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ETF de renda fixa não entusiasma
Grandes gestoras não participaram da disputa para fazer o produto do Tesouro

Não despertou muito interesse de grandes gestoras, como Bram e Caixa o tão aguardado ETF de renda fixa, que após cerca de cinco anos das discussões iniciais no mercado e no governo teve seu edital lançado em maio pelo Tesouro. Embora o resultado do edital do Tesouro para selecionar a casa que colocaria o primeiro veículo do segmento no mercado brasileiro ainda não tenha sido anunciado, a Mirae Asset se antecipou e lançou no início de setembro seu próprio ETF de renda fixa no país.
O Tesouro não informou quantas nem quais gestoras participaram do edital, mas há especulações de que não foram muitas as casas interessadas no produto. Procuradas por Investidor Institucional, casas como BB DTVM, Itaú e BlackRock, que já atuam no mercado brasileiro de ETF, preferiram não se manifestar.
Segundo o CEO da Bradesco Asset Management (Bram), Ricardo Almeida, não há muita diferença entre um ETF de renda fixa e um fundo indexado passivo que acompanha determinado índice. “Por essa razão a gestora não participou do edital lançado pelo Tesouro, já que temos uma grade bem completa de fundos passivos, e ao menos no momento, não trabalhamos na estruturação de um produto do tipo”, diz o executivo.
Almeida afirma também que alguns aspectos técnicos e operacionais, como a eventual dificuldade de encontrar ativos de renda fixa no mercado de balcão que possam replicar perfeitamente o índice no ETF, dada a baixa liquidez do secundário, podem até mesmo encarecer o veículo em comparação com um fundo passivo. “Dado o volume dos institucionais, eles conseguem taxas mais em conta em fundos passivos do que deve ser a cobrada pelo ETF do Tesouro”, afirma o executivo.
No mercado de renda variável, prossegue o CEO da Bram, essa possível dificuldade em encontrar ativos no mercado para replicar determinado benchmark no fundo de índice não existe, já que as operações são realizadas na bolsa. E por essa razão a asset do Bradesco está no momento em estudos para lançar seu primeiro ETF de ações no mercado. “Não temos ainda, no entanto, estimativa de quando deve ser o lançamento ou qual será o índice de referência”, pondera Almeida.
De acordo com o executivo, nos mercados desenvolvidos o segmento de ETFs de renda fixa é representativo pelas vantagens tributárias que oferece aos investidores, o que segundo ele não acontece no Brasil.
A Caixa também optou por não participar do edital lançado pelo Tesouro, mas segundo o superintendente nacional de gestão de ativos de terceiros, Sérgio Bini, está nos planos do banco a estruturação de um produto do tipo nos próximos meses. “Mas ainda não temos nada concreto a respeito”, ressalta Bini, que prefere não detalhar os motivos que fizeram a Caixa decidir não participar do edital do governo.

Amadurecimento – Na avaliação do superintendente da Caixa, o mercado brasileiro ainda precisa de uma cultura mais forte de investimentos em bolsa, onde serão negociadas as cotas do ETF de renda fixa, para que as gestoras tenham maior interesse em lançar novos produtos desse tipo. “Nos últimos anos tivemos uma estagnação, com até uma pequena queda no número de investidores pessoa física negociando na bolsa brasileira”, constata o especialista.
O fato da Selic estar na mínima histórica, reconhece Bini, reduz um pouco a atratividade do produto, não apenas do ETF de renda fixa mas também da classe como um todo. “Com a taxa em 6,5% o investidor acaba buscando outras alternativas que possam entregar maior retorno”.

Retornos – Para o diretor de investimentos da Mirae, André Pimentel, embora a taxa de juros esteja na mínima histórica, mesmo nos vértices mais curtos da curva de juros, que são aos quais o ETF da casa estará exposto, os prêmios oferecidos estão bem acima dos 6,5%. “A taxa de julho de 2021, por exemplo, está próxima de 10,20%, entendemos que é um patamar bastante atrativo, de dois dígitos, quando nos desenvolvidos o prêmio ainda está muito abaixo disso”. O BNP Paribas vai atuar como administrador do fundo, e a Mirae ainda busca uma instituição para trabalhar como formadora de mercado.
Pimentel explica que a casa optou por não participar do edital lançado pelo Tesouro porque já vinha há dois anos trabalhando na estruturação de seu próprio ETF de renda fixa. “Foi uma coincidência nosso produto ter ficado pronto em momento próximo ao lançamento do edital”, afirma Pimentel, que reconhece que após a divulgação do edital o trabalho de estruturação foi acelerado para que a Mirae fosse a primeira a colocar no mercado brasileiro um produto do tipo.
A expectativa da Mirae é de, ao longo dos próximos dois anos, captar cerca de R$ 10 bilhões com o novo produto, tendo entre o público em potencial investidores institucionais e estrangeiros.
“A decisão de colocar um prazo de três anos é para oferecer uma boa liquidez aos investidores, e junto com a taxa de 0,30%, foram as formas que encontramos de trazer um produto competitivo”, diz o gestor.

Tesouro vê com bons olhos evolução do nicho
Através de nota, o Tesouro Nacional informou que o processo de seleção do gestor do ETF ainda iria se estender por mais alguns dias. “O ETF é uma inovação financeira bem-sucedida no mundo, porque é uma aplicação flexível, transparente e democrática, voltada tanto para pessoas físicas quanto para investidores institucionais. Esse mercado ainda não existe no Brasil e por isso o Tesouro Nacional, em conjunto com o Banco Mundial, apoia o lançamento do produto no país, pois o vê como uma maneira de desenvolver o mercado, estimular a educação financeira e trazer esses benefícios para os pequenos e grandes aplicadores locais”, aponta a autoridade monetária no comunicado. A nota do Tesouro acrescenta ainda que trata-se do primeiro ETF apoiado pelo emissor – que é o próprio Tesouro Nacional – do mundo, e que ao emitir diretamente a cesta de títulos para a carteira do gestor, o Tesouro reduzirá os custos de lançamento do produto.
“É importante destacar”, prossegue o órgão do governo, “que este não é um produto do Tesouro Nacional e sim um produto apoiado pelo emissor mas gerido e ofertado por uma instituição privada”. Segundo o Tesouro, o seu objetivo com o projeto é, sobretudo, fomentar esse mercado, “por isso a instituição vê com bons olhos o surgimento do interesse de gestores e corretoras em torno dessa modalidade de aplicação. Todo o projeto de lançamento, que envolveu discussões ao longo dos anos e um trabalho conjunto com outras instituições, foi bastante frutífero nesse sentido, pois resultou na definição da forma de tributação, na criação de sistemas de negociação em conjunto com a B3 e na elaboração do arcabouço regulatório para o ETF”, finaliza o comunicado.