmos por essa primeira etapa pretendemos acelerar para ter também ETFs e um índice próprio de emerging companies”, conta.
Segundo ela, a Beegin entregou um documento com mais de trezentas páginas detalhando especificações, escopos e salvaguardas à CVM, que por sua vez estabeleceu um processo técnico para avaliar as propostas, afirma. “Ficamos surpresos positivamente com o elevado grau de rigor de de questionamentos feitos pela CVM, esse escrutínio nos ajudou a avançar”.