Mainnav

Retomada do mercado
Fundos de índices crescem 61,31% nos últimos doze meses beneficiados pela valorização da bolsa e pelo aumento da demanda dos investidores

Edição 298

 

Evolução dos negócios (em pdf)

Com a queda dos juros e a busca dos investidores por ativos de maior risco, os ETFs (Exchange Traded Funds) foram um dos grandes beneficiados do mercado brasileiro em 2017, funcionando como canalizador da migração dos agentes da renda fixa para renda variável. O Patrimônio Líquido dos 15 ETFs ofertados no mercado brasileiro passou de R$ 3,80 bilhões em outubro de 2016 para R$ 6,13 bilhões em outubro de 2017, crescimento de 61,31%. Apesar do incremento, que inclui a valorização dos benchmarks no período, o montante representa apenas 3% da liquidez do mercado acionário brasileiro.
O BOVA11, ETF da BlackRock que replica o Ibovespa, é de longe o maior, com R$ 3,69 bilhões, seguido pelo PIBB11, que segue o IBrX-50, do Itaú, com R$ 1,05 bilhão. As duas casas concentram o negócio de ETFs no mercado brasileiro dividindo a gestão de 13 ETFs. A Caixa e o Banco do Brasil, em escala bem menor, com um ETF cada, também atuam no nicho.
“Esse crescimento dos ETFs está em linha com a realocação das carteiras dos investidores com a redução dos juros e a necessidade de adequação do portfólio para os próximos anos para atingir os retornos almejados no médio e longo prazo”, afirma Rodrigo Araújo, diretor da BlackRock.
Apesar da evolução apresentada pelos ETFs no mercado brasileiro, em termos globais esse é um segmento que gira cerca de US$ 4,5 trilhões através de aproximadamente cinco mil produtos, o que denota o potencial de crescimento do instrumento domesticamente. Desse montante global, 78% são ETFs de renda variável, 16% de renda fixa e 6% voltados para commodities e outras modalidades alternativas. “Enxergamos potencial para o mercado de ETFs no Brasil e globalmente também”, diz o diretor da BlackRock. Segundo avaliação do especialista, conforme os investidores forem ao longo do tempo aumentando seu posicionamento em ativos de maior risco é natural que classes de ativos como a renda variável recebam fluxos cada vez mais significativos de recursos, “o que fará com que o mercado de ETFs no Brasil cresça na mesma magnitude observada nos mercados desenvolvidos”.

Utilização – Araújo nota que, a despeito da forte valorização dos benchmarks da bolsa nos últimos meses e de uma procura crescente dos investidores por estratégias de gestão ativa em bolsa, os ETFs devem seguir com espaço nas carteiras dos investidores.
O diretor da BlackRock conta que, no mercado global principalmente mas também no brasileiro de maneira incipiente, investidores e gestores de recursos utilizam o ETF como um dos ativos que compõem as carteiras de ações, fazendo parte de uma combinação que busca um retorno diferenciado em relação a determinado referencial. “Em uma hipotética carteira com dez ativos, o gestor pode escolher nove ações e um ETF como forma de compor um portfólio que ele acredita que possa entregar retorno agregado superior à média do mercado”.
O profissional da BlackRock, que tem globalmente US$ 5,7 trilhões em ativos sob gestão, destaca que os ETFs são utilizados pelos investidores tanto como uma estratégia tática de curto prazo, para tirar proveito de eventuais movimentos de forte alta ou baixa dos mercados, como também nas alocações estruturais de longo prazo.
“Temos observados os investidores institucionais aumentando o uso dos ETFs, assim como os gestores de recursos, e mesmo o investidor pessoa física que também está voltando a ter alguma exposição em renda variável e acaba utilizando o ETF pelo fácil acesso, boa liquidez e custo mais baixo”. Em outubro de 2017 os institucionais respondiam por 55,89% dos negócios com ETFs no mercado brasileiro, seguidos pelas instituições financeiras, com 21,14%, pelos estrangeiros, com 16,14%, e pelas pessoas físicas, com 5,54%. Em outubro de 2016 a fatia dos institucionais no segmento era de 44,74%, enquanto as instituições financeiras ficaram com 36,23%; os estrangeiro com 13,21% e investidores pessoa física com 4,88%.

Temáticos – Renato Eid, gestor de portfólio da Itaú Asset, nota que ETFs temáticos tendem a ganhar cada vez mais espaço nas carteiras dos investidores nos próximos anos, em detrimento daqueles que apenas seguem um índice amplo. A gestora do Itaú oferta oito ETFs em sua grade, sendo que alguns já tem como proposta temas como sustentabilidade e governança. O executivo da casa ressalta que outras questões que também começam a ser mais valorizadas pelo mercado, como mulheres nos conselhos de administração das empresas, são passíveis de serem adotadas como baliza para possíveis futuros ETFs. “Até pela nossa experiência entendemos que não podemos apenas esperar pela demanda do cliente”, pontua Eid. Ele acrescenta que a capacidade de fomentar estratégias com ETFs é quase infinita, mas que para isso ocorrer é necessária uma maturidade maior do mercado. “Ainda estamos caminhando nesse sentido”, afirma o gestor.
Ao longo de 2017, até pelo bom desempenho apresentado pela Bovespa no período, os ETFs voltaram a atrair o interesse dos clientes da Itaú Asset. Neste ano, até outubro, a gestora teve um crescimento de 25% na captação por meio dos ETFs. Ainda assim, o nicho representa apenas 1% do patrimônio total gerido pela Itaú Asset de aproximadamente R$ 3 bilhões. “Esse é um mercado virtualmente inexistente no Brasil, mas temos uma forte convicção de que em algum momento ele vai se tornar muito grande”, pondera Eduardo Camara, head de ‘portfolio solutions’ da Itaú Asset.
Eid nota que a liquidez no mercado de ETFs é um vetor que deve pesar na decisão dos investidores de optar por esses instrumentos ao migrarem parte de seus recursos para ativos de maior risco. Em outubro de 2017 o volume negociado pelos ETFs na Bovespa somou R$ 6,29 bilhões, contra R$ 4,30 bilhões em igual período do ano passado, incremento de 46,27%. “Poder determinar em que momento fazer a entrada ou saída do investimento traz flexibilidade para o investidor escolher por uma alocação estratégica ou tática e é uma das grandes vantagens do instrumento”.
Segundo ele, os ETFs servem tanto a investidores que tem a intenção de carregar uma posição de renda variável por um longo período, pelo reduzido custo, quanto ao investidor de curto prazo, preocupado com a liquidez, pelo grau de liberdade que encontra nele. “O ETF funciona como um coringa, por ser possível de ser adotado em diferentes situações”.

Renda fixa – Sobre as discussões acerca do ETF de renda fixa, Camara comenta que se trata de tema acompanhado de perto pela instituição. “Ainda vemos algumas restrições que impedem o lançamento do produto, relativas à regulamentação e mesmo questões operacionais das clearings da bolsa; mas estamos monitorando e no momento adequado vamos analisar para ver se faz sentido entrar ou não”.
Sérgio Bini, superintendente nacional de gestão de ativos de terceiros da Caixa, também aponta “questões operacionais de sistema que ainda precisam ser superadas por parte dos agentes envolvidos, mas o projeto está caminhando”. Previsões dão conta de que os ETFs de renda fixa podem começar a chegar às prateleiras ao longo de 2018.

Retorno – Jorge Ricca, gerente executivo dos fundos de ações da BB DTVM, destaca o bom desempenho do ETF gerido pela casa, lastreado no benchmark S&P Dividendos, que subiu 38,6% no acumulado de 2017 até outubro, contra 23,4% do Ibovespa e 27,9% do Idiv. Ricca explica que por conta da diferença na metodologia utilizada pelo benchmark de dividendos da S&P em relação ao da Bovespa os nomes que compõem os índices são diferentes, o que explica a diferença nos retornos. “O objetivo ao criar o benchmark era ter um termômetro mais efetivo para o mercado local como proxy para ações de dividendos”, explica Ricca.
O retorno do ETF da BB DTVM foi o segundo mais alto no período, entre os 15 ofertados no mercado brasileiro atualmente, atrás somente do ETF de small caps da BlackRock. Até pelo bom rendimento apresentado, a BB DTVM registrou durante o ano crescimento aproximado de 20% na captação do produto. Ainda assim, o patrimônio de R$ 19,97 milhões ao final de outubro o coloca como o ETF de menor tamanho da indústria no país.
Ricca acredita que, por conta de suas características intrínsecas, como baixo custo, transparência e diversificação, os ETFs devem obter importante crescimento nos próximos meses em um ambiente de juros baixos e maior busca por risco. “As plataformas abertas voltadas ao varejo devem impulsionar os ETFs”, prevê o gerente da BB DTVM, que ressalta que da base de 630 cotistas do ETF da asset, que cresceu 93% no ano, a maior parte já é formada por esse público. “Estamos começando a popularizar nosso ETF, que é referenciado em um índice ainda não tão conhecido no Brasil todo como os índices amplos da B3”, diz o gerente.

Queda – Apesar da forte valorização da bolsa, o ETF da Caixa registrou queda no seu PL, de R$ 77,57 milhões em outubro de 2016 para R$ 58,97 milhões em outubro de 2017. Segundo Sérgio Bini, nos últimos meses a procura dos investidores atendidos pela Caixa se concentrou em estratégias ativas em detrimento das passivas no segmento de renda variável . “O público institucional tem como característica buscar estratégias que geram algum alfa em relação ao benchmark”.
Bini comenta que, por conta da liquidez do ETF, que tem suas cotas negociadas na bolsa, o produto do banco tem maior apelo junto a investidores que operam com o foco mais voltado para o curto prazo. Em relação a possíveis novos ETFs de renda variável, Bini fala que hoje já existem ETFs para praticamente todos os principais benchmarks do mercado, o que deve impedir a chegada de novos produtos, ao menos por parte da Caixa.